Conclusões sobre a transição do capitalismo ao socialismo

Por Politburo do Comitê Central do KKE, via Solidnet, traduzido por Pedro Abilio

Conclusões sobre a transição do capitalismo ao socialismo. Texto do Politburo do Comitê Central do KKE (Partido Comunista da Grécia) na ocasião do 75° aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

Investigar o curso da luta de classes para a derrubada do capitalismo e a construção do socialismo-comunismo durante o século 20 é um grande desafio para o movimento comunista. Também é uma necessidade, um pré-requisito para sua ideologia política, e em diversos países, é seu reagrupamento organizacional, é acima de tudo fortalecedor, para ganhar espaço entre a vanguarda dos trabalhadores, os autônomos, os universitários, para influenciar e atrair os pioneiros nos campos da ciência e da arte. É uma pré-condição para que, sob condições revolucionárias, o novo avanço revolucionário rumo à uma sociedade comunista seja empreendido decisivamente e consolidado.


A experiência das insurreições revolucionárias durante o século 20 ainda não foi explorada inteiramente em termos de potencial e fraquezas, tampouco em suas dificuldades. Nós não consideramos isso uma tarefa fácil, apesar do fato do KKE, e outros Partidos Comunistas, estarem orientados para tais esforços. Não é coincidência que similares épocas históricas, densas em eventos notáveis e complexidade dos desenvolvimentos sociais – como a era da transição do feudalismo ao capitalismo, ou até mesmo antes, da escravidão ao feudalismo – ainda estão sendo exploradas, fatos importantes e processos que levaram a mudanças qualitativas ainda estão sendo descobertos e interpretados.

O período marcado pela eclosão da Primeira Guerra (1914) ou pela vitória da Revolução Socialista de Outubro na Rússia (1917) foi apropriadamente caracterizado por Lênin como um “período de transição do capitalismo ao socialismo”, para a derrubada revolucionária do “imperialismo, fase superior do capitalismo”. Entretanto, os desenvolvimentos na luta de classes através de todo século 20 se provaram mais complexos do que as inquestionáveis e gloriosas vitórias, como a Revolução de Outubro, a ressoante derrota das tropas fascistas em Stalingrado (1943), a transição pós-guerra de oito países na Europa Central e Leste Europeu para o socialismo, a Revolução Chinesa (1949), a Revolução Cubana (1959), a vitória contra o imperialismo americano no Vietnã (1975) E ainda, a difusão da contra-revolução e restauração capitalismo no final do século não foram correspondentemente previsíveis.

O 75° aniversário do avanço decisivo do Exército Vermelho em Berlim é uma oportunidade para articular algumas preocupações gerais dentro do contexto daquilo que foi alcançado até agora.

Mudanças na correlação global da luta de classes da Primeira Guerra Mundial até a Segunda Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial formou as bases para as condições revolucionárias na Rússia que levaram até a derrubada do Czar (Fevereiro 1917) e então, o conflito não apenas com o burguês Governo Provisório, mas também com a burguesia mesquinha e forças oportunistas dentro dos Sovietes, até a vitória da Revolução Socialista de Outubro.

A vitória inicial da Revolução de Outubro não deu a Lênin, seu líder teórico e político, a certeza que a construção socialista seria consolidada na Rússia caso uma vitória revolucionária semelhante não os acompanhasse na Alemanha.

Entretanto, na Alemanha, tal desenvolvimento não aconteceu. As revoltas revolucionárias de trabalhadores (as mais características sendo aquelas de 1918 e 1919) não tiveram um resultado positivo, a maioria pela impossibilidade de corresponder a preparação revolucionária do fator subjetivo. Em adição, outras revoltas revolucionárias, como na Finlândia e Hungria, também não acabaram em vitória. Sendo assim, a União Soviética permaneceu como o único estado socialista em qual agressões (imperialistas) externas/contra-revolucionárias incentivaram e fortaleceram as forças internas contra-revolucionárias e suas ações por mais de dois anos.

Então, durante um período de derrota das forças contra-revolucionárias e de relativa paz com os estados capitalistas (não apenas com a Alemanha mas também com a Entente, a URSS procedeu com uma série de movimentos diplomáticos táticos cujo principal objetivo era manuntenção da sua sobrevivência – algumas com Lênin já na liderança do Partido. Como na sua participação na Conferência de Gênova, no Tratado de Rapallo com a Alemanha, que experienciava as consequências do Tratado de Versailles, a tentativa de se aproximar da China e o líder do Kuomintang, Sun Yat-sen, que foi homenageado com o nome de uma universidade em Moscou em 1925), mas também com outras “forças anti-coloniais e anti-imperialistas” – não comunistas – em uma série de países, como Índia, Pérsia, Afeganistão, África do Sul, entre outros.

E ainda, a escolha da Nova Política Econômica (NEP) após o fim da intervenção imperialista e a derrota dos movimentos contra-revolucionários foi uma adaptação temporária do poder socialista e sua construção em relação aos poderes capitalistas em volta. A subsequente intensificação da luta de classes na URSS também se inter-relacionava, no esforço de industrialização e coletivização, na isolação dos kulaks.

A sobrevivência do primeiro e até aquele ponto, único estado socialista, a União Soviética, definitivamente precisou em uma mão, da solidariedade internacional dos trabalhadores, e na outra, de uma postura relativamente não agressiva dos estados capitalistas que estavam ao menos abertos para algum tipo de relação diplomática e troca comercial. A última, até certa extensão, também formou-se como resultado das escolhas feitas por governos social-democratas, nas condições onde os velhos partidos social-democratas tornando-se burgueses, tinham sido assimilados dentro dos estados capitalistas.

Portanto, todo o curso da Internacional Comunista durante a década de 1920, até a manifestação da crise econômica capitalista global (1929), é marcada pela complexidade desse balanço de forças: Um solitário estado socialista, a derrota de movimentos revolucionários de trabalhadores em estados europeus (Alemanha, Hungria, Áustria), partidos comunistas fracos ou outros incapazes de se desvencilhar da Social-Democracia. Ao mesmo tempo, em vários casos, partidos social-democratas controlavam os movimentos sindicais, enquanto a mediação direta ou indireta dos social-democratas promovia relações de troca entre estados capitalistas e a União Soviética.

Neste campo, a IC formula a linha de uma “frente de trabalhadores” e abre o caminho para cooperação entre comunistas e social-democratas inicialmente “de baixo”, e então “de cima”, como também com forças democráticas burguesas, quando o nazi-fascismo começa a ascender na Itália e na Alemanha dos anos 1930.

Quanto mais a possibilidade de uma nova guerra maturava, e dado que a URSS seria novamente alvo de alianças imperialistas contrárias, mais a pressão crescia, mais esforço era feito para limitar e isolar adversários internos (como por exemplo forças contra-revolucionárias e sabotagem), mas ao mesmo tempo contradições se intensificavam: A Adoção da Constituinte de 1936 que estendeu o direito de votar para forças de origem burguesa ou referentes, mas majoritariamente a base eleitoral mudou, do local de trabalho para o local de residência, movimentos táticos em direção de governos capitalistas pela parte da URSS.

As estimativas acima foram adotadas coletivamente pelo KKE e foram analiticamente apresentadas textualmente em um Congresso (o 18° Congresso) e mais extensivamente na obra de 4 volumes Ensaios sobre a História do KKE (1918-1949) que foi discutida e aprovada na Conferência Panhelênica.

Sua breve lembrança é incluída na ordem para que este terreno seja melhor entendido, a correlação de forças quando a Segunda Guerra Mundial estava em sua concepção. Hoje é claro que se faz necessário o esforço para uma maior e mais profunda exploração na questão da provisão, pela parte do PC da União Soviética e em geral pelo IC, para o aperfeiçoamento da luta de classes, para criação de condições revolucionárias em países ou em um grupo de países, em quais continentes, depois da crise econômica capitalista de 1929-1931, e a nova crise de 1937. A orientação parece concernir – mais intensamente após a Segunda Guerra Mundial – a países semi-coloniais e países dependentes, principalmente na Ásia e não na Europa.

De qualquer forma, a Segunda Guerra Mundial nasce e é uma continuação da Primeira Guerra Mundial e para uma grande extensão se desenvolve em território europeu. Enquanto ambas as Guerra Mundiais foram empreendidas por estados capitalistas no intuito de redistribuir mercados, colônias e semi-colônias, na Segunda Guerra Mundial o único estado socialista existente é envolvido. Ele é alvo direto do Eixo fascista, um alvo que não é bloqueado por nenhum outro bloco de estados capitalistas. Ao contrário, o segundo bloco estava esperando por tal ataque do primeiro, que em uma mão atingiria a União Soviética, e pela outra, enfraqueceria a Alemanha e anularia suas aspirações. Isso foi refletido no fato que tanto Reino Unido quanto França procederam para assinar o Pacto de Munique com Alemanha e Itália em setembro de 1938, paralelo a outros eventos, como o deliberado atraso (por 9 meses) na abertura da Frente Ocidental, com a invasão da Normandia.

O Acordo Molotov-Ribbentrop (agosto 1939) veio um ano depois em resposta ao Pacto de Munique. Depois do ataque do Eixo fascista na França, o bombardeamento da Bretanha, mas também o ataque na União Soviética, veio o acordo entre soviéticos, britânicos e americanos, mas também a decisão de dissolver a IC baseada no raciocínio problemático, que objetivamente promoveu o destacamento da liberação anti-fascista armada em detrimento da luta pela conquista revolucionária do proletariado.

Obviamente, no final, a União Soviética deu um golpe decisivo nas forças do Eixo fascista. As batalhas em Stalingrado foram o ponto de virada para o fim da Segunda Guerra Mundial, até mesmo para as forças não-comunistas, independentemente de seu grau de consciência política. No decorrer, a liberação do Exército Vermelho de países ocupados por forças do Eixo fortaleceu politicamente as forças trabalhadoras-populares nesses países.

Deste modo, próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial, já no outono de 1944 havia mudanças significativas no balanço de poder internacional: Um bloco separado do sistema imperialista está praticamente derrotado, a União Soviética não está mais isolada e tem um grande impacto, pelo menos na força trabalhadora internacional, enquanto o outro bloco de estados capitalistas, liderado por Estados Unidos e Reino Unido, aparece como um aliado “democratico” da União Soviética, mas trabalhando metodicamente para enfraquecê-la novamente.

Sobre essas novas circunstâncias, a União Soviética procurou por uma nova e mais favorável balança de poder, principalmente em suas fronteiras ocidentais.

Desta maneira, as discussões-negociações entre estados aliados representantes de diferentes classes (URSS – EUA – RU) não apenas referiam-se a confrontação do inimigo, mas também a perspectiva de um armistício com as forças beligerantes (quais as forças do Eixo assinariam acordos, com quais termos, etc). De fato, a Aliança Anti-fascista também tocou no regime político pós-guerra destes países.

O que é certo é que a luta de classes ocorreu através da confrontação entre a União Soviética e os estados capitalistas dos Estados Unidos e Reino Unido durante as negociações. A União Soviética estava interessada que seus vizinhos entrassem em um processo de aliança mais estável com ela, na direção de uma construção socialista, enquanto EUA e RU estavam interessados em proteger o domínio capitalista na Europa, em quantos países fosse possível, certamente no Mediterrâneo, nos Balcãs e especialmente na Grécia.

Como toda as evidências subsequentes dos arquivos dos países capitalistas, assim como da URSS, prova que as lideranças e os serviços dos “aliados” capitalistas, já no meio da guerra, estavam trabalhando freneticamente para o “próximo dia” com clara orientação de classe, fortalecendo o capitalismo. Isso também dizia a respeito de seus objetivos em relação a União Soviética, com planos e práticas para erodir o socialismo de dentro, explorando a aproximação com a URSS através da sua diversificada diplomacia, militar, missões econômicas e mecanismos. Ao mesmo tempo, eles também estabeleceram as bases para novas alianças imperialistas, econômicas e políticas (Banco Mundial, FMI), alianças transnacionais, tais como OCDE, ONU, através das quais eles limitariam a política externa soviética, enfraquecendo sua orientação de classe. Eles também estavam se preparando para novas guerras imperialistas com novos armamentos, como a bomba atômica, que foi testada no Japão sem nenhuma razão operacional militar, apenas como uma ameaça para a URSS. Mesmo após o fim da guerra, eles moveram-se para ações mais agressivas, como por exemplo a Doutrina Truman, que essencialmente sinalizou para a Guerra Fria, o Plano Marshall para recuperação econômica capitalista da Europa, e particularmente a RFA (República Federal da Alemanha), e subsequente criação da aliança político-militar OTAN. Eles tomaram vantagem da confusão ou até mesmo completa desorientação causada pela estratégia da Aliança Anti-fascista no Movimento Comunista Internacional, em uma dúzia de PC’s de países que de um jeito ou de outro experienciaram guerra (Grécia, Itália, França, Bélgica, Áustria, etc.). Eles ganharam tempo, principalmente no período que foi crítico para a desestabilização do poder burguês, 1944-1945.

Em adição, a armadilha oportunista do movimento comunista em países como EUA e RU fizeram que o movimento comunista ficasse carente da necessária solidariedade internacionalista proletária em países com condições revolucionárias, tais como Grécia e Itália. Ao contrário, Partidos Comunistas dos EUA, do Reino Unido, da França, tornaram-se perpetradores de desastres para a consciência do movimento proletário, o apoio de democratas anti-fascistas ou governos anti-monopólio burguês.

O que é certo é que o movimento operário-revolucionário se encontrou sem uma estratégia revolucionária durante o fim da Segunda Guerra Mundial. A elevação da política externa da URSS e até mesmo suas manobras táticas em um princípio contribuíram para isso, por qual o PCUS é responsável.

Hoje, podemos dizer que algumas das negociações soviéticas para o “próximo” dia pós-guerra não corresponderam a real dinâmica dos desenvolvimentos, cujo resultado nós podemos estimar que não correspondeu a favor de fortalecer a perspectiva socialista, na URSS, e em outros países. Tais propostas foram, por exemplo, “a aceitação do princípio da necessidade de desmembramento da Alemanha” (Fevereiro 1945), a aceitação do princípio de mediação entre os primeiros governos pós-fascistas ou pós-ocupações e a força política burguesa exilada (por exemplo na Polônia e Iugoslávia), a negociação por uma junta (entre Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética) para o controle político no desenvolvimento pós-guerra em países derrotados do Eixo fascista (por exemplo Bulgária, Romênia, Hungria, Itália) ou países que tinham sido sujeitados a uma ocupação fascista, como Grécia e Iugoslávia.

A ilusão da “coexistência pacífica”

Um ponto chave é como a política externa de um estado proletário sob construção socialista pode ser determinada em condições desfavoráveis, isso significa condições de agressão imperialista, cercado por poderosos estados capitalistas. Hoje, nós devemos examinar esse problema com uma visão analítica das ações tomadas, assim poderemos nos tornar mais penetrantes, dialéticos, menos sentimentimentais, examinando fatos complexos junto da inclusão de fatos históricos.

A URSS seguiu uma política externa em relação aos países capitalistas que foi determinada por sua necessidade de salvaguardar a si própria de inimigos externos e internos.

Isso contém uma contradição acerca das condições históricas dadas: O objetivo ideológico-político de preservar a URSS como um estado proletário impõe escolhas diplomáticas que em parte, não irão manter amplamente a dimensão da luta de classes internacionalmente, por exemplo um acordo de armistício, um acordo comercial, relações diplomáticas, etc. É óbvio, tais movimentos não deveriam levar à uma atenuação da luta de classes em um país capitalista cujo estado socalista está fazendo comércio.

Esses problemas ocuparam o Estado Soviético desde o momento que o mesmo alcançou o poder. Como mencionamos anteriormente, esses problemas tornaram-se mais complexos durante o período que seguiu as derrotas das revoluções de 1918-1923 na Europa.

Ainda, em geral, a história da luta, entre diferentes estados de um mesmo caráter de classe, certamente irá demonstrar algumas manobras táticas na política externa. Isso é, nós observamos que a formação de uma aliança toma um caráter conjuntural, acordos servem ao interesse do dito estado ao dito tempo. Isso é evidente através da história do século 18 e 19, onde nenhum estado socialista existia. E isso continua de qualquer forma a ser uma parte regular da política externa de estados capitalistas através do século 20 também, muito embora estrategicamente a União Soviética continuasse a ser seu alvo comum.

De qualquer forma, o recém formado Estado Soviético também tentou mal-sucedidamente concluir um armistício conjunto entre os estados da Entente, Alemanha, e outros, na Primeira Guerra Mundial. Desta maneira, não foi novo para a lógica acordos entre estados de classes inimigas (URSS de um lado e RU, EUA e França do outro) no sentido de salvaguardar a paz pós-guerra. A diferença foi que neste momento na Segunda Guerra Mundial o poder de barganha da URSS era maior, enquanto o medo de classe dos estados capitalistas estava aumentado sob os desenvolvimentos que poderiam levar à queda de uma série de países, entre eles Itália e Grécia. Da perspectiva dos “aliados” capitalistas, os subsequentes desenvolvimentos provam que por trás da coerção e dos movimentos diplomáticos, o desencadeamento da tão chamada “Guerra Fria” estava sendo preparado o incitamento de forças contrarrevolucionárias em uma série de países como Polônia, Hungria, Iugoslávia, mais tardiamente Tchecoslováquia, junto da exterminação a todo custo de forças armadas populares na Grécia e Itália.

Certamente, o Partido e a liderança de estado da URSS não relaxaram a guarda, mas ao contrário deram mais que o necessário peso ao confronto com o fascismo alemão. É preciso ser explorado se a lógica problemática de enfraquecimento da Alemanha (privando-a de sua indústria militar ou sua partição, etc) seria um fator no estabelecimento da paz com uma prevalência de realismo, governos “amantes da paz” anti-fascistas democráticos burgueses em uma série de países.

Foi rapidamente reafirmado que o fator da agressão imperialista não foi apenas o nacionalismo alemão (ou italiano, ou japonês, etc), mas uma tendência geral dos estados capitalistas para a expansão de seus territórios, ou pelo menos para influência e controle sobre a preferência de exploração de recursos naturais e potencial força laboral em outras áreas.

É por isso que nas décadas seguintes, os Estados Unidos, o Reino Unido e França igualmente conduziram operações militares em África, Ásia e América Latina, em um esforço para evitar tais operações em seu próprio solo

É claro, o conflito entre eles foi majoritariamente pago em sangue, pobreza, refugiados e imigração dos povos de países que ainda não haviam se estabelecido como potências capitalistas (semicolônias, ditaduras militares ou reais que cooperam com uma outra liderança capitalista) Mas, também foi pago com suas próprias tropas, como é o caso dos EUA no Vietnã.

Do início dos anos 1940, até o final da Segunda Guerra Mundial, a diplomacia soviética e suas negociações, assim como sua postura em relação a outros partidos comunistas, foram impactadas pelo problema de elevar a política externa da União Soviética em um princípio. Em outras palavras, escolhas políticas estratégicas específicas foram teorizadas, um problema que teve um efeito negativo no desenvolvimento da luta de classes internacionalmente pela vitória do socialismo.

A questão de estimar a correlação de forças em relação com a formação de estados conforme eles foram se estabelecendo territorialmente após a Segunda Guerra Mundial, mas também seu estabelecimento político, não foi realisticamente avaliada pelos PC’s, assim como pelo próprio PCUS.

A avaliação irrealista da correlação de forças na Europa e globalmente – não apenas do ponto de correlação entre estados capitalistas, mas também entre capitalismo e socialismo – foi refletida nos documentos do 19° Congresso do PCUS e nos seguintes, nos Encontros Internacionais de Partidos Comunistas e Operários. O imperialismo europeu (por exemplo Reino Unido e França) foi subestimado, frequentemente suas lideranças foram consideradas subservientes em relação aos Estados Unidos, e a possibilidade de sua reconstrução pós-guerra foi subestimada. O papel da União Soviética e os oito novos estados na Europa na correlação global de forças da luta de classes entre capitalismo e socialismo foi superestimada, enquanto a existência de situações revolucionárias em outros países europeus foi subestimada, como em Grécia e Itália.

Os documentos soviéticos, os documentos dos PC’s dos estados capitalistas, mas também aqueles das Conferências Internacionais, e durante as décadas seguintes, 1950, 1960, 1970, revelam um problema sério de uma interpretação sem classe da guerra e paz, que era chamada de “coexistência pacífica” entre estados socialistas e capitalistas com uma burguesia democrática.

Representantes de várias correntes oportunistas em nosso país muito frequentemente discordam da posição do KKE na falta de estratégia revolucionária no Movimento Comunista Internacional durante a Segunda Guerra Mundial e nossa interpretação da elevação da política externa da URSS em um princípio. Seu principal argumento é o fato que oito países da Europa Central e Leste Europeu “regimes de Repúblicas Populares” foram formados, alguns deles cujo desenvolvimento seria considerado como uma forma de estado proletário revolucionário, “Ditadura do Proletariado”. Esse argumento é infundado, e tampouco é confirmado pelas intenções pragmáticas que inicialmente declararam esses governos, nem mesmo pelos desenvolvimentos históricos (conflitos de trabalhadores com forças burguesas).

A formação de governos mistos (com burgueses e comunistas), com um plano de governo democrático-burguês, é evidente nos acordos de armistício. É claro, a luta se intensificou muito rapidamente e tendeu ao lado das forças revolucionárias da classe trabalhadora, mas deixaram um espaço significativo de tolerância para as forças capitalistas: Remuneração da força de trabalho estrangeira não foi completamente abolida, e o debate acerca do “socialismo de mercado” e “autopreservação” das empresas e outros conceitos parecidos se espalharam nos anos 1960. Em outra mão, em países como Grécia, a liberação armada foi apanhada por uma série de acordos com forças burguesas antifascistas como aqueles do Líbano, Caserta.

Indiscutivelmente, na década seguinte, a luta de classes se intensificou. O imperialismo internacional não se reconciliou com a correlação que ficou evidenciada nos acordos ao fim da Segunda Guerra Mundial. A escalada da luta de classes também se refletiu na situação doméstica da União Soviética. Isso foi refletido nas Conferências Teóricas do PCUS, como por exemplo, na de Economia (1952), no processo de eleição de um Secretário-geral após a morte de Stalin e se cristalizou na virada à direita oportunista no 20° Congresso do PCUS (1956), e em uma série de intervenções em PC’s, incluindo o KKE (na 6ª Sessão Plenária do mesmo ano).

Sobre a questão do personalismo revolucionário

A virada à direita no PCUS foi justificada como uma liberação do “culto de personalidade”, enquanto a virada correspondente no KKE como uma “condenação da linha sectária”, essencialmente renunciando a mais heroica linha política de ação contra forças reacionárias estrangeiras e domésticas.

A prevalência do oportunismo de direita deliberadamente usou o ataque nas lideranças para mudar o clima geral, sabendo que as massas – não excluindo a vanguarda das forças comunistas – tendem a mitologizar ou demonizar seus líderes, atribuindo a eles a mais completa responsabilidade pelas vitórias ou derrotas respectivas. É óbvio, para uma larga extensão o mesmo é feito pelos burgueses e seus líderes, precisamente para explorar essa tendência das massas, permitindo que eles perpetuem seu poder, sacrificando até mesmo seus testas de ferro.

Nós nos interessamos na relação da personalidade do líder revolucionário com as condições específicas econômicas – sociais – e políticas que desenvolvem consigo, envolvem e agem como um personalismo revolucionário.

Inegavelmente é um tema que necessita ser estudado pois sua generalização teórica ainda não é completa e nem satisfatoriamente desenvolvida, enquanto a experiência histórica do KKE e do PCUS pelo menos, oferecem materiais importantes para tal estudo, especialmente durante as décadas de 1930, 1940 e 1950.

Entre os fatores a serem estudados está a habilidade da personalidade mobilizar toda dinâmica do partido, as forças de vanguarda da classe trabalhadora e a militância radical intelectual.

Em outras palavras, uma personalidade dirigente e uma liderança coletiva na luta revolucionária estão entre as pré-condições básicas para seu resultado.

Um fator decisivo é a unidade dialética de uma perspectiva de classe com uma abordagem científica em política, muito mais ainda na luta política revolucionária, uma relação subjetivamente mediada, e portanto entrelaçada com a relação da personalidade – coletividade na liderança.

Por mais que possa parecer uma questão periférica ou secundária em relação ao resultado da luta entre capitalismo e socialismo, em relação à intensidade da luta durante essas duas guerras mundiais, não é nada disso.

É claro, do nosso ponto de vista, esse problema não pode ser examinado do ponto de vista da burguesia que superenfatiza as características das personalidades na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, Hitler negativamente, Churchill positivamente ou até mesmo Stalin. Entretanto, nós devemos refutar os correspondentes efeitos negativos onde até mesmo na historiografia comunista, nós podemos encontrar exagerações de exaltação ou condenação de uma personalidade particular característica de um líder; por exemplo, até mesmo nos documentos do PCUS encontramos referências particularmente negativas em relação à personalidade de N. Zachariadis.

Em conclusão, nós diríamos que a liderança revolucionária, as distintas personalidades dos líderes revolucionários, estão além de intenções e disposições, por sua habilidade de responder apropriadamente e prontamente as tarefas de seu tempo – isso também distingue o Partido de vanguarda. Em respeito disso, o Partido Bolchevique tomou conta de uma tarefa complexa e nunca antes vista, a sobrevivência a longo prazo de uma revolução sob cerceamento imperialista, a intensificação da luta de classes internamente na construção de novas relações, enquanto ao mesmo tempo o movimento comunista estava se desenvolvendo, com suas contradições e problemas, na Europa e no resto do mundo, assim como as obrigações internacionais para que o socialismo prevalecesse em uma série de países.

Entretanto, a habilidade é julgada pela relação dialética entre a personalidade revolucionária do líder e a função coletiva do Partido, pela relação científica do estudo de classe. Hoje, quase 100 anos depois, nós podemos julgar todo esse esforço mais objetivamente, sem sentimentalismos, mais compreensivelmente, com o objetivo de encaminhar conclusões para o presente e futuro.

Resumo das estimativas e conclusões acerca da Segunda Guerra Mundial.

  1. A Segunda Guerra Mundial foi imperialista, e isso se aplica a todos os estados capitalistas envolvidos, independentemente se alguns deles são responsáveis por começá-la, como Alemanha, Itália, Bulgária, e outros por dar forma às condições impostas, como o Reino Unido, França, Estados Unidos, por não reagirem aos ataques imperialistas do anterior.

O caráter imperialista da Segunda Guerra Mundial, isso é, a guerra entre estados imperialistas pela divisão dos mercados, não nega o fato que a aliança fascista, o Eixo, atacou a União Soviética, primeiro e até então único estado socialista.

Outros estados capitalistas também são responsáveis por esse desenvolvimento; como Reino Unido e França, que podem não ter atacado a União Soviética, mas certamente não impediram que a Alemanha se preparasse para atacar a URSS. Ao contrário, eles incentivaram e esperaram que tal ataque acontecesse, para que então o único estado proletário fosse derrubado. Essas aspirações não foram invalidadas pelo fato que toda guerra tem sua própria dinâmica, dessa forma trazendo provisões e reajustes das alianças entre os estados capitalistas, até mesmo alianças conjunturais como as dos EUA com a União Soviética de um ponto em diante, quando a força naval americana atacou as forças japoneses (Pearl Harbor).

A União Soviética, um estado proletário, lutou não apenas para defender sua soberania, mas também para defender seu caráter socialista de estado. Essa defesa também concerne ao Movimento Comunista Internacional, é uma luta para abranger a transição do capitalismo para o socialismo-comunismo.

Deste ponto, os PC’s de países capitalistas deveriam e poderiam ter entendido, e não tomado uma posição contra as movimentações táticas da União Soviética para ganhar tempo (por ex. Acordo Ribbentrop-Molotov) ou mesmo para organizar sua defesa e contra-atacar (por ex. negociações de acordo com os EUA e Reino Unido)

É legítimo para um país socialista que está em perigo – sob condições onde o sistema imperialista internacional está em guerra, dividido – fazer movimentações diplomáticas para ganhar tempo para que possa melhor se organizar e confrontar, se unir com forças contrárias, com operações militares dirigidas pelo bloco contrário. Até mesmo conduzir negociações durante a guerra, possivelmente com o objetivo de terminar a guerra, realizar acordos de cessar fogo com convenções internacionais, etc. Tudo isso é justificado.

De qualquer forma, os fatores que formam o “próximo dia” e dizem a respeito da luta de classes são mais complexos. Cada guerra tem sua própria dinâmica dentro de cada país envolvido na guerra, inicialmente como estado agressor ou ocupado. No ocupado, por exemplo, a resistência se desenvolve, a luta armada, em vários casos a correlação de forças muda no próprio processo de liberação armada, como na Grécia, cujo processo foi liderado pelo KKE e não pela burguesia do país. Isso significa que o processo toma lugar na correlação da luta de classes, entre a classe trabalhadora e as forças populares de um lado, e a burguesia, classe dominante até então, na outra.

Essas mudanças devem ter um papel na “conquista do próximo dia por determinada classe” e não apenas ou pelo menos não majoritariamente serem determinadas pelas negociações entre os países que ganharam a guerra, nesse caso particular pelos aliados, mas estados de diferentes classes, União Soviética, Estados Unidos e Reino Unido. Dessa perspectiva, o elemento primário nos desenvolvimentos pós-guerra está relacionado ao desenvolvimento da luta doméstica em cada país, e as estruturas internas devem ter uma palavra decisiva do ponto de vista do movimento proletário revolucionário, desenhando para a maior extensão possível, a solidariedade de classe internacional do movimento comunista ou estado socialista ou grupo de estados socialistas.

De qualquer forma, os elementos de política externa de um estado socialista de nenhuma forma deveriam ser teorizados ou elevados em um princípio, para se tornarem elementos da estratégia do Movimento Comunista Internacional, nem parte da União Soviética, nem parte dos PC’s de países capitalistas. Em ambos os casos, isso enfraquece a direção estratégica e capacidade do movimento comunista em cada país capitalista.

A elevação incorreta de elementos de política externa ao grau de princípios por parte do PCUS e de uma postura oportunista dos PC’s em países capitalistas mais desenvolvidos constituíram o círculo vicioso que enfraqueceu o movimento comunista, diretamente e no final das contas, em uma série de países que estavam envolvidos na Segunda Guerra Mundial, seja como agressor (ex. Itália) ou países ocupados (Grécia).

A conclusão é que a situação interna e externa da luta de classes e a habilidade da vanguarda consciente para estimar tanto a correlação quanto interação é importante em todas as fases da ação revolucionária, ambos durante a revolução e os primeiros passos da consolidação, assim como durante a construção socialista, depois da consolidação da revolução e enquanto as condições apropriadas ainda não tiverem se formado internacionalmente para que a sociedade comunista possa ser completada.

Os partidos comunistas, mesmo embora tenham liderado a luta de libertação armada, por ex. Grécia, ou a luta antifascista, por ex. Itália, não foram capazes de conectar esta luta com a luta pela conquista do poder sob condições revolucionárias. Isso é, sob condições onde o poder burguês já tinha se demonstrado sob uma profunda crise política e instabilidade, seja durante a remoção das forças ocupantes, ou durante a derrota dos agressores.

Os PC’s ficaram presos na linha de luta antifascista, doméstica ou outra (na URSS) negociações pós-guerra do regime político de seus países.

O problema não é negado pelo fato de que em alguns países, por ex. Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, o resultado das negociações entre União Soviética e os Estados Unidos e Reino Unido aparentaram ser relativamente favoráveis ou, melhor ainda, a presença do Exército Vermelho garantiu um resultado favorável para a nova escalada da luta de classes e ao nível governamental, independente de sua composição inicial (forças burguesas também participaram)

De qualquer forma, apesar do desenvolvimento relativamente favorável nesses países, todo o desenvolvimento da luta de classes, com relativa tolerância em relação às forças burguesas, deixou uma estampa negativa: Relações capitalistas nunca foram completamente abolidas (a Constituição permitiu a contratação da força trabalhadora estrangeira até um certo limite e com o controle estatal sob certa porção dos salários e as condições de trabalho). A virada oportunista a direita no 20° Congresso do PCUS tinha uma base social, a prevalência gradual de teorias de marcado sobre o socialismo.

Outros desenvolvimentos, que foram produto da correlação URSS-EUA-RU, como a formação de estados na Alemanha, ultimamente se provou insustentável (a divisão de Berlim, assimilação de parte dela pela Alemanha capitalista), constantemente incentivando ações contra-revolucionárias que preveniram a transição revolucionária do capitalismo para socialismo.

Mas também, o resultado da luta de classes em países como Grécia, em um certo nível ou outro foi influenciada pelas contradições da concepção e política da “coexistência pacífica” do socialismo com estados capitalistas “democráticos” e “pacíficos”, que foram considerados como guiados por uma política real.

A “Guerra Fria”, os ataques imperialistas na Coreia, no Oriente Médio, a formação da OTAN, a guerra imperialista contra o Vietnã, rapidamente revelou que a verdadeira face agressora dos Estados Unidos era tão agressiva quanto a da Alemanha Nazista.

A avaliação objetiva da correlação de forças sempre requer que o caráter exploratório, agressivo do poder capitalista não seja subestimado, apesar de sua forma de estado ou suas referências ideológicas particulares. Isso é porque a União Europeia “democrática” refuta a contribuição decisiva da União Soviética na Segunda Guerra Mundial e a classifica junto da Alemanha como um “regime não-democrático”, refutando o enorme caráter de classe; capitalismo sob uma mão, socialismo na outra.

O Movimento Comunista Internacional deve ficar profundamente atento para todos os aspectos e conclusões da Segunda Guerra Mundial, não temer a verdade de suas fraquezas ou erros, mas também não “jogar fora o bebê com a água”, isso é, defender o caráter socialista da URSS , julgar sua política do ponto de vista da consolidação, resistência, e aprofundamento das novas relações comunistas em todos os níveis, domesticamente e internacionalmente.

O KKE, por 30 anos agora, há ousado e duvidado, continuando sua pesquisa, seu estudo, a discussão coletiva, discussões camaradas com outros PC’s, sempre com objetivo de fortalecer a luta de classes do socialismo-comunismo


Notas

  1. A NEP foi um plano organizado de retirada a respeito da eliminação das relações capitalistas, com sua existência controlada em casos pequenos e médios, por aquele período de tempo, empresas; com capitalistas permanecendo na produção agrícola, com a importação de capital estrangeiro. Essa retirada estava relacionada às grandes catástrofes que trouxeram a economia, isso é suas condições materiais, de volta para 1913. Isso resultou no atraso de sete anos da criação do Primeiro Plano Quinquenal e mais de dez anos da existência dos kulaks.Lênin considerou que para uma série ou mais países capitalistas desenvolvidos tais medidas seriam desnecessárias. Veja no CC do KKE, 18° Congresso do KKE, ponto 14.
  2. Rascunho de telegrama para as embaixadas da URSS. 15.2.1945, como aparece acompanhando a nota de JM Maiski para V. Molotov. O arquivo material está listado na página do Ministério de Assuntos Exteriores da Rússia.

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