A luta ideológica no movimento operário

Por Vladímir Ilitch Uliánov, via marxists.org, traduzido pro Pedro Furtado

A profunda mudança ideológica que ocorrera dentro da oposição, ou setores progressistas do povo, é uma característica extremamente importante e distintiva da Rússia pós-revolucionária. Esquecer essa particularidade prejudica a compreensão da revolução russa e de seu caráter, assim como das tarefas da classe operária em nosso tempo.

A mudança ideológica que houve na burguesia liberal se expressa na ascensão de uma tendência antidemocrática (Struve, Izgoiev e V. Maklakov abertamente, o resto dos Kadets secretamente, “timidamente”)

Entre os democratas essa mudança se expressa na absoluta confusão e vacilação ideológica, que prevalece tanto entre os social-democratas (democratas proletários) quanto entre os socialistas revolucionários (democratas burgueses). Até mesmo os melhores representantes da democracia se limitam apenas a lamentar essa confusão, vacilação e retrocesso. Os marxistas, entretanto, olham paras as raízes de classe desse fenômeno social.

O principal sintoma dessa desintegração é o liquidacionismo. Essa corrente, já em 1908, foi definida oficialmente como: “uma tentativa de parte dos intelectuais do partido de liquidar” a clandestinidade e a “substituir” por um partido operário legal, definição ratificada por “todo o corpo marxista” [1]. Na última reunião oficial dos dirigentes marxistas, realizada em janeiro de 1910, estiveram presentes representantes de todas as “tendências” e grupos, e não houve uma pessoa sequer que tenha protestado contra a condenação do liquidacionismo como uma manifestação da influência burguesa sobre o proletariado. Essa condenação, que é também a explicação das raízes de classe do liquidacionismo, foi adotada por unanimidade.

Mais de 4 anos se passaram desde então e a vasta experiência do movimento operário de massas forneceu milhares de provas que essa avaliação do liquidacionismo é a correta.

Os fatos mostraram que o marxismo e a experiência prática do movimento operário de massas mataram o liquidacionismo, que é uma tendência burguesa e antioperário. É suficiente recordar como em um único mês, março de 1914, a Gazeta Severnaya Rabochaya difamou a “imprensa ilegal” (edição de 13 de março) e manifestações (o sr. Gorski, na edição de 11 de abril), e como Bulkin em uma perfeita imitação dos liberais, vilipendiou a “clandestinidade” (Nasha Zarya n. 3), como o notório L. M, em nome dos editores do Nasha Zarya apoiou totalmente Bulkin nesse ponto e defendeu a “organização de um partido operário legal”. É suficiente relembrar tudo isso para entender por quê a atitude dos operários com consciência de classe com o liquidacionismo não pode ser nada mais que não a condenação impiedosa e o completo boicote dos liquidacionistas.

Mas aqui aparece uma questão muito importante: Como essa tendência surge historicamente?

Ela surgiu no curso dos 20 anos de ligação do marxismo com o movimento operário de massas na Rússia. Até 1894-1895 não havia tal relação. O grupo Emancipação do Trabalho só lançou as bases teóricas para o movimento social-democrata e tomou o primeiro passo na direção do movimento operário.

Foi só a propaganda de 1894-95 e a greve de 1895-96 que estabeleceu laços firme e inquebráveis entre a socialdemocracia e o movimento operário.  Imediatamente uma luta ideológica começou entre as duas tendências do marxismo: a luta entre os “economistas” e os marxistas consequentes ou (mais tarde) os iskristas (1895–1902), a luta entre os mencheviques e os bolcheviques (1903-08) e a luta entre os liquidacionistas e os marxistas (1908-14).

Economismo e liquidacionismo são duas formas diferentes do mesmo oportunismo intelectual pequeno-burguês que existe há 20 anos. É um fato inconteste a conexão pessoal, e também ideológica, que existe entre todas essas formas de oportunismo. Basta mencionar o nome do líder dos economistas: A. Martynov, que posteriormente tornou-se um menchevique e agora é um liquidacionistas. É suficiente lembrar as declarações de alguém como G. V. Plekhanov, o qual em muitos pontos[2] esteve próximo dos mencheviques, mas, no entanto, admitiu abertamente que os mencheviques absorveram elementos oportunistas intelectualistas nas suas fileiras, e que os liquidacionistas deram continuidade aos erros dos economistas e foram disruptores do partido operário.

Pessoas que (como os liquidacionistas e Trotsky) ignoram ou falsificam esses 20 anos de história de luta ideológica no movimento operário causam tremendo dano aos operários.

Um operário que adota uma atitude indiferente diante da história de seu próprio movimento não pode ser considerado alguém com consciência de classe. De todos os países capitalistas a Rússia é um dos mais atrasados e mais pequeno-burguês. Esse é o porquê o movimento operário de massas deu origem a uma ala pequeno-burguesa e oportunista dentro do movimento; não é algo por acaso, mas inevitável. 

O progresso feito durante esses vinte anos em livrar o movimento operário da influência da burguesia, do economismo e do liquidacionismo foi enorme. Pela primeira vez uma base proletária real para um partido marxista de fato está sendo seguramente estabelecida. É tão amplamente admitido, que até mesmo os oponentes dos pravdistas são obrigados a reconhecer que entre os operários com consciência de classe os pravdistas constituem a grande maioria. O que a “plenária” marxista de janeiro de 1910 reconheceu teoricamente (que o liquidacionismo é uma “influencia burguesa no proletariado”), os operários com consciência de classe estão colocando em pratica há quatro anos. Sua atuação pratica demonstra isso através do enfraquecimento dos liquidacionistas, da remoção deles de seus postos e da sua redução a um grupo de publicistas oportunistas que estão fora do movimento operário de massa.

Durante esses 20 anos de confronto de ideias, o movimento operário na Rússia tem crescido em escopo e força, além de amadurecer continua e firmemente. Derrotou o economismo e o melhor do proletariado com consciência de classe aliou-se aos iskristas. Em todos os estágios decisivos da revolução eles deixaram os mencheviques em minoria, mesmo o próprio Levitsky teve que admitir que as massas operárias seguiam os bolcheviques.

E, por último, o movimento operário de massas derrotou o liquidacionismo e, como resultado, tomou o caminho correto da luta ampla – iluminada pela teoria marxista e resumida em slogans incontornáveis – da classe avançada pelos avançados objetivos históricos da humanidade.


Notas:

[1] Refere-se ao V Congresso do POSDR (Conferência de Toda Rússia de 1908)

[2] Por que dizemos “em muitos pontos”? Porque Plekhanov ocupou uma posição especial e divergiu dos mencheviques muitas vezes: (1) no congresso de 1903 Plekahnov lutou contra o oportunismo dos mencheviques; (2) depois do congresso, Plekahnov editou os núms. 46-51 do Iskra se opondo aos mencheviques; (3) em 1904 defendeu o plano de Axelrod para uma campanha zemstovista, de tal forma que ignorou seus principais erros; (4) deixou os mencheviques na primavera de 1905; (5) em 1906, após a dissolução da I Duma, adotou um posicionamento em nada semelhantes aos mencheviques; (ver O Proletário, [3] agosto de 1906); (6) no congresso de Londres de 1907, segundo relato de Cherevanin, Plekhanov combateu o “anarquismo organizativo” dos mencheviques. É preciso levar em conta esses fatos para entender por quê o menchevique Plekhanov denunciou e lutou longa e arduamente contra o liquidacionismo. 

[3] O Proletário foi um jornal Bolchevique clandestino, publicado de 21 de agost (3 de setembro) de 1906 até 28 de novembro (11 de dezembro) de 1909 sob a editoria de Lênin. Foram publicados 50 edições do jornal, que tinha como colaboradores ativos M. F. Vladimirsky, V. V. Vorovsky, I. F. Dubrovinsky, A. V. Lunacharsky, entre outros. Os primeiros 20 volumes foram preparados pela imprensa e impressos em Vyborg, entretanto, conforme as condições de publicação ilegal na Rússia foram se tornando mais difíceis a publicação do jornal foi transferida para o exterior (Genebra e Paris).

O Proletário era virtualmente o órgão central dos bolcheviques. A maior parte do trabalho no jornal era realizado por Lênin, quase todas as edições do jornal continham algum artigo seu. O Proletário publicou mais de 100 artigos e parágrafos de Lênin tratando sobre os assuntos mais importantes da luta revolucionária da classe operária. O jornal tratava de questões táticas e políticas de interesse público, além de apresentar relatórios sobre as atividades do Comitê Central do POSDR, as decisões de conferências e reuniões plenárias do CC, cartas do CC sobre várias questões das atividades do Partido e uma série de outros documentos. Um suplemento para o nº 46 do jornal publicou um relatório sobre a conferência do Conselho Editorial ampliado do Proletário, assim como as resoluções dessa reunião, que foi realizada em Paris em 8-17 de junho (21-30) de 1909. O jornal estava em contato estreito com as organizações locais do Partido.

Durante os anos da reação de Stolypin, o proletário desempenhou um papel destacado na salvaguarda e fortalecimento das organizações bolcheviques, na luta contra os liquidacionistas, otzovistas, ultimatumistas e dogmáticos.

A publicação do jornal cessou em 1910 de acordo com a decisão do plenário de janeiro do C.C. do R.S.D.L.P.

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