Breves reflexões sobre a tomada do poder nazifascista e suas representações

Por Eros Viana de Lima Penha

O objetivo deste artigo é explorar de forma concisa, sem grandes pretensões, alguns dos elementos sociais, políticos e econômicos que tornaram concretas as possibilidades da ascensão nazista na Alemanha em específico, o nazifascismo em geral, levando em conta, principalmente, alguns dos elementos preteridos por uma tradição historiográfica (Sobretudo da filósofa alemã Hannah Arendt), que pouco levam em conta o seu projeto econômico, suas ligações políticas, sua origem colonial e irracionalista e, sobretudo, seu conteúdo de classe. O debate crítico é feito à luz de autores como Domenico Losurdo, Michael Parenti, Georg Lukács, entre outros estudiosos qualificados que trazem elementos de desmistificação sobre o tema.


O caso alemão: a crise decorrente do Tratado de Versalhes, as teorias racistas e a formação dos grupos paramilitares.

A crise ensejada pelo fim da Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Versalhes na República de Weimar possuía dimensões diferentes. Se afloraram ao mesmo tempo crises econômicas, políticas e de legitimidade, todas tomando conta da realidade do povo alemão no pós-guerra. Há diversas formas de se entender esta multiplicidade de crises que tomam a República de Weimar, herdeira de toda sorte dos infortúnios da Primeira Guerra, porém, creio que uma das formas mais humanizadoras de se entender a História, para além de números, sobretudo para momentos de profunda crise, seja o de expor os relatos de seus viventes, como é o seguinte:

A queda não chegou a ser desastrosa durante os primeiros dois anos. Entre 1918 e o verão de 1921, o marco caiu da tradicional taxa de 4,20 dólares para 75 dólares — evidentemente muito ruim, mas bem próximo do que outros países vivenciaram em outros tempos. Ademais, o povo estava preocupado com problemas mais urgentes. — Eu me lembro é da fome — diz Salka Viertel, atriz misteriosa e atraente, hoje uma dama de cabelos brancos, residente numa villa situada na aldeia de Klosters, nas montanhas suíças. — Vivia faminta e com frio, às vezes levemente embriagada, posto que sempre se podia obter álcool, desde que se tivesse algum dinheiro.  (FRIEDRICH, p.136, 1997).

Como indica o começo da citação, os dois primeiros anos, ainda sob tumultos e convulsões sociais profundas, não eram os anos realmente derradeiros, mas os efeitos mais perversos da crise já eram sentidos: a fome, a falta de moradia, a falta de emprego, a inflação. Mesmo para os que eram considerados de uma classe-média bem estabelecida, ficaram com absolutamente nada, a situação de pauperização da classe trabalhadora foi geral. Os anos que seguiram aprofundaram a crise econômica com a crise política e de representação da democracia liberal burguesa. A classe trabalhadora alemã e internacional sentia ainda o duro golpe causado pelo desfecho da Revolução Alemã de 1918[1]: desmobilização da classe, a derrota humilhante (Com o importante elemento de “traição dos Sociais-Democratas” dos objetivos revolucionários, como ficou conhecido), a morte de vários quadros da Liga Espartaquista que se tornara em 1919 o KPD (Partido Comunista da Alemanha), como era o caso de grandes nomes como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

A revolução havia sido enterrada, com a ajuda dos próprios Sociais-Democratas[2], a contrarrevolução era personificada na figura de Friedrich Ebert, que acabara legitimando e chamando a combate as Freikorps, as milícias paramilitares que futuramente viriam a ser pivô para o fim da própria República de Weimar[3], tão visada por Ebert, que preferia uma aliança com empresários e membros da classe dominante alemã a se aliar com os temidos comunistas. A divisão profunda que havia tomado conta do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e da própria esquerda, eram fatores concretos e que muito têm a ver com aquilo que se objetiva aqui (Entender um pouco sobre a ascensão Nazista, ou Nazifascista, na Alemanha) e são dados importantes que nos ajudarão a entender como, mais a frente, houve uma certa desmobilização daquilo que se convenciona a chamar de “a Esquerda” (Ou, melhor, “as Esquerdas”), o que acabou para colaborar para a ascensão do Nazismo Alemão, uma classe desmobilizada, com um projeto político falido e derrotado.

O elemento de “reparações” para outros países também não deve ser subestimado não só em seu âmbito econômico, mas em como influenciou o pensamento dentro da República de Weimar. As reparações a serem pagas para a França, por exemplo, contribuíram para facilitar um discurso nacionalista (Chauvinista) que se opunha não só ao Tratado de Versalhes, mas que se opunha a qualquer ação vista como “submissão” aos outros poderes imperialistas europeus. Não que não houvesse realmente uma tentativa de submeter o povo alemão à uma excruciante punição que tirava vidas inocentes, mas o nacionalismo chauvinista exacerbado desembocaria na junção de um discurso de afirmação nacional como uma forma de negação do exterior, do estrangeiro. Neste sentido, a ideia de um Lebensraum (Que, em tradução literal, seria algo como “espaço vital”), foi bem aproveitada pelo Nazismo. O povo alemão precisava de seu espaço vital e qualquer forma de “subordinação às raças inferiores” ou à outras “nacionalidades” era tratado como uma humilhação da raça superior. Demonstra-se no trecho a seguir toda a vontade de extrair o máximo que se podia da República de Weimar por parte das potências europeias (A França, neste caso), que, em nome dessa reparação pela guerra, impôs alguns dos piores momentos pelo qual o povo alemão passou.

As discussões sobre o ressarcimento das perdas de guerra prosseguiam interminavelmente. Tendo solicitado uma moratória, os alemães morrinhavam as entregas de matérias-primas, tentando negociar cláusulas menos desfavoráveis. O vingativo premier da França, Raymond Poincaré, ávido por qualquer pretexto que lhe permitisse invocar violações do Tratado de Versailles, justificando uma nova invasão da Alemanha, recusou-se a aceitar essa tática. — Aconteça o que acontecer — ele advertira o primeiro-ministro britânico, Bonar Law — devo avançar pelo Ruhr em 15 de janeiro. — Independentemente das ameaças, os franceses apresentaram uma queixa formal pelo fracasso dos alemães na entrega de metade dos duzentos mil postes telefónicos que deveriam ter sido enviados à França em 1922 (FRIEDRICH, p.137, 1997)

A guerra econômica mata de fome, mata de sede, mata por desemprego, mata por falta de infraestrutura, mata por falta de remédios, hospitais, profissionais capacitados etc. A inflação é parte desta guerra econômica imposta no pós-guerra de um país já destruído, com numerosas vidas perdidas e ainda sentindo pelos seus mortos de guerra. É digno de nota a frase de Keynes que afirma o seguinte: “o processo contínuo da inflação permite aos governos confiscar, secreta e imperceptivelmente, uma parte importante da riqueza dos cidadãos […] aglutinando as forças ocultas da economia em prol da destruição e operando de tal forma que nem mesmo um homem, em um milhão, seria capaz de diagnosticar” (KEYNES apud FRIEDRICH, p. 135, 1997). Os efeitos nefastos das imposições econômicas do Tratado de Versalhes se mostravam tão letais e tão radicalizadores quanto a própria guerra de trincheiras. Para se entender um pouco das cifras astronômicas envolvidas na hiperinflação da República de Weimar, é possível citar este trecho do importante livro “A Chegada do Terceiro Reich”:

Quem quisesse comprar um dólar em janeiro de 1923 teria que pagar mais de 17 mil marcos por ele; em abril, 24 mil; em julho, 353 mil. Isso era hiperinflação em uma escala verdadeiramente assombrosa, e a cotação do dólar em marcos pelo resto do ano é mais bem representada em números que logo tornaram-se mais compridos do que qualquer coisa encontrada até mesmo numa lista telefônica: 4.621.000 em agosto; 98.860.000 em setembro, 25.260.000.000 em outubro, 2.193.600.000.000 em novembro, 4.200.000.000.000 em dezembro […] No seu auge, a hiperinflação pareceu aterrorizante. O dinheiro perdeu o significado quase por completo. As máquinas impressoras eram incapazes de dar conta da produção de notas promissórias bancárias de denominações cada vez mais astronômicas, e os municípios começaram a imprimir seu próprio dinheiro de emergência, usando apenas um lado do papel. (EVANS, pp.124-125, 2014)

É neste cenário político e econômico, de desmobilização das classes trabalhadoras (Ou melhor, de uma investida para esta desmobilização), junto à uma desmoralização geral do povo alemão, com uma brutal e silenciosa forma de guerra tomando a República de Weimar (A guerra econômica) em que Hitler e o Partido Nazista se inserem. Não é difícil entender como ressoava para uma juventude perdida entre os horrores da guerra e a realidade da fome no pós-guerra os discursos inflamados de Nacionalismo. Esses discursos, acima de tudo, encontravam um “inimigo” a ser culpado, além das próprias potências do período e do Tratado de Versalhes imposto por elas: os judeus, aos quais Hitler e o Partido Nazista assinalavam a noção de “Untermensch” (Traduzido em português como “sub-humano”). Esta noção tem em sua origem direta uma referência aos círculos estadunidenses de supremacista brancos, em especial a Ku Klux Klan (KKK) e o “teórico” do racismo Lothrop Stoddard[4], claro, isto é, sem subestimar as influências da “longa duração” que ocorria na Europa principalmente, de vilificação e perseguição mais que centenárias do povo judeu. É necessário, sobretudo, se afastar da historiografia que tenta colocar o Nazismo como um fenômeno especificamente cultural e, com perdão do uso do termo, “psicologizar” a História, focando suas explicações sobre o Nazismo por motivos como “Hitler era louco”, “Hitler era um artista frustrado” etc. Estas explicações fazem pouco, ou nada, para nos elucidar as características do nazifascismo.

É impossível falar da ascensão de Hitler e do Nazismo sem mencionar dois grupos que representam os sustentáculos da operação Nazista: as Freikorps, representando o movimento de massa do Nazismo, e os empresários, representando a profunda ligação do Nazismo com as burguesias. As Freikorps eram de longa data no território germânico, sendo que os primeiros usos da palavra eram para se referir aos voluntários resistentes às ocupações napoleônicas[5] (Daí vem o significado do nome: “Corpos” de Corpo do Exército, “Livres”, Freikorps). É possível observar então, que o nome fazia já uma alusão à ideia de defender a “pátria alemã” de uma invasão exterior, já denotando este caráter nacionalista que teriam essas milícias armadas. Estes grupos armados foram de fundamental importância na vida política da República de Weimar em seu início, especialmente durante a Revolução de 1918, momento no qual a Social Democracia, representada pelo SPD, se alinhou com as forças reacionárias das Freikorps, que assassinou no berço quaisquer ideais revolucionários.

É difícil fazer uma estimativa de quantas pessoas foram assassinadas como politicamente indesejáveis por membros dos Freikorps e das associações estudantis que com eles colaboravam estreitamente, nos primeiros anos da República de Weimar. Suas vítimas incluíram comunistas proeminentes, como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que foram arrastados para fora de uma casa cercada, após uma fracassada sublevação de trabalhadores, e, de acordo com o que pôde ser até hoje apurado, foram espancados até à morte, um após o outro, com cassetetes no caminho para a prisão. Houve também vítimas menos conhecidas. Uma delas foi o meu colga de escola, Bernhard Schottiánder, uma pessoa muito franzina e sumamente inteligente que, com seus óculos de lentes grossas, já parecia um jovem e erudito scholar, mesmo quando era apenas um primeiranista, que se inclinara para o comunismo depois de ler Marx, e cujo cadáver, se bem me lembro, foi encontrado no aterro sanitário da cidade de Breslau, amarrado com arame farpado. Políticos liberais como Rathenau estavam também entre as vítimas, e muitos outros cujos nomes estão esquecidos. (ELIAS, p. 172, 1997)

As Freikorps acabam se desbandando, não apenas pela imposição do Tratado de Versalhes, que foi o que motivou estes grupos armados a tomarem ação militar e tentar orquestrar um golpe, mas sim após a falha da tentativa de tomar o poder da recém-criada República de Weimar, em 1920, no que ficou conhecido como Kapp Putsch ou como Kapp–Lüttwitz Putsch, em referência aos líderes da Marinebrigade Ehrhardt, facção principal da Freikorps responsável pela organização deste putsch (Golpe). O golpe, que, embora tenha sido mal sucedido, chegou a colocar seu próprio representante, Wolfgang Kapp, como líder, teve um rápido fim, por via das classes trabalhadoras que ali iniciaram uma enorme greve, na qual cortaram os serviços de água, gás, transporte e eletricidade da cidade e paralisaram a República de Weimar, em protesto e em luta contra a imposição do regime paramilitar[6].

Este episódio não deve ser tratado meramente como curiosidade ou “trivia” histórica, como se consolidou na historiografia hegemônica. Não há nada de trivial em um golpe de Estado sendo derrubado por trabalhadores. Este golpe demonstra perfeitamente a ainda forte reminiscência do poder das massas, expressão direta das experiências tidas na Revolução de 1918, como a República Soviética da Bavária. A classe ainda estava mobilizada a certo nível, sem o poder que antes experimentara durante a breve e infrutífera revolução, mas, ainda assim, estava ali, lutando. Quando se deixa de mencionar esta importante parte da História, ou pior, quando se menciona como apenas trivia, como uma fonte de “curiosidade Histórica”, o que está se trivializando é a resistência e a luta da classe trabalhadora, que se sustentou e evitou uma radicalização antecipada de um Estado Militarizado Nacionalista Alemão. Se ignora deliberadamente ou se apaga a questão de grande nível de importância: a luta de classes que ofereceu a maior barricada para o nazifascismo.

[…] a visão que ainda estava sendo expressada de forma geral, em círculos liberais democratas e sociais democratas, de que o Fascismo e a “ditatura” em geral eram fenômenos de países atrasados, de países menos desenvolvidos industrialmente, que não possuíam um proletariado industrial robusto […] Mas a Alemanha era um país com o mais avançado e mais concentrado desenvolvimento industrial da Europa, e com o mais bem organizado e politicamente consciente proletariado industrial em todo o mundo capitalista. Ainda assim, a mais brutal e bárbara ditatura Fascista até então conhecida, deixando a italiana para trás, triunfou na Alemanha em 1933. Como isso foi possível? […] A resposta é encontrada, não só simplesmente nos eventos de 1933, mas dentro dos quinze anos de desenvolvimento da Revolução Alemã. O estabelecimento da ditadura Fascista foi apenas um passo culminante dentro de um longo processo, que começou exatamente em 1918 quando Ebert e Hindenburg elaboraram os termos do seu tratado de aliança contra a revolução proletária. Críticos superficiais, com sua visão apenas nos eventos de 1933, comumente falam de um “colapso súbito”, da inglória “derrota sem uma batalha” da poderosa e altamente organizada classe trabalhadora alemã. Eles falam da “facilidade” com a qual o Fascismo venceu sua vitória, e da “incapacidade” da classe trabalhadora alemã de lutar. Essa imagem é uma imagem falsa […] A batalha da classe trabalhadora alemã contra o avanço da contrarrevolução durou por quinze anos antes que a ditadura Fascista pudesse se estabelecer; dentro dessa batalha, dezenas de milhares de trabalhadores alemães deram suas vidas entre as balas do inimigo; e, se no fim […] não pôde evitar o estabelecimento da ditadura Fascista, não foi por força de luta superior do Fascismo, mas simplesmente porque a ação dos trabalhadores foi paralisada e evitada pelas suas próprias lideranças majoritárias, e seus próprios erros em disciplina e lealdade dentro destas lideranças. (DUTT, p. 71, 1974, tradução do autor)

Então, há a necessidade de apontar a questão fundamental da luta de classes na República de Weimar, se não, apenas haverá uma repetição de uma narrativa de sanitização da História, de docilização dela e da classe trabalhadora, ambos que, em última instância são discursos que falsificam a História e passam noções distorcidas. Após a debandada das Freikorps, uma grande parte dos ex-membros se juntaram à uma organização chamada de Sturmabteilung (Traduzido geralmente como “Tropas de Assalto”, embora a sua tradução literal não seja tal), a famosa, ou melhor, infame pelos seus crimes e suas atrocidades: a SA. A SA foi realmente a solidificação das experiências tidas pelas Freikorps, com características paramilitares, ultranacionalistas, e, agora, com uma agenda que já se pode chamar de Fascista.

Não proto-Fascista, não cripto-Fascista, não, eram abertamente e inegavelmente organizações Fascistas, com inspiração direta dos camisas-negras, de Mussolini, de onde tiraram não só a inspiração estética (Com suas camisas-pardas ou camisas-marrons) e discursiva, mas até a própria ideologia expansionista-colonial e com base nas estruturas de poder Capitalistas e o crescente apoio de grande parte da burguesia nacional a medida que Hitler se consolidava como uma “alternativa viável” e freio imediato ao comunismo. Porém não é possível nos esquecermos do apoio internacional que Hitler recebeu, como iremos discutir neste artigo.

É impossível, sobretudo, tentar entender o momento de ascensão do Nazismo na Alemanha sem entender a desmobilização e desradicalização (Ou melhor, a radicalização para o extremismo nazifascista) das massas trabalhadoras. Como já dito em uma citação anterior de R. Palme Dutt, o proletariado alemão era tido como um dos mais poderosos e influentes do mundo ao momento, com experiências de luta e autogestão que não se igualavam em quase nenhum outro lugar. O que teria contribuído para esta desmobilização fatal? Como indicado na escrita de todo este artigo, é necessário entender o papel da social-democracia alemã, do SPD, na ascensão do Nazismo na Alemanha.

A começar pelo óbvio, é importante notar que Hitler não foi a opção direta da social democracia, isto é, os sociais democratas abominavam Hitler e sua camarilha Nazista, porém a sua vacilante opção por caminhar cada vez mais à direita, com cada vez mais apoio por uma “direita moderada” e preterir os comunistas, irá resultar em seu ápice em 1932, com o apoio ao candidato de direita Paul von Hindenburg, sobre o qual os Comunistas afirmavam o seguinte:

Hindenburg não era, claro, um “mal” menor que Hitler, mas apenas um meio conveniente de conduzi-lo ao poder. Os comunistas explicaram isto completa e claramente, e alertaram os operários de que o voto em Hindenburg era o voto em Hitler, que a escolha entre Hindenburg e Hitler era somente uma escolha entre dois caminhos para o fascismo. (FOSTER, p. 204, 2020)

A despeito disso, e das tentativas de aliança dos comunistas[7], o SPD se alinha com Hindenburg com a premissa de ser a única posição capaz de parar Hitler, o que, com a licença da retrospectiva histórica, é possível afirmar que a posição dos comunistas do KPD, de que “um voto para Hindenburg, era um voto para Hitler”, se efetivou historicamente. As disputas no seio das Esquerdas, porém, não vinham apenas de um contexto de luta antifascista, mas de uma longa tradição. É possível lembrar que, dentre os principais motivos do rompimento entre o que viria a ser a Terceira Internacional, de Vladimir Lênin, Leon Trotsky e muitos outros, e a Segunda Internacional, de Bernstein, Kautsky e afins, estão o racha no movimento da Segunda Internacional em 1916, quando quadros do calibre de Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Leo Jogiches e tantos outros debandam do SPD e da Segunda Internacional (Que capitula e finda, embora seus intelectuais mantivessem firme influência em partidos como o SPD e em movimentos de esquerda ligados à social democracia) formando a Liga Espartaquista (O germe do KPD) recusando-se a apoiar a Primeira Grande Guerra de 1914 – 1918, já observando, de forma extremamente analítica o seu caráter imperialista, que muitos teóricos da Segunda Internacional insistiam em apoiar sob o pretexto de “defesa da pátria”[8]. E outro motivo, um motivo menos conhecido para este racha, se encontra na vacilante posição que a Segunda Internacional (E o SPD) tomavam em questão das colônias, como o historiador italiano Domenico Losurdo bem recupera:

E, contudo, na sua celebração da expansão colonial, Bernstein considera que pode reivindicar Marx “Só se pode reconhecer um direito condicionado a esses selvagens sobre os territórios por eles ocupados. A civilização superior tem aqui, em última análise, também um direito superior. Não é a conquista, mas o cultivo do solo que cria o título jurídico histórico à sua utilização” (LOSURDO, p. 31, 2020)[9]

O assassinato de Luxemburgo e de Liebknecht em 1919, é rememorado e homenageado logo no Primeiro Congresso da Internacional Comunista que se dá entre 2 e 6 de março de 1919, com as palavras de Lênin, que se recusava a esquecer o que havia sido a chamada “traição social-democrata” e as ilusões com a democracia burguesa:

Atendendo ao pedido do Comitê Central do Partido Comunista russo, declaro aberto o I Congresso da Internacional Comunista. Primeiramente, peço que todos os presentes se levantem para honrar a memória dos maiores combatentes da III Internacional, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Camaradas! Nosso encontro possui grande importância histórica mundial. Demonstra o colapso de todas ilusões na democracia burguesa, pois não apenas na Rússia, como até mesmo nos países capitalistas mais desenvolvidos da Europa, como por exemplo, na Alemanha, a guerra civil se tornou um fato. (Lênin apud Foster, p. 88, 2020)

As tensões entre as Esquerdas, o KPD e o SPD nominalmente, contribuíram para esta ascensão que não enfrentou uma “oposição digna” por assim dizer, sobretudo nas ruas, com o banimento em 1929 do Roter Frontkämpferbund, o braço paramilitar do KPD, que se encarregava de fazer uma oposição armada e de verdadeiras batalhas nas ruas da Alemanha, contra as SA Nazistas (FOSTER, p. 203, 2020) o que contribuiria ainda mais para esta ascensão que não foi colocada em cheque por movimentos organizados e armados na rua e nas fábricas, que poderia ter oferecido uma resistência maior.

Estas tensões estavam em seu ápice desde fins da década de 20, com as teorias da Komintern, lideradas, sobretudo, por Stalin já em franca ascensão na URSS e no PCUS neste período final da década, que acabara influenciando os outros PCs a ver a social democracia como “a ala esquerda do Fascismo”, cunhando a terminologia do “social-fascismo”, proveniente da terminologia do “social-chauvinismo” desenvolvida pelo grande dirigente bolchevique Lênin. Esta teoria ditava que não havia diferença entre sociais-democratas em nada de importante, nada de crucial, que eles possuíam o mesmo caráter. Essas noções e sentimentos só se tornam ainda mais difundidos entre os membros do KPD com o evento que é conhecido como Blutmai (Maio Sangrento), no maio de 1929, entre os dias 1 e 3. Os acontecimentos que se seguiram nesses dias foram os de uma repressão policial violentíssima às manifestações do primeiro de maio, com restrições já impostas à manifestações em céu-aberto desde 1928. 33 manifestantes comunistas morreram sob a dura repressão da polícia de Berlim, governada pelo SPD. Isto confirmaria aos comunistas suas teses sobre o SPD, juntamente com a legislação especificamente anticomunista que o SPD defendia a este momento.

A dupla ligação Empresarial e Colonial do nazifascismo: faz sentido falar em “Fascismo Colonial”?

A nossa forma de entender e estudar o nazifascismo em livros didáticos e, muitas vezes até mesmo na academia, é um tanto quanto reducionista. Se apela para uma simplificação, um foco em seus discursos antissemitas, de superioridade racial etc. Sem mencionar, contudo, que estes discursos eram amplamente baseados em grande parte em uma tradição de longa duração do colonialismo europeu, bem como em “teóricos” da raça ariana, como é o caso de Lothrop Stoddard, Alfred Rosenberg, Arthur de Gobineau etc. Uma ligação direta entre a KKK e o Nazismo deve ser entendida, ligação essa que o Historiador Marxista italiano Domenico Losurdo não deixa passar desapercebido, trazendo e colocando em xeque a questão de como, fundamentalmente, a diferença entre a herrenvolk democracy (Democracia do povo escolhido) estadunidense e a Alemanha Nazista se assemelham em muitos eixos, exceto um, a situação econômica atual[10]. A atrocidade nazista é afirmada como “exceção” e esvaziada de seu conteúdo histórico de longa tradição: sim, a barbárie antissemita é ponto fulcral para entender a besta nazista, mas ela não vem sozinha e tão pouco é exceção histórica.

Temos a tendência de pensarmos e de ensinarmos nas escolas, o nazifascismo como um movimento de “pensamento”, uma ideologia, uma mentalidade, “coisa do Imaginário” e, assim, personalizarmos a História do Fascismo, bem como esquecemos de seus aspectos políticos e, principalmente, econômicos. Ao estudar o Fascismo, nos parece tão distantes e avessas as ideias, que grandes professores e acadêmicos acabam utilizando um discurso de que “Hitler convenceu a população” ao mesmo tempo que usam o discurso de “Hitler era um louco”. Bem, não é esse o caso, Hitler não era um “louco”, aliás, podia até sê-lo, mas isto não deve ser o foco da análise e muito menos a ideia de que ele teve de “convencer” a população de coisas “do nada” (Isto é, que as projeções antissemitas, eugenistas e racistas de Hitler vieram “de sua cabeça”, como se ele falasse algo estranho para as suas inflamadas audiências). O antissemitismo é de longa data (Aquilo que se chama de processo de “longa duração”) na Europa inteira, bem como o “racismo científico” era algo que bebia de um outro processo de longa duração, que é o processo escravista-colonial, com suas raízes no liberalismo. Então Hitler não “convenceu” o povo alemão de uma ideia nova, alheia ao mundo todo, não. O processo foi muito mais simples: ele capitalizou em cima daquilo que já era um sentimento relativamente comum, de longa data. Hitler ressoava com uma juventude arrasada, mas não só isso, o Nazismo e o Fascismo em geral, não são processos “puramente ideológicos”, eles não se sustentam só assim. Eles são processos extremamente econômicos e políticos. Autores como Domenico Losurdo, Michael Parenti, Aimé Césaire e Georg Lukács, mostram muito bem isso, desmistificando como o projeto colonial e expansionista de Hitler se traduzia nos seus discursos nacionalistas inflamados, e não o contrário. Devemos aqui, então, lembrar da notória asserção de Marx sobre as características de sobredeterminação da ordem da sociabilidade[11] (Sem reduzir a obra Marxiana a um mero determinismo, claro).

Não é de se chocar que a burguesia utilizasse o Fascismo como freio para o sentimento revolucionário e para a crise, não devemos nos chocar da ligação de Henry Ford ou de Fritz Thyssen com Hitler e, honestamente, este choque que muitos Historiadores competentes possuem com estas afirmações, é demonstrativo da incapacidade geral de uma discussão aprofundada do nazifascismo em sua dimensão econômica.  É necessário entender que o nazifascismo é um evento que se expressa fundamentalmente de forma econômica. Aprendemos na escola que a Primeira Guerra Mundial foi o “choque de imperialismos”, mas, ao discutir sobre a Segunda Guerra Mundial ou a Alemanha Nazista e a Itália Fascista, este imperialismo é esquecido (Ou apagado), sendo que o projeto-mor de Hitler não era apenas o de extermínio dos judeus, a sua “solução final”, mas sim de colonização da Europa.

E este foi o grande o grande diferencial do nazifascismo que repugnava as outras potências: o ataque de Hitler à Europa. Autores como Losurdo, Aimé Cesaire e Vijay Prashad, dentre outros, demonstram perfeitamente como o nazifascismo é uma expressão direta da radicalização da tradição colonial europeia, e é necessário entender, como faz muito bem o já citado autor da Martinica, Aimé Césaire, que o Fascismo se dá ao apontar as armas (E por armas, aqui se quer dizer tanto armas literais quanto táticas de violência variadas) que há muito eram apontadas pelos colonizadores aos colonizados, só que dessa vez, para os próprios colonizadores. É apenas a partir disso que entendemos a ideia de Hitler de escravizar os eslavos, porque a colonização é um projeto profundamente econômico, além de todas as questões ideológicas (Aliás, a ideologia se ergue sobre uma estrutura econômica, como nos mostra Marx). Em uma paráfrase com o título do livro de Lenin, “Imperialismo, fase superior do capitalismo”, creio ser possível afirmar “Nazifascismo, fase superior do Colonialismo”. E, assim como a Igreja Católica oferecia uma justificativa moral e ideológica para a escravidão, a colonização etc. A parte da “raça ariana subjugada”, “superioridade entre raças” etc é uma “justificativa moral” das ações de Hitler. Não que a racialização Nazista seja um mero detalhe da História, muito antes pelo contrário, é fulcral para o entendimento do todo, e não apenas da “parte”. O que creio afirmar aqui, é que tentar entender a ideologia sem entender a relação entre superestrutura e infraestrutura é falho. O “choque” da “esclarecida e moderna burguesia” que apoiara Hitler[12] para parar o comunismo não é o choque pela mazela humana, em geral. Não é motivada por um profundo sentimento de universalização da experiência humana e do valor da vida humana, uma generalização negada aos povos coloniais, semicoloniais e dependentes por esta própria burguesia. É o choque de ter as armas apontadas para si:

As pessoas espantam-se, indignam-se. Dizem: “Como é curioso! Ora! É o nazismo, isso passa!” E aguardam, e esperam; e calam em si próprias a verdade — que é uma barbárie, mas a barbárie suprema, a que coroa, a que resume a quotidianidade das barbáries; que é o nazismo, sim, mas que antes de serem as suas vítimas, foram os cúmplices; que o toleraram, esse mesmo nazismo, antes de o sofrer, absolveram-no, fecharam-lhe os olhos, legitimaram-no, porque até aí só tinha se aplicado aos povos não europeus; que o cultivaram, são responsáveis por ele, e que ele brota, rompe, goteja, antes de submergir nas suas águas avermelhadas de todas as fissuras da civilização ocidental e cristã. Sim, valeria a pena estudar clinicamente, no pormenor, os itinerários de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês muito distinto, muito humanista, muito cristão do século XX que traz em si um Hitler que se ignora, que Hitler vive nele, que Hitler é o seu demónio, que se vitupera é por falta de lógica, que, no fundo, o que não perdoa a Hiter não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco e o ter aplicado à Europa processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os “coolies” da Índia e os negros de África estavam subordinados. (CÉSAIRE, p. 18, 1978)

A denúncia de Aimé Césaire é amplamente evidenciada pela documentação histórica, suas duas principais asserções, de que a burguesia europeia estava por trás da ascensão do nazifascismo e de que o nazifascismo foi, em grande parte, a culminação da ideologia e prática colonial desta vez apontadas para o centro do capitalismo, são demonstradas em diversas instâncias, como o fato de que o que assustava Churchill não era a política interna de Hitler e sim sua política externa, ou seja, o expansionismo que apontava para a Europa[13]. A exemplo de uma análise coeva que mantém sobriedade e passa para a História, podemos ver no entendimento profundamente correto de Pachukanis sobre o Fascismo, no tempo de seu surgimento. Já em 1926, o jurista soviético percebia uma incapacidade de compreensão da totalidade do Fascismo e para uma precisa caracterização da ditadura Fascista, notando a tendência em cada autor diferente em olhar para este sistema em apenas um aspecto e afirmar que este aspecto em específico se pretendia a totalidade da questão colocada, assim a caracterizando de forma reducionista em última instância, pensamento que o autor corrige ao negar que o caráter da ditadura Fascista tivesse, para citar dois exemplos que ele mesmo traz, um caráter pequeno burguês ou de grandes proprietários de terras e afirmando que o seu conteúdo de classe pertencia a um capital industrial e financeiro que verdadeiramente regia a aliança de Mussolini, embora estes dois aspectos citados fizessem parte da configuração fascista, não a dominavam como o capital financeiro e industrial (PACHUKANIS, pp. 25-26, 2020). Esta análise feita em 1926 por Pachukanis demonstrou-se a mais firmemente ancorada em uma análise de realidade material, ao entendermos o papel da união dos Fascistas da Itália com os industriais[14], conseguimos entender como surge a máquina de guerra Fascista italiana. A luta na República de Weimar e a resistência já em tempo da ditadura da Alemanha Nazista repetiu certo padrão de envolvimento do capital industrial e financeiro e dos Fascistas Alemães. Para além de toda a retórica de uma “luta racial”, era uma luta que possuía uma dimensão profundamente ligada à luta de classes, com interesses explícitos de uma burguesia que via em Hitler uma possibilidade de exercitar um projeto de classes e utilizar o clima geral de animosidade e de cientificismo racista como veículo para mascarar o projeto de singular ataque às classes trabalhadoras, como diz Michael Parenti.

Durante os anos de 1920, o Sturmabteilung Nazista ou SA, a força de assalto de camisa parda, subsidiada por negócios, foi usada primariamente como uma força paramilitar anti-trabalhista, cuja função era aterrorizar trabalhadores e trabalhadores agrícolas. Por volta de 1930, a maioria dos magnatas tinha concluído que a República de Weimar não mais servia suas necessidades e era muito aconchegante para a classe trabalhadora. Eles aumentaram exponencialmente seus subsídios para Hitler, alavancando o Partido Nazista para um âmbito nacional. Magnatas de negócios forneceram aos Nazistas grandes subsídios para frotas de carros motorizados e alto-falantes para saturar as cidades e vilas da Alemanha, junto com fundos para a organização do Partido Nazista, como grupos de juventude e forças paramilitares. Na campanha de julho de 1932, Hitler tinha fundos suficientes para voar para cinquenta cidades em apenas duas semanas. (PARENTI, pp.4-5, 1997, tradução do autor)

É necessário entender que o nazifascismo é uma expressão em âmbito político e econômico de radicalização do colonialismo e que, dissociar os dois é uma redução ou apagamento da História. Não dá para dissociar um do outro, sendo este primeiro uma radicalização da tradição colonial europeia, porém voltada aos poderes que haviam feito o colonialismo, isto é, o nazifascismo é a colonização dos colonizadores, profundamente ligado à tentativa de Imperialismo dos seus expoentes. Não é mera coincidência as duas potências retardatárias recém-unificadas tomarem frente no processo de Fascistização do território europeu[15]. Ainda no tema do Imperialismo, é importante ressaltar que os “arquitetos” da Alemanha Nazista, como o “teórico do Nazismo” Alfred Rosenberg, viam os EUA como um grande exemplo pela sua segregação[16] . Os Nazistas viam os EUA como “mais puros” do que eles próprios (Pelo menos, até aquele ponto, eles queriam se “limpar” e ficar mais parecidos com os EUA) e tinham em “teóricos” do racismo como o Lothrop Stoddard, estadunidense, uma grande fonte de inspiração, como já mencionado.

A constante troca entre círculos alemães (Nazistas) e círculos estadunidenses (Sobretudo da KKK) não foram a única expressão de “solidariedade internacional” da qual o partido de Hitler gozava. Não se pode explicar o Nazismo sem explicar o amplo financiamento da burguesia multinacional que esteve em apoio de Hitler, justamente por ele e seu projeto (Bem como o de Mussolini) representarem a maior capacidade de freio contra o comunismo e o poder popular, em especial contra a União Soviética. A burguesia internacional se alinhava com a cruzada anticomunista sobre a qual as experiências do nazifascismo se construíram, ganhando amplo financiamento da burguesia internacional, da qual faziam parte nomes como Henry Ford, James D. Mooney (Presidente da General Motors no Exterior) e até mesmo arrancando simpatia de políticos (Incluindo figuras como Churchill[17]) e da burguesia dos muitos países que viam o nazifascismo com bons olhos em sua empreitada anticomunista.

Hitler foi alavancado em sua carreira política por uma rica e poderosa sociedade secreta, nenhuma dos membros dela eram grandes homens de negócio. Outros financiamentos vieram das mais inesperadas fontes. Até mesmo o industrialista judeu mais importante da Alemanha deu apoio financeiro aos Nazista – para torna-los dependentes do seu dinheiro em esperança de, eventualmente quebrar os Nazistas. Hitler ganhou algumas de suas maiores “contribuições” ao descobrir negócios corruptos entre grandes industrialistas e políticos liberais proeminentes, e então chantageando os industrialistas com ameaças de exposição. A captação de recursos financeiros de Hitler deu origem a muitas das técnicas de financiamento disfarçado e de truques sujos que mais tarde virariam prática comum entre os maiores governos […] Uma das mais importantes e inesperadas descobertas desse estudo foi a importância do financiamento estrangeiro para levar Hitler ao poder. Hitler recebeu dinheiro da Áustria, Grã-Bretanha, Tchecoslováquia, Finlândia, França, Itália, Holanda, Hungria, Suíça, Suécia e dos Estados Unidos. É verdade que uma parte do dinheiro veio de Alemães vivendo nesses países, mas a maioria veio de cidadãos estrangeiros proeminentes. Seus motivos variavam: Henry Ford queria espalhar sua filosofia antissemita, Mussolini esperava encorajar o Fascismo Alemão, a Grã-Duquesa Vitória, queria apoiar o anti-Comunismo, Sir Henri Deterding tinha como alvo ganhar lucros do petróleo confiscado pelos Comunistas etc. Aqueles que financiaram Hitler, ambos alemães e os estrangeiros, são tão responsáveis pela sua chegada ao poder quanto os Nazistas ativos que espalharam propaganda antissemita ou lutaram nas ruas. Ainda assim, por causa da influência dessas pessoas e o poder do dinheiro, poucos deles foram julgados em Nuremberg. Muitos dos quais estão sendo expostos aqui pela primeira vez. (POOL, J.; POOL, S; pp.2-3, 1978, tradução do autor)

Nem mesmo no intenso período da Segunda Guerra[18] e do pós-Segunda Guerra essa aliança da burguesia, que conciliava os seus interesses no novo projeto Fascista com as aparências democráticas e humanistas, parecia ter fim, a exemplo do que aconteceu com os amplos setores da burguesia que foram colaboracionistas nazistas, mas que foram abraçados de volta pelo Ocidente capitalista e integrados sem grandes problemas, como a Operação Paperclip, em especial a figura do cientista alemão “ex-nazista“ Wernher von Braun, assim como outros proeminentes “ex-nazistas“, como é o caso de Adolf Heusinger, que viraria Presidente do Comitê Militar da OTAN, bem como o de Hermann Josef Abs, sobre o qual Parenti ressalta em uma nota de rodapé o seguinte:

Após a guerra, Hermann Abs, chefe do Deutsche Bank e, praticamente “o tesoureiro de Hitler”, foi saudado por David Rockefeller como “o mais importante banqueiro de nossos tempos”. De acordo com seu obituário no New York Times, Abs “desempenhou um dominante papel na reconstrução da Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra Mundial”. Nem o Times nem o Rockefeller disseram uma palavra sobre as conexões nazistas de Abs, suas incursões bancárias predatórias em toda a Europa ocupada pelos Nazistas e sua participação, como membro do conselho da I.G. Farben, em seu uso de trabalho escravo em Auschwitz: Robert Carl Miller, Portland Free Press, Setembro/Outubro 1994.” (PARENTI, p. 19, 1997, tradução do autor)

Tendo demonstrado algumas das ligações fundamentais do nazifascismo, creio que aqui faça sentido a colocação de Vijay Prashad sobre um “Fascismo Colonial”, embasado na historicidade do desenvolvimento do movimento que tomou a Europa de assalto na primeira metade do século XX. O objetivo do autor, e deste artigo, é entender que este movimento não tem nem seu começo e nem seu fim nos seus dois maiores expoentes, Itália e Alemanha, e que o nazifascismo é demonstravelmente uma radicalização de uma tradição colonial anterior aos movimentos das décadas de 1920 e 1930. O colonialismo, contudo, sobrevive com força e em peso à Segunda Guerra e se reorganiza para tentar salvar os seus domínios, mesmo que agora o faça com um caráter novo, “paternalista”, como o marxista indiano diz. É indispensável este estudo para entender que o colonialismo e o nazifascismo formam uma dupla que tinham formas diferentes, mas conteúdos pragmáticos e programáticos idênticos e baseado em muitas das mesmas pressuposições (Como as noções de superioridade de raça, por exemplo)[19].

Se faz aqui um apelo ao entendimento com maior profundidade, uma discussão que foge ao superficial que estamos acostumados, de psicologizar as História, caracteriza-la apenas como caprichos de algumas pessoas, esboçar a criação de uma História que retira da História seu caráter dialético e de movimento dentro de si mesma. Aqui, se faz um apelo pelo entendimento da História em seus movimentos e sua totalidade, sem apagamento de seus “pormenores”, que, no caso, não o são, são dados de extrema importância para o entendimento da lógica do Terceiro Reich: como ele ascendeu e como ele se estruturou, sem cair na ilusão de uma certa “surpresa histórica” ou de que o nazifascismo tem seu começo com a “Marcha sobre Roma”, isto é uma visão sem profundidade alguma no que tange à um entendimento teórico tão pouco encontra solo histórico.

Falsificação, Mistificação e Irracionalismo: “Totalitarismo” e como entender o Nazifascismo.

Muito se escreveu sobre o nazifascismo e suas origens, bem como suas características fundantes, de tal forma que muito pode ser lido sobre o tema e nunca se chegar à nenhuma informação relevante[20], ou que caracterize o movimento, dada a quantidade imensa do que se produziu sobre o tema em diversas áreas, abrangendo História, Filosofia, Ciência Política, além de outras diversas áreas do conhecimento. O tópico também foi discutido em diversos momentos, dentre eles durante a sua ascensão e efetivação na década de 20 e 30, durante a guerra, no imediato pós-Segunda Guerra e décadas após a sua derrota, pelo menos nos fronts de batalha. Para acrescentar à já enorme diversidade e variedade de material sobre o tema, há de se considerar as múltiplas fontes destas produções, sejam elas alinhadas à Comintern (Nas décadas de 20, 30 e começo de 40) e ao chamado “bloco socialista”, ou filiadas aos países capitalistas. Cada qual produziu seus autores de referência (E preferência) sobre o tema, com maior ou menor legitimidade em evidência histórica.

Teremos teorias como a da filósofa alemã radicada nos Estados Unidos Hannah Arendt, que irá desenvolver sua “teoria do Totalitarismo” a qual objetivará confluir a URSS e a Alemanha Nazista como “projetos totalitários”, uma teorização baseada em uma  pressuposição a-histórica, cuja formulação é melhor explicada pelas afiliações da filósofa alemã com a máquina de produção de informação estadunidense durante a chamada Guerra Fria do que com a concretude da situação que origina os movimentos históricos. Bem como teremos autores como Pachukanis que escreve no calor do momento e em sua análise consegue produzir uma compreensão do Fascismo – mesmo que ainda em momento “incipiente” (Isto é, sem a Segunda Guerra) – que dura ao teste da História, como é também o caso da obra do marxista húngaro Georg Lukács que produz talvez a obra mais completa sobre as origens filosóficas do nazifascismo e a obra de outro notado autor alinhado à Comintern, Rajani Palme Dutt.

A começar por aquilo de mais relevância, por ser quase que lugar comum no mundo acadêmico: a filósofa Hannah Arendt. Ela é amplamente citada na academia, suas obras (Sobretudo “As Origens do Totalitarismo” e “Eichmann em Jerusalém”) são debatidas em diversos ciclos e níveis acadêmicos, estando presente como literatura básica até mesmo de concursos. Tudo isso torna ainda mais interessante quando se faz o debate sobre suas ideias e seus investidores escusos e obscuros, com a inteligência Ocidental (SAUNDERS, p. 129, 2008), bem como o aspecto de sua produção em que se vê claramente a influência desses contatos. Pode-se até chamar de uma prática de “encomenda teórica”. Há um claro elemento de propaganda na obra mais famosa de Hannah Arendt, que já em solo americano, sofre uma guinada, sendo os primeiros dois terços do livro dedicados a escrever extensivamente sobre antissemitismo e imperialismo (Sobretudo o imperialismo britânico), de onde chega a inclusive tirar conclusões importantes sobre a discriminação racial advinda da experiência colonial[21].

Seu livro, contudo, sofre uma virada brusca em sua terceira parte, já sobre a égide da Guerra Fria, a autora passa a desenvolver uma crítica à URSS, crítica essa que, ao analisar o livro, parece mais uma sobreposição, um outro livro, do que uma extensão dos volumes já escritos (LOSURDO, p. 58, 2003). A mudança é tão brusca que até mesmo notados e importantes historiadores, que inclusive eram elogiosos à Arendt, não podem evitar a comentar sobre tal:

Mais do que um livro, Origens do totalitarismo constitui, na realidade, dois livros sobrepostos, para os quais, não obstante sucessivos ajustes, a autora não consegue conferir uma unidade substancial. Ao resenhar a obra, eminentes historiadores e historiadores das idéias (Carr e Stuart Hugues), mesmo exprimindo-se com respeito e por vezes com admiração, não mostram dificuldade em se dar conta da desproporção, na autora, entre o conhecimento real e aprofundado do Terceiro Reich e as informações aproximativas sobre a União Soviética; sublinham, sobretudo, quanto é cansativa a tentativa de adaptar a análise da União Soviética (que remete ao desencadeamento da guerra fria) à do Terceiro Reich (que reenvia aos anos da grande coalizão contra o fascismo e o nazismo). (LOSURDO, p. 59, 2003)

A autora chega a poupar a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco e Portugal de Salazar das acusações de totalitarismo. Os motivos por trás disso são claramente relacionados ao “clima ideológico” da Guerra Fria, já vigorando fortemente no pós-guerra. Não há como melindrar importantes aliados na luta anticomunista, como é o caso dos dois regimes citados, que pertenciam à OTAN (LOSURDO, p. 60, 2003). Nesta operação imediatamente ideológica, é possível notar a transição de Arendt, de uma autora que vai de uma tímida simpatia à Marx, contrapondo-o inclusive com Disraeli, a quem ela atribui, juntamente à nomes como Gobineau, a acusação de um racismo que vem do império, à uma autora que enxerga em Marx o germe do totalitarismo, o que também irá causar confusões sobre a diferença entre Lenin e Stalin. Lenin, segundo ela, reservava algo de um grande estadista, e por isso fora capaz de organizar os oprimidos do czarismo russo. Stalin, contudo, era a expressão do marxismo, que daria em algo totalitário.

Existe aí uma óbvia contradição, que certamente levantaria muitas vozes de muitos marxistas, já que, de Marxista-leninistas à Trotskistas, é certo de que há poucos elementos que atribuem tal papel de “grande teórico” à Stalin. Tentar depositar em Stalin a noção de um grande expoente teórico (E prático) do marxismo é algo um tanto quanto risível até mesmo na própria tradição que reivindica Stalin, afirmar que ele “personificava” o marxismo mais que o próprio Lenin, seria algo altamente improvável (Embora não impossível). Ainda assim, mesmo que ignoremos esta operação nada condizente com a realidade, a autora ainda tenta retirar do maior nome do marxismo do século XX justamente o marxismo[22].

Há, em meio a isto tudo, um evidente elemento de propaganda, feito deliberadamente para lançar um nevoeiro sobre a memória e a História: a reescrita da História através de Hollywood. Não irei me deter em detalhe sobre o assunto, sobre o qual muito já foi escrito, mas irei mencionar alguns dados que demonstram o tanto de mistificação histórica sobre o tema: na França, uma pesquisa conduzida com a mesma questão (“Quem mais contribuiu para a derrota da Alemanha em 1945?”), obteve respostas amplamente diferentes. No imediato do pós-guerra em 1945, 57% afirmaram ser a União Soviética, 20% achavam ter sido Estados Unidos; em 1994, 49% pensavam ser os EUA, 25% pensavam ser a União Soviética e, finalmente, em 2004, 58% dos entrevistados afirmaram que os EUA eram o maior contribuidor da vitória sobre a Alemanha Nazista, contra 20% que pensavam ser a União Soviética. Sejam os renomados clássicos como O mais longo dos dias (1962) e Resgate do Soldado Ryan (1998) ou filmes como Pearl Harbor (2002), Bastardos Inglórios (2009) e até mesmo “filmes de herói” como é o caso de Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), estas produções têm importância propagandística na disputa da memória e ainda tem a função de manter um suposto debate de “mocinhos” e “bandidos” que serve aos interesses imperialistas da OTAN, que em muito se assemelham aos próprios nazifascistas[23].

Aqueles muitos homens e mulheres pertencentes ao povo judeu, vitimados pela atrocidade Nazista, em campos de concentração, como foi a total miséria humana que aconteceu em Auschwitz, tentavam ouvir o rádio dos seus sequestradores e esperavam ansiosamente por notícias do Exército Vermelho – não do exército dos EUA. As fabricações Hollywoodianas nos levariam a crer que foram os EUA que colocaram fim à uma das maiores tragédias humanitárias da História com o Capitão América. Mas foi a URSS, seja ela vista como “a URSS de Stalin” ou “a URSS do povo soviético, a despeito de Stalin”, evidentemente não sozinha, mas ainda assim, carregando o maior fardo[24]. Como já mencionado neste artigo, há uma importância fundamental em ouvir os relatos históricos vindos de pessoas que os viveram, é fundamental entender a composição humana da História e, por isso, trago aqui uma breve descrição do horror nazista que um soldado soviético se defrontou ao libertar Auschwitz.

Georgii Elisavetskii, outro dos primeiros soldados soviéticos a entrar no campo, admitiu em 1980 que ‘Meu sangue congela quando eu menciono Auschwitz até mesmo agora’. Ele descreveu a libertação em detalhes dramáticos: Quando eu entrei no alojamento, eu vi esqueletos vivos deitados em beliches de três níveis. Como se estivesse nevoado, eu ouço meus soldados falando ‘Vocês estão livres, camaradas!’ eu sinto que eles não [nos] entendem e começo a falar com eles em dialetos russo, polonês, alemão e ucraniano; desabotoando minha jaqueta de couro, eu mostro pra eles minhas medalhas … Então eu uso o iídiche[25]. A reação deles é imprevisível. Eles acham que eu estou os provocando. Eles começam a se esconder. E apenas quando eu disse para eles ‘Não tenham medo, eu sou um coronel do Exército Soviético e um judeu. Nós viemos para te libertar’ … Finalmente, como se a barreira tivesse sido rompida … Eles vieram em nossa direção gritando, caíram de joelhos e beijaram as abas dos nossos sobretudos e abraçam nossas pernas com seus braços. E nós não conseguíamos nos mover, ficamos parados sem movimento enquanto lágrimas inesperadas caíam em nossas bochechas. (STONE, p. 45, 2015, tradução do autor)

Retornando para a discussão de um paradigma que se volta mais à teoria e a categorização teórica própria,  Losurdo conclui, com razão, que o pensamento de Arendt pouco explica, ou melhor, mistifica o tema, afinal, que totalitarismo é esse que se furta a falar da Itália de Mussolini, a Espanha de Franco e do Portugal de Salazar? Ademais, que ideia de “totalitarismo” é essa, pela qual se exclui (E pouco se explica) sobre o extermínio do povo Herero ou o genocídio Armênio? O autor italiano aponta, com clareza e corretamente, que há uma “seleção de horrores”, pelo qual a filósofa vai pinçar, escolher, e, ao fim de sua operação imediatamente ideológica (E encomendada, adjetivo que eu acrescento, não Losurdo), vai jogar um holofote em elementos análogos (Como é o caso do sistema de partido único) e declarar, em um “salto assustador” (Como o próprio Losurdo coloca) que ambos são “iguais”.

Prescindindo de quaisquer necessidades para entendimento histórico concreto de uma materialidade histórica, a autora formula em sua mente um conceito e introjeta ele na História, concluindo uma operação ideológica de dedução idealista sem capacidade de análise material alguma. Fica de fora do escopo da autora aquilo que mais admirava os nazistas: a white supremacy dos EUA e o regime que daria no apartheid Sul-Africano[26]. A autora que há poucas páginas atrás, explicava sobre um racismo imperial, agora se furta a falar do regime da white supremacy que se desenrola em paralelo bem à sua frente e se nega a fazer a crítica daquilo que realmente algo mais “totalitário”, me refiro aqui à experiência colonial, como nos diz Fanon:

Como para ilustrar o carácter totalitário da exploração colonial, o colono faz do colonizado uma espécie de quinta-essência do mal. A sociedade colonizada não se define apenas como uma sociedade sem valores. Não basta ao colono afirmar que os valores o abandonaram, ou melhor, não habitaram nunca o mundo colonizado. O indígena declarou-se impermeável à ética, ausência de valores, mas também negação de valores. É, atrevemo-nos a dizê-lo, o inimigo dos valores. Neste sentido, é um mal absoluto. (FANON, pp. 36-37, 1961)

Se autores como Hannah Arendt e Ernst Nolte, que exprimem tendências parecidas (A de tentar “equalizar” a experiência socialista nascida na Revolução de 1917 à barbárie nazista)[27] não nos ajudam a entender profundamente o movimento histórico do nazifascismo, o que pode nos ajudar? Para além daquilo que já foi aqui citado e explicado sobre as origens coloniais do movimento, há muito o que se falar sobre o que a obra política e filosófica do filósofo húngaro Georg Lukács denomina como “irracionalismo”, que serve como base para o nazifascismo do XX, embora tenha suas origens ainda no XIX. O irracionalismo, como Lukács explica, é uma característica ampla, que surge e se desenvolve em diversas filosofias burguesas no XIX, cujo “fio comum” vai se ligar de Nietzsche à Spengler, que será aproveitado pela ideologia nazifascista. O irracionalismo, evidentemente, vai tomar suas formas mais específicas com cada um de seus representantes, a exemplo de Schopenhauer e sua radicalidade “anti-progresso”[28], mas com um tema geral de afastamento da luta popular e o verdadeiro gozo pela passividade niilista[29].

Esta tradição do irracionalismo será aproveitada e utilizada, junto à um pragmatismo (KONDER, p. 28-29, 2009), como uma colcha de retalhos de filosofias burguesas reacionárias, características de uma “confusão teórica” e uma “roupagem[30]” que soa vagamente revolucionária[31], Michael Parenti vai chamar isso de “Uso racional de uma ideologia irracional”:

Alguns escritores enfatizam as características “irracionais” do Fascismo. Ao fazer isso, eles deixam passar as funções racionais político-econômicas que o Fascismo cumpria. Muito da política é a manipulação racional de símbolos irracionais. Certamente, isso é verdade da ideologia Fascista, cujo apelo emotivo serviu a uma função de controle de classe. (PARENTI, p. 11, 1997, tradução do autor)

É assim que se dá então, a capacidade de mistificação e de automisficiação do movimento nazifascista, como Konder nos explica. Essa capacidade de mistificação e automistificação é o motivo principal para esta múltipla categorização da ditadura nazifascista, explica a dificuldade de se entender um movimento de múltiplas determinações que tenta criar idealizações como a ideia da “nação” e do “Volk”. O “pan-germanismo” e expansionismo germânico para uma suposta “autodefesa”, (Que são, efetivamente ideações reacionárias), são de longa data e foram até mesmo tema de debate de Engels em 1859[32] e que, o “mérito” dos fascistas foi o de se apossar desses sentimentos nacionais e expansionistas e de extremá-los. Mais uma vez, como Parenti nos explica, indo profundamente na mente e na ideologia fascista:

A doutrina Fascista enfatiza valores monistas: Ein Volk, ein Reich, ein Führer (Um povo, um império, um líder). O povo não deve mais se preocupar com as divisões de classe, mas deve ver a si mesmo como parte de um todo harmonioso, rico e pobre como um, uma visão que dá suporte ao status quo econômico ao mascarar o sistema vigente de exploração de classe. Isso está em contraste direto à agenda da Esquerda que advoga a articulação das demandas populares consciência mais afiada de injustiça social e de luta de classes. Esse monismo é apoiado pelos apelos atávicos às raízes místicas do povo. Para Mussolini, era a grandeza que era Roma; para Hitler, o Volk antigo. (PARENTI, p. 12, 1997)

A automistificação de que Konder fala e que Parenti explicita, vai esfumaçar o conteúdo de classe do fascismo, não é mais a luta de classes, é a luta de raças, é a nação, é uma comunidade Volk, acima das classes, acima de tudo.

Conclusão

Há no Brasil, grandes obras, como a de Leandro Konder, sobre o tema do nazifascismo. Porém é possível notar uma emergente necessidade da utilização de um material sobre o tema mais aprofundado. À exemplo do grande estudo de Lukács, a Destruição da Razão, que só foi publicado em 2020 embora sua publicação original tenha sido em 1954, podemos pensar sobre como há uma falta de obras que muito nos elucidam sobre as características e sobre as origens históricas do nazifascismo. Até mesmo obras que já são clássicas nos debates acadêmicos mundo à fora não são publicadas com muita frequência, como é o caso de “Blackshirts and Reds: Rational Fascism & the Overthrow of Communism” de Michael Parenti (Publicado em 1997), “Fascism and Social Revolution: A Study of the economics and Politics of the Extreme Stages of Capitalism in Decay” (Publicado, originalmente em 1934, e republicado em 1974) de R. Palme Dutt, que explicitarão o conteúdo de classes do nazifascismo e como ele foi utilizado de freio contrarrevolucionário aos movimentos de massas trabalhadoras organizadas crescentes no período, sobretudo, dos comunistas.

Além disso, livros como o “Who Financed Hitler: The Secret Funding of Hitler’s Rise to Power, 1919-1933” (De 1978) de James e Suzanne Pool e “Why Hitler?: The Genesis of the Nazi Reich” de Samuel W. Mitcham que vão esmiuçar as alianças políticas e econômicas do movimento que colocou Hitler no poder. Estas obras servem, sobretudo, para enriquecer e diversificar um debate que é muito necessário sobre o tema, de forma aprofundada, sóbria e com uma vastíssima utilização fontes primárias. É importante não mistificar o conteúdo de classes do nazifascismo, bem como suas origens de inspiração colonial e irracionalista, como bem faz autores que são comuns em debates da academia, com o exemplo máximo de Hannah Arendt.


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SEYMOUR, Richard. O verdadeiro Winston Churchill. Jacobin Brasil, São Paulo, 28 de dezembro de 2019. Disponível em <https://jacobin.com.br/2019/12/o-verdadeiro-winston-churchill/>. Acesso em 20/04/2021.

STONE, Dan. The Liberation of the Camps: The End of the Holocaust and Its Aftermath. New Haven: Yale University Press, 2015.


Notas:

[1] “As sementes da vitória de Hitler foram semeadas em 1918. Os trabalhadores e soldados alemães haviam tomado o velho estado e ganho completo controle sobre o poder. Os Conselhos de Trabalhadores e Soldados eram supremos em todo o país. A burguesia e a antiga classe militar eram incapazes de oferecer qualquer resistência. Todas as condições estavam presentes para criar uma nova República Soviética inconquistável – salvo que não havia um partido revolucionário para liderar os trabalhadores (o Partido Comunista da Alemanha – KPD – foi só formado em dezembro de 1918). A completude do poder proletário no começo da revolução, antes da Social Democracia desperdiça-la e destruí-la, é atestado pelos principais sociais democratas como testemunhas: “O colapso militar trouxe todo o poder para as mãos do proletariado em um só movimento” (H. Ströbel, The German Revolution, p. 1.) “Em novembro, 1918, a Revolução foi trabalho apenas do proletariado. O proletariado ganhou uma posição toda poderosa que os elementos da burguesia primeiramente nem ousaram a tentar alguma resistência.”(Kautsky, Introduction to the Third Edition of The Proletarian Revolution, 1931.) Como este poder absoluto do proletariado se tornou, dentro de quinze anos, em seu exato oposto– no poder absoluto da da classe burguesa e militarista, e em uma sujeição absoluta da classe trabalhadora? A resposta para esta pergunta, na qual é  contida a tragédia da Revolução Alemã de 1918, é composta de duas palavras – Social Democracia” (DUTT, pp. 71-72, 1974, tradução do autor).

[2] “As sementes do nazismo foram plantadas na traição social-democrata na guerra e na revolução alemã de 1918. Estes acontecimentos tornaram claro que, custe o que custasse, os sociais-democratas lutaram até o fim contra a derrubada do capitalismo pela classe operária” (FOSTER, p. 202, 2020).

[3] “É interessante notar os nomes de alguns dos homens que eram membros das Freikorps e que invadiram Munique, pois esta lista mostra a relação próxima entre as Freikorps e o Partido Nazista. Suas posições futuras no Partido Nazista e/ou no governo Nazista também são dadas […] incluem Tenente Rudolf Hess,  Vice-Führer e líder do Partido Nazista; Karl Fritsch, ministro na Saxônia; Robert Bergmann, coronel da SS; Hans Frank […] ; Dietrich von Jagow […]; Karl Kaufmann […]; Manfred von Killinger […] ; Johann Ulrich Klintsch […]; Ritter von Krausser […]; Hans Schemm […]; Karl Schlumprecht […]; Wilhelm Stuckart […]; Adolf Huehnlein […] ; Wilhelm Weiss […]; Friedrich Wilhelm Brueckner e Karl Wolff […]” (MITCHAM JR., pp. 35-36, 1996, tradução do autor)

[4] “É um modelo que deixa traços profundos no plano conceitual e linguístico. O termo Untermensch, que desempenha um papel tão central e tão nefasto na teoria e na prática do Terceiro Reich, não é senão a tradução de Under Man. Quem o reconhece é Rosenberg, que exprime sua admiração pelo autor norte-americano Lothrop Stoddard: a ele cabe o mérito de ter sido o primeiro a cunhar o termo em questão, que aparece como subtítulo (The Menace of the Under Man) num livro publicado em Nova York em 1922 e na sua versão alemã (Die Drobung des Untermensch) que saiu três anos depois” (LOSURDO, p. 69, 2004).

[5] “No final do século XVII, foram as tropas de Luís XIV que travaram batalhas pela supremacia contra as tropas imperiais em solo alemão. A destruição pelo fogo do castelo de Heidelberg durante essa luta ainda é lembrada. No século XIX, os exércitos revolucionários de Napoleão invadiram a Alemanha em sua tentativa de unificar a Europa sob a soberania francesa. Uma vez mais, era demonstrada a fraqueza da Alemanha em comparação com os Estados vizinhos mais eficazmente centralizados. A rainha da Prússia, que fugiu à aproximação do exército francês, tornou-se por algum tempo um símbolo da humilhação alemã. Estudantes alemães formaram Freikorps, ou brigadas de voluntários, que hostilizavam as tropas de ocupação napoleônicas” (ELIAS, p. 20, 1997).

[6] “Na Alemanha, no começo de 1921, às vésperas do III Congresso da Internacional, ocorreu uma mal sucedida luta revolucionária, a dita “Ação de Março”. Essa ocorreu pouco tempo após o golpe do Kapp de 12 de março de 1920, quando o general Von Luttwirz, com as tropas Reichswehr, subitamente derrubou o governo de Weimar e colocou no poder o Dr. Kapp. Os operários responderam com a mais efetiva greve geral da história da Alemanha. Após quatro dias, Kapp renunciou […] A vitória da greve do Kapp despertou nos operários um sentimento militante, o que resultou no levante de março de 1921 […]” (FOSTER, p. 118, 2020).

[7] “Em três ocasiões cruciais, os comunistas propuseram a frente única: em abril de 1932, contra cortes gerais de salários que estavam por vir; em 29 de julho de 1932, quando a ditadura de Von Papen expulsou sociais-democratas do governo da Prússia, que antes controlavam; em 30 de janeiro de 1933, quando Hitler se tornou chanceler […] (FOSTER, p. 203, 2020)

[8] “Em 3 de agosto, o grande fracasso ocorreu quando os líderes social-democratas votaram em uma convocação do Reichstag para apoiar a guerra, com 78 votos a favor e 14 contra […] Liebknecht e Luxemburgo estavam entre os poucos que votaram contra os créditos de guerra na convenção partidária […] Os partidos social-democratas, ao apoiarem a guerra, fizeram-no com base na palavra de ordem burguesa de defesa da pátria […] O calejado revisionista Vollmar declarou: “No momento atual, todo o povo alemão está em unidade com uma só vontade para proteger a pátria, sua independência, sua organização cultural contra os inimigos que querem dominá-la, e nosso povo não descansará até que eles sejam esmagados”.” (FOSTER, pp. 153; 155, 2020)

[9] Para entender como a Terceira Internacional põe a baixo essa noção de “povos civilizados”, “raça forte” e outros termos e pressupostos “teóricos” chauvinistas e racistas de Bernstein (Que Losurdo recupera neste capítulo inteiro, este é apenas um trecho) consultar as páginas 32 e 33 do mesmo livro, em que o autor demonstra a posição de Lênin, um genuíno teórico da Terceira Internacional, desmantelando esta lógica de um ponto de superioridade civilizatório e até mesmo, de um “fardo civilizatório”.

[10] “Sim, o jovem indochinês associa a Ku Klux Klan ao fascismo. Porém, as semelhanças entre os dois movimentos não escapam aos testemunhos americanos da época. Não poucas vezes, com juízo de valor positivo ou negativo, estes comparam os homens com trajes brancos do sul dos Estados Unidos aos “camisas negras” italianos e aos “camisas pardas” alemães. Depois de chamar atenção para os traços comuns entre a Ku Klux Klan e o movimento nazista, uma estudiosa norte-americana acredite hoje poder tirar a seguinte conclusão: “Se a Grande Depressão não tivesse afetado a Alemanha com toda a força que a golpeou, o nacional-socialismo poderia ser tratado como às vezes ocorre com a Ku Klux Klan: uma curiosidade histórica cujo destino estava já traçado”. Ou seja, mais que a diversidade histórica e política, o que explica a falência do Invisible Empire nos Estados Unidos e o advento do Terceiro Reich na Alemanha é a diferença do contexto econômico” (LOSURDO, pp. 67-68, 2004).

[11] “[…] na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência“(MARX, 2008, p. 47).

[12]Para citar o nome de alguns, só dentre os industrialistas alemães: “Em novembro de 1932, os nazistas sofrem uma derrota nas eleições legislativas, mas o capital financeiro já estava decidido à apoiá-lo e não o deixa cair: o velho Hindenburg (quase nonagenário) recebe uma carta pedindo a nomeação de Hitler para o posto de primeiro-ministro, assinada por alguns dos industriais e banqueiros mais importantes da Alemanha, tais como Hjalmar Schacht, Kurt von Schröder, Fritz Thyssen, Friedrich Reinhardt, Fritz Beindorff, Emil Helffrich, Ewald Hecker, August Rostberg, Albert Vögler, Fritz Springorum e outros.” (KONDER, p. 86, 2009)

[13] “Addison explica que, enquanto Churchill não aprovava a perseguição do nazismo aos judeus, foram as “ambições externas dos nazistas, e não sua política interna, que causaram o maior alarme de Churchill” (SEYMOUR, 2019).

[14] “Em 1922, a Federazione Industriale, composta de líderes da indústria, juntamente com representantes de associações de bancos e agronegócios, se encontraram com Mussolini para planejar a “Marcha sobre Roma”, contribuindo com 20 milhões de liras para o empreendimento. Com um suporte adicional dos mais altos escalões dos oficiais das forças militares da Itália e dos chefes de polícia, a “revolução” Fascista — de fato um golpe de estado — foi realizado” (PARENTI, p. 4, 1997, tradução do autor).

[15] “Além disso, Mussolini achava que Marx se tinha fixado exageradamente no confronto do proletariado com a burguesia e tinha deixado de lado um aspecto da luta de classes que era ainda mais importante que o outro: a luta entre nações proletárias e as nações capitalistas. (A burguesia italiana, que tinha chegado tarde à partilha do mundo pelas potências imperialistas, não podia deixar de ver com simpatia esse desenvolvimento” da teoria da luta de classes, que legitimava as reivindicações imperialistas que ela – como representante da Itália proletária – apresentava aos ingleses e aos franceses).” (KONDER, 2009, p. 32)

[16] “Ainda em 1937, Rosenberg celebra os Estados Unidos como um “esplêndido país do futuro”, que teve o mérito de formular a feliz “nova idéia de um Estado racial”, idéia que agira se trata de colocar em prática, “com força juvenil” mediante a expulsão e deportação dos “negros e amarelos” […] “A questão negra” – escreve sempre Rosenberg – “é nos Estados Unidos o vértice de todas as decisões importantes.” Uma vez que o absurdo princípio da igualdade seja cancelado para os negros, não se vê por que não se devam tirar as “necessárias conseqüência também para os amarelos e para os judeus”.” (LOSURDO, pp.67-69, 2004)

[17] “Se eu fosse italiano, tenho certeza de que teria estado de todo coração com você desde o início para terminar sua luta triunfante contra os apetites e paixões bestiais do leninismo”. Ele escreveu sobre suas relações íntimas e fáceis com Mussolini, acrescentando que “no conflito entre fascismo e bolchevismo, não havia dúvidas sobre as condolências e convicções”(Churchill apud Seymour, 2019).

[18] ” O que aconteceu com os negócios estadunidenses que colaboraram com o Fascismo? O Chase National Bank da família Rockefeller usou seu escritório na Paris da França de Vichy para ajudar a lavagem de dinheiro alemão para facilitar o comércio Nazista durante a guerra, e o fez com completa impunidade14. Corporações como a DuPont, Ford, General Motors e ITT Technical Institute possuíam fábricas em países inimigos que produziram combustível, tanques e aviões que causaram destruição nas forças dos Aliados. Após a guerra, ao invés de serem processados e julgados por traição, o ITT ganhou $27 milhões do governo dos Estados Unidos pelos danos de guerra infligidos em suas plantas na Alemanha pelos bombardeios Aliados. A General Motors ganhou $33 milhões. Pilotos eram instruídos a não acertarem as fábricas na Alemanha que eram propriedades das firmas dos EUA. Então Colônia foi praticamente nivelada ao chão pelos bombardeios Aliados, mas a sua planta da Ford, que provia equipamento militar para o exército Nazista, se manteve intocada; de fato, civis alemães começaram a usar a planta como um abrigo para os ataques aéreos“(PARENTI, p. 19, 1997, tradução do autor).

[19] “O colonialismo fingia se distinguir do fascismo, então considerado essencialmente mau, e ressuscitar a si mesmo de uma forma paternalista e benigna. Césaire tinha ido por outro caminho. Colonialismo e fascismo compartilham muitas coisas no âmbito dos efeitos —em termos de como eles apareciam para suas vítimas. Era evidente para Césaire, como marxista, que o fascismo era uma forma política de governo burguês nos momentos em que a democracia ameaçava o capitalismo; o colonialismo, em contrapartida, era puro poder justificado por racismo para confiscar recursos de povos que não estavam dispostos a entregá-los. Suas formas eram diferentes, mas suas condutas eram idênticas” (PRASHAD, p. 120, 2019).

[20] ” O tema das origens do fascismo é excepcionalmente amplo. Alguns autores vão buscar precursores do movimento fascista e da sua ideologia no Renascimento (em Maquiavel!), outros na Idade Média e ouros até na Antiguidade (Karl Popper chega a incriminar Platão!)” (KONDER, p. 59, 2009).

[21] ” Ainda na França, a autora via o trabalho que estava escrevendo “como uma obra exaustiva sobre o anti-semitismo e sobre o imperialismo e uma pesquisa histórica sobre aquele fenômeno que, então, chamava de ‘imperialismo racial’, isto é, sobre a forma mais extrema de opressão das minorias nacionais por parte das nações dominantes de um Estado soberano”. Naquele momento, bem longe de ser um alvo, a URSS era, sobretudo, um modelo. Vinha lhe sendo atribuído o mérito, observa Arendt no outono de 1942 (no meio tempo, tinha desembarcado nos EUA e dali seguia o desenvolvimento da operação Barbarossa desencadeada por Hitler), de ter “simplesmente liquidado o antissemitismo” no âmbito de uma “solução justa e muito moderna da questão nacional”.” (LOSURDO, p.57, 2003)

[22]É digno de nota que Hannah Arendt faz este processo de poupar Lenin, só para, logo adiante, em seu outro livro, ”Sobre a revolução”, acusá-lo de totalitarismo e fundamentar ainda mais suas bases anticomunistas, enxergando em Marx agora, não só o germe do totalitarismo, mas também enxergando-o como o germe de tudo que há de errado na modernidade, simultaneamente condenando também Robespierre – que seria inclusive seu antecessor -, os Jacobinos e, sobretudo, a Revolução Francesa e seu legado como um todo. A operação é feita para, enfim, compará-la à experiência da profunda liberdade que foi a Revolução Americana, que, embora tenha mantido a escravidão, seria, segundo a filósofa, aquela que produziu a verdadeira fundação da liberdade: ”Menos clamorosas talvez, mas certamente não menos reais são as consequências da contribuição americana para a ignorância do mundo, sua omissão em lembrar que foi uma revolução que deu origem aos Estados Unidos e que a república nasceu não por “necessidade histórica” nem por um desenvolvimento orgânico, e sim por um ato deliberado: a fundação da liberdade.” (ARENDT, p. 276, 2011)

[23] ” Em virtude da grande força de atração desse movimento, que, finalmente, toma uma direção à frente, tenta-se preservar, mesmo depois de sua completa transformação, a aparência de uma certa continuidade com a etapa anterior, a aparência de continuar lutando contra o “totalitarismo”, termo agora usado para se referir indiscriminadamente tanto ao fascismo quanto ao comunismo. Prescindindo do fato de que essa concepção não passa de uma velharia […] ela evidencia, na situação concreta em que nos encontramos, imediata e obrigatoriamente, uma nova hipocrisia; pois, a fim de combater eficazmente o comunismo em termos políticos, a “democracia” precisa se aproximar intimamente dos resquícios do nazismo na Alemanha (Hjalmar Schacht, os Krupp, os generais de Hitler), de Franco etc. De modo que a ideologia “antitotalitária” assume inevitavelmente, e de um modo cada vez mais nítido, traços fascistas. A “cruzada” contra o comunismo, contra o marxismo-leninismo, é uma velha herança da democracia burguesa transmutada reacionariamente.“ (LUKÁCS, pp. 664-665, 2020)

[24] A maior parte da Segunda Guerra Mundial foi lutada na Frente Oriental, para além disso o fardo do alto número de vidas perdidas na URSS muito se deve à diferença das guerras feitas. No Ocidente, não havia um objetivo explícito e expresso de dizimação da raça, como era o caso do Oriente. Essa diferença pode ser notada, por exemplo, pela existência do Generalplan Ost de Hitler, como Losurdo descreve, em debate com um historiador alemão que quer afirmar a” igualdade das duas barbáries”: “Por que, então, fazer referência ’ao modo soviético de conceber a guerra’, senão com o intuito ideológico de igualar a barbárie nazista e a “barbárie” comunista? Na realidade, a evidente diferença entre uma e outra se revela com clareza no quadro esboçado pelo historiador alemão. Hitler visa à ’edificação de um Império Alemão no leste, sobre os escombros da União Soviética, mediante o extermínio da classe dirigente bolchevique, a dizimação das massas eslavas e a eliminação sistemática dos judeus’; já a ’verdadeira luta pela sobrevivência‘ imposta à União Soviética obriga Stalin ’a buscar segurança por meio da expansão do território soviético para o oeste, e por meio de uma espécie de inversão do ‘corredor sanitário’ […]” (LOSURDO, pp. 150-151, 2017)

[25] O iídiche é uma língua baseada numa mistura do alemão, com o hebraico e outras línguas (Inclusive línguas eslavas), muito associada ao povo judeu, sobretudo aos judeus de origem ashkenazi.

[26] ”Assim, fica claro que o elemento central do programa nazista era a construção de um Estado racial. Bem, quais eram naquele momento os modelos possíveis de Estado racial? Mais ainda do que a África do Sul, o pensamento corre, em primeiro lugar, ao Sul dos EUA. Ademais, de forma explícita já em 1937, Rosenberg decerto se refere à África do Sul: é bom que permaneça solidamente “em mãos nórdicas” e brancas (graças a oportunas “leis” que distinguem, além dos “indianos”, os “negros, mulatos e judeus”), e que constitua um “bastião sólido” contra o perigo representado pelo “despertar negro”.“ (LOSURDO, p.73,2003)

[27] No que tange o debate sobre a produção de Nolte sobre o tema, não poderei destrinchar a crítica à sua obra, mas aqui se sugere expressamente a leitura de “Guerra e Revolução: o mundo um século após outubro de 1917“, escrito pelo filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo, sobretudo os capítulos IV. e V., no qual o autor faz um lúcido e sólido debate com Nolte, além de uma crítica contundente ao que ele chama de ”o último Nolte”, atacando a noção que este traz de ”barbárie de ambos os lados”, explicitando que a URSS e a Alemanha Nazista estavam em lados opostos de uma guerra colonial e a comparação é, acima de tudo, descabida.

[28] ”É certo que já nessa época – no romantismo e em suas ramificações – surgiu a idealização do atraso alemão, que, para explicar essa posição, foi obrigado a conceber a disputa de maneira radicalmente irracionalista e combater o conceito de progresso como uma concepção supostamente superficial, vulgar e errônea. Ninguém foi nisso mais longe que Schopenhauer; isso explica tanto a sua total falta de influência antes de 1848, como sua influência mundial após a derrota dessa revolução.” (LUKÁCS, p. 58, 2020)

[29] ”Desde Schopenhauer e especialmente desde Nietzsche, o pessimismo irracionalista destruiu a convicção da existência objetiva do mundo exterior e de que o conhecimento imparcial e profundo do mundo possa apontar uma saída para a problemática que produz o desespero. O conhecimento do mundo, assim, converteu-se cada vez mais numa – sempre maior arbitrária – interpretação do mundo. Essa tendência filosófica reforçou naturalmente o comportamento das camadas sociais que se caracterizava pela espera passiva de tudo o que vem de cima, da “autoridade”, pois também não se tratava para elas, mesmo na vida real, da análise concreta de relações concretas, mas da interpretação de decisões, cuja motivação devia permanecer ignorada.” (LUKÁCS, p. 79-80, 2020)

[30] ”Enquanto isso, em 20 de fevereiro de 1920, o Partido Alemão dos Trabalhadores mudou seu nome para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeitpartei, chamado de NSDAP ou de Partido Nazi/Nazista). Hitler não gostou da adição do termo “Socialista“, mas aquiesceu porque o comitê executivo imaginou que talvez ajudasse atrair trabalhadores da esquerda.“ (MITCHAM JR., p. 69, 1996, tradução do autor)

[31] ”É verdade que a demagogia fascista tinha muitas facetas; ela procurava, enfatizando o seu caráter “revolucionário”, apelar também para os possíveis instintos legitimistas (pense-se no papel de Hindenburg no período de transição, no jeito formalmente legal com que foi tomado o poder etc.).“ (LUKÁCS, p. 79, 2020)

[32] Em um texto de 1859 intitulado ”O Pó e o Reno”, Engels faz a denúncia e a crítica do expansionismo de uma idealização de uma ”Nação Alemã”: ”O ’grande poder central Europeu’ é vislumbrado como uma espécie de renascimento do Sacro-Império Romano-Germânico da Nação Alemã e parece querer, dentre outras coisas, incorporar como estados vassalos os uma vez Países Baixos austríacos e a Holanda. A Terra Mãe Alemã se estenderia então ao dobro da distância onde hoje se pode ouvir a língua alemã […] Não sonharíamos em adentrar os aspectos políticos destes devaneios patrióticos aqui.” (ENGELS, p. 163, 2021)


* Eros Viana de Lima Penha é graduando em História (Licenciatura) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


 

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2 comentários em “Breves reflexões sobre a tomada do poder nazifascista e suas representações”

  1. Esse artigo traz uma interpretação perspicaz e traduz, de forma cirúrgica, o nazifascismo enquanto prática capitalista.
    É como se pintassem o nazismo como “capitalismo do mal”, pra inferir a existência de um “capitalismo do bem”. Mas o capitalismo levado ao extremo nos países de terceiro mundo tem seus próprios genocidas, seus hitleres liberais submetidos ao imperialismo colonial

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