Uma abordagem leninista ao confronto inter-imperialista na Ucrânia

Nikos Mottas, via In Defense of Communism, traduzido por Marcelo Bamonte

“A classe operária”, sublinhava V. I. Lênin, “se for consciente, não apoiará nenhum grupo de predadores imperialistas”. [1] Mais especificamente, no que diz respeito à postura do movimento operário em relação aos imperialistas, ele estava usando o seguinte exemplo característico:

“Um país, digamos, possui três quartos da África, enquanto outro possui um quarto. Uma repartição da África é o conteúdo objetivo de sua guerra. De que lado devemos desejar o sucesso? Seria absurdo colocar o problema em sua forma anterior, já que não possuímos os velhos critérios de avaliação: não há nem um movimento de libertação burguês de décadas, nem um longo processo de decadência do feudalismo. Não é tarefa da democracia atual ajudar o primeiro país a afirmar seu “direito” a três quartos da África, ou ajudar o último país (mesmo que esteja se desenvolvendo economicamente mais rapidamente do que o primeiro) a tomar esses três quartos. A democracia atual só permanecerá fiel a si mesma se não unir nem a uma nem a outra burguesia imperialista, apenas se disser que os dois lados são igualmente maus e se desejar a derrota da burguesia imperialista em todos os países. Qualquer outra decisão será, na realidade, nacional-liberal e não terá nada em comum com o internacionalismo genuíno. […] Na realidade, não se pode falar agora da democracia atual seguindo o rastro da burguesia imperialista reacionária, não importa qual seja a ‘tonalidade’ desta última”. [2]

O legado leninista sobre a postura da classe trabalhadora em uma guerra imperialista foi e continua sendo extremamente relevante. Especialmente em nossos dias, quando os tambores da guerra estão batendo cada vez mais alto na Ucrânia. Está provado que a guerra é a continuação da política por outros meios violentos e militares, e é preparada através do confronto feroz de interesses concorrentes da classe burguesa e dos governos que a servem.

Com base nessa posição, Lênin rejeitou “a concepção ignorante do homem comum da guerra como algo à parte das políticas dos governos e das classes envolvidas, como sendo um simples ataque que perturba a paz, e então é seguida do restabelecimento da paz assim perturbada, chegando a dizer: ‘Eles brigaram, depois fizeram as pazes!'” E sublinhava que “a guerra é uma continuação da política por outros meios. Todas as guerras são inseparáveis ​​dos sistemas políticos que as engendram. A política que um determinado Estado, uma determinada classe dentro desse Estado, perseguiu por muito tempo antes da guerra é inevitavelmente continuada por essa mesma classe durante a guerra, mudando apenas a forma de ação”.[3]

Mas por que mencionamos todos os itens acima? Por ocasião da rápida intensificação da rivalidade inter-imperialista entre as forças euro-atlânticas (EUA, OTAN, UE) e a Rússia na Ucrânia, uma série de ideologias enganosas e falaciosas vêm à tona que chamam os trabalhadores a fazer uma escolha e apoiar um ou outro lado. Na Grécia, por exemplo, Estado-membro da UE e da OTAN, a percepção dominante na mídia burguesa destaca a necessidade de apoiar as forças euro-atlânticas “democráticas” contra o “autoritarismo” de Putin, apostando também no cultivo sistemático da propaganda anti-russa. Por outro lado, os partidários da narrativa pró-russa tentam apresentar a Rússia capitalista de Putin como uma potência “anti-imperialista” e um reduto do “antifascismo” contra a aliança euro-atlântica e os fascistas de Kiev.

Ambas as visões que pedem o apoio a um lado ou a outro são enganosas e, acima de tudo, perigosas para a classe trabalhadora e para o povo. Em poucas palavras, elas conclamam o povo para escolher um imperialista, com base em quem é mais ou menos mau. Mas, existe imperialista bom e ruim? Que interesse tem a classe trabalhadora em ser arrastada sob as bandeiras falsas de um ou outro imperialista?

É preciso entender que, nas últimas duas décadas, o crescimento desigual do capitalismo levou ao surgimento e rápido fortalecimento de novas potências econômicas mundiais, como China e Rússia, que reivindicam uma fatia cada vez maior do mercado internacional. A ascensão econômica dessas potências é inevitavelmente acompanhada pelo aprimoramento de sua força política e militar, levando a rearranjos no “tabuleiro de xadrez” imperialista e ao acirramento das competições com as potências indiscutivelmente dominantes, como os EUA e UE. Este acirramento da concorrência imperialista está se manifestando hoje na Ucrânia e na Europa Oriental.

Na Ucrânia e na região mais ampla da Europa Oriental, o oponente inspirador das potências belicistas euro-atlânticas (EUA, OTAN, UE) é a Rússia capitalista. Devemos sempre ter em mente que não é a União Soviética, mas um país com um conteúdo social e de classe completamente diferente. A percepção de que a Rússia não é uma potência imperialista, mas apenas um país capitalista na “periferia” do sistema imperialista que, ao lado da “China socialista” (sic), exerce um efeito positivo na política internacional é totalmente equivocada. Tal abordagem está em oposição direta ao conceito leninista de imperialismo, na medida em que separa a política da economia.

Da mesma forma, aqueles que tentam “vestir” a Rússia capitalista de hoje com elementos que caracterizaram a União Soviética (antifascista, anti-imperialista, progressista) contribuem para a desorientação e manipulação do movimento operário, especialmente em períodos de intensificação da concorrência imperialista. A menos que eles queiram nos convencer de que o presidente Putin é uma espécie de “Stálin” do século 21 que, ao lado de Shoygu no papel de “Júkov” e Lavrov como “Molotov”, estão tentando salvar a humanidade dos nazistas modernos.

Deve-se entender que, na era do imperialismo, não pode haver Estados capitalistas pacíficos. E se no início de uma guerra a diferença entre o Estado burguês atacante e o Estado burguês defensor é talvez relativa, a questão importante em qualquer guerra é uma: qual classe conduz a guerra, com que propósito e em que estágio do desenvolvimento histórico.

Em sua obra Socialismo e guerra, Lênin escrevia:

“Imaginem um proprietário de escravos que possuía 100 escravos guerreando contra um proprietário de escravos que possuía 200 escravos, por uma distribuição mais ‘justa’ de escravos. Claramente, a aplicação do termo guerra ‘defensiva’ ou guerra ‘pela defesa da pátria’ em tal caso seria historicamente falsa e, na prática, seria puro engano das pessoas comuns, dos filisteus, dos ignorantes, pelos astutos donos de escravos. Precisamente assim a burguesia imperialista atual engana os povos por meio da ‘ideologia nacional’ e do termo ‘defesa da pátria’ na presente guerra entre senhores de escravos para fortalecer e reforçar a escravidão”.[4] O exemplo acima pode servir como um retrato para o conflito inter-imperialista de hoje entre EUA-OTAN-UE e Rússia na Ucrânia.

O movimento comunista e operário deve formar uma frente implacável e firme contra os planos imperialistas criminosos das potências euro-atlânticas (EUA, OTAN, UE). No entanto, ao mesmo tempo, não deve ficar do lado de nenhum outro Estado capitalista (Rússia) ou aliança imperialista (China-Rússia) escolhendo bandeiras que são estranhas aos seus interesses. O povo trabalhador não deve derramar seu sangue pelos interesses de nenhum imperialista (mais ou menos poderoso, americano ou russo, europeu ou chinês).

Ao contrário, o movimento operário-popular na Grécia e em qualquer outro país deve traçar uma linha independente, em um caminho de confronto e ruptura com os interesses burgueses e imperialistas, tendo como único critério os interesses da classe trabalhadora e das camadas populares. Na era do imperialismo, a única guerra justificada é a guerra revolucionária de classes, pela conquista do poder pelo proletariado e seus aliados.

Hoje, as palavras de Lênin são mais atuais do que nunca: “Só uma revolução comunista proletária pode tirar a humanidade do impasse criado pelo imperialismo e pelas guerras imperialistas. Não importa quais as dificuldades que a revolução possa encontrar e apesar do fracasso temporário das ondas de contrarrevolução, a vitória final do proletariado é inevitável”.[5]

Referências

(1) Lenin Collected Works, V.27, pp. 335-336.

(2) V. I. Lênin. “Sob uma bandeira falsa”, Lenin Collected Works, Progress Publishers, [197[4]], Moscou, Volume 21, páginas 135-157. https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1915/mar/x01.htm

(3) V.I. Lênin. Guerra e Revolução, Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1964, Moscou, Volume 24, páginas 398-421. https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1917/may/14.htm

(4) V.I. Lênin Socialismo e Guerra, Capítulo Um. https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1915/s-w/ch01.htm

(5) Programa Político do PCUS, 22 de março de 1919 no Oitavo Congresso do Partido Comunista Russo https://www.marxists.org/history/ussr/government/1919/03/22.htm)

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4 comentários em “Uma abordagem leninista ao confronto inter-imperialista na Ucrânia”

  1. A Rússia é uma potência média, e relativamente pobre, como Brasil, Índia, Irã. Como estes, oprimida pelo imperialismo. Criar um imperialismo russo, chinês, brasileiro, não é uma forma de ocultar o imperialismo que de fato existe e oprime os povos?

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  2. Outra indagação : se eu, digamos, fosse um imperialista (EUA), e tivesse o objetivo de destruir um país que resiste à minha dominação, não teria interesse em alimentar a linha política defendida neste artigo (entre outras)? Pois, pelo menos neste momento, o imperialismo não tem nenhum motivo para temer qualquer guerra revolucionária.

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  3. Eu só acho que os exemplos apresentados são meio anacrônicos em relação ao que estamos vendo hoje. Da mesma forma que é descabido relacionar a Rússia de hoje, onde não há qualquer dúvida de que houve uma completa restauração do capitalismo e do poder da burguesia, com a antiga União Soviética, também não dá para colocar a Rússia numa relação de igualdade com os Estados Unidos e a OTAN, no que se refere a imperialismo. Putin é um nacionalista de direita, com um governo francamente conservador e burguês, com fortes tendências autocráticas. Nenhuma dúvida se pode ter em relação a isso. No entanto, no presente caso da Ucrânia, delimitar áreas de influência como forma de garantir a segurança e a soberania da Rússia, não pode ser colocada no mesmo patamar de uma agressiva política imperialista, que é o que os Estados Unidos e a Otan vem fazendo no leste europeu desde o fim da União Soviética. O caso da Ucrânia só reforça essa questão. Não é o caso de escolher um lado nesta luta, mas de saber estabelecer de maneira correta de que forma cada lado está agindo.

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  4. A esquerda “intelectualizada” está em franca decadência. Até hoje não compreenderam o que é imperialismo. Chamar a Rússia de imperialista é rasgar o ABC do marxismo, do leninismo. A Rússia é um país de capitalismo atrasado, exportadora de bens primários. Há uma grande confusão por conta do poderio bélico russo, mas isso não caracteriza a economia e a política de um país.
    A esquerda deve apoiar a Rússia contra o imperialismo, contra o Estado nazista ucraniano.

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