O Lênin de Althusser

Por Warren Montag. Traduzido por Vinícius de Araújo

Lenin tem um lugar fundador na trajetória intelectual de Althusser. Se os leitores do filósofo marxista há muito tempo consideram Lenin nada mais que uma espécie de fantoche, Warren Montag tenta aqui mostrar o caráter inaugural das intervenções de Althusser sobre Lenin. Através de uma leitura atenta da “Contradição e Sobredeterminação”, Montag retoma a dignidade filosófica que Althusser procurou no pensamento político de Lenin. Estes elementos de filosofia contidos em textos não filosóficos iriam fazer parte do núcleo da leitura althusseriana sobre Spinoza, Maquiavel, Rousseau: o encontro de fluxos e correntes heterogêneas, a contradição considerada como múltipla e complexa, a renovação do pensamento dialético das relações de forças.


Nem a natureza nem a história conhecem milagres; mas cada virada repentina na história, e em particular cada revolução, oferece uma tal riqueza de conteúdo, põe em jogo combinações tão inesperadas e originais de formas de luta e relações de forças envolvidas que, para uma mente vulgar, muitas coisas devem parecer milagrosas.

Lenin, Cartas de longe

O Lenin de Althusser é uma colcha de retalhos, uma justaposição de diferentes extratos, tanto de textos filosóficos (Materialismo e Empiriocritismo, Cadernos Filosóficos) quanto de textos políticos e práticos (primeiramente suas reflexões sobre as revoluções de fevereiro e outubro de 1917). Pouca atenção tem sido dada a ele. No mundo de língua inglesa (mas pouco melhor no mundo de língua francesa) os ensaios nos quais Althusser toma Lenin explicitamente por objeto (não só Lenin frente a Hegel, mas também Lenin e a filosofia) nunca foram estudados seriamente, e só raramente são citados, como notas ou referências, em tratamentos acadêmicos de Althusser.

Isto é ainda mais espantoso por seu uso mais amplo de Lenin, do Lenin 1917-1921, em Contradição e Sobredeterminação: a reiteração das descrições de Lenin da situação conflituosa que tornou a Revolução não só possível mas necessária é às vezes citada, mas como matéria prima para teorias filosóficas ou reflexões, não como um exemplo dessa reflexão em si. O Lenin de Contradição e Sobredeterminação é frequentemente tomado como o representante ou “substituto” de Mao, cujo texto Sobre a Contradição Althusser legitimou apresentando-o não apenas como uma continuação das reflexões de Lenin sobre contradições históricas, mas também como uma tentativa de sistematização, dando forma teórica ao que Lenin teria deixado em um estado prático. Para muitos dos leitores de Althusser, Lenin – ou melhor, um dos muitos Lenin utilizados para fins diferentes e opostos – sempre permaneceu o fantoche de outros teóricos ou filósofos políticos, de Maquiavel e Spinoza a Mao, como se Lenin, por razões que ainda precisam ser esclarecidas, não pudesse ser o único objeto das reflexões de Althusser.

O significado da figura de Lenin se complica pelo fascínio de Althusser pelo que ele chama de estratégia filosófica – ela própria uma noção muito leninista. Ainda no começo de sua carreira, Althusser percebeu tanto as inadequações do marxismo oficial quanto a dificuldade de transformá-lo, o que o convenceu da inutilidade de um ataque frontal ou de um confronto direto. Ao invés de um esforço de transformação, era preciso uma estratégia de infiltração. Assim, quando Althusser entendeu a maneira como Spinoza imitava seus inimigos para aproximar-se deles, entrar na praça e virar suas armas contra eles, ele indubitavelmente procurou teorizar sua própria prática de filosofia a fim de fazer como Spinoza. Dessa forma, o Lenin de Althusser aparece não apenas como uma obra ou um evento político, mas como uma instituição e um lugar infiltrado e depois ocupado, sendo suas armas (conceitos e métodos de análise) voltadas contra seus ocupantes “legítimos”. Trata-se, portanto, de uma análise leninista sobre a forma como o próprio modo de análise leninista pode ser aplicado e colocado a serviço de instituições cuja relação com a ordem existente dificilmente é percebida como antagônica. Ou seja, um Lenin além de Lenin, para usar uma das figuras de Negri.

Na realidade, o trabalho de Althusser é marcado por uma insistência na necessidade estratégica de imitação, dissimulação e impostura que é, juntamente com a força, uma virtude cardinal da guerra, segundo Hobbes. Os críticos viram isso claramente quando ele foi acusado de promover um Spinoza disfarçado de Marx e, quase ao mesmo tempo, de passar, em filosofia, um Marx disfarçado de Spinoza. Até comentaristas simpáticos a Althusser acabaram adotando um tipo de leitura que tomou a forma de “ao falar de X, ele está de fato falando de Y”, o que supunha que Althusser não podia ou não falaria diretamente de Y, porque ele entendia este último como sendo objeto de uma espécie de repressão ou exclusão, trazendo uma verdade que o mundo não estava preparado para receber. Nestas condições, ler Althusser significava traduzi-lo: X significa Y, e as teorias X1, X2, X3 significam Y1, Y2, Y3…

Esta leitura bastante estraussiana de Althusser não é totalmente incorreta. É verdade que, em relação a Lenin, a correspondência de Althusser – especialmente nos anos cruciais de 1962-1963, de Contradição e Sobredeterminação a Sobre Materialismo Dialético – parece defender a ideia de que ele procurou usar Lenin estrategicamente para avançar conceitos e noções diante de um público relutante em aceitá-los, a menos que esses conceitos e noções se referissem à autoridade de um Lenin. Como se as ideias mais novas, mesmo as mais subversivas de Althusser, precisassem estar mais ligadas a uma figura fundamental. Mas era isto que Althusser queria fazer, ou disse que queria fazer, não o que ele realmente fez. Se falar de Lenin era para ser apenas um pretexto, precedendo ou mesmo obscurecendo os debates que deveria simplesmente introduzir, devo dizer que, neste caso, pelo menos, o pretexto não alcançou o fim para o qual foi introduzido, e que se tornou tão importante quanto o que deveria dissimular. Se, como ele mesmo admitiu e como outros já assinalaram, seus textos muitas vezes ilustram, se não obsessivamente, uma lógica do “prête-nom[1] ( Lênin para Mao, Marx para Spinoza, ou vice-versa), em momentos cruciais esta lógica se rompe e dá lugar à usurpação, à confusão entre o imitado e o imitador, entre o original e a cópia. Assim, para seguir Althusser em seus constantes truques e desvios estratégicos e táticos, em sua arte da impostura filosófica e do disfarce, devemos entrar no círculo em que cada representante toma o lugar de outro representante, constituindo uma cadeia de substituição sem origem ou fim. Recordemos este ponto antes de embarcar no círculo infernal de Althusser.

No final de 1962, e portanto no intervalo entre Contradição e Sobredeterminação e Sobre Materialismo Dialético publicado em 1963, Althusser escreveu à Franca Madônia que tinha lido Lenin para responder às críticas de Contradição e Sobredeterminação: “Li (ou reli) os textos teóricos de Lenin sobre filosofia. Deus, como é fraco. Verifico mais uma vez que Lenin, um clínico político incomparável, um teórico prático incomparável (no sentido de reflexão sobre situações concretas, reflexão sobre problemas históricos concretos) é um teórico fraco assim que ele se eleva acima de um certo grau de abstração” (Franca 22-XII-62). A fraqueza de Lênin aqui é que ele continua sendo um “teórico prático”, escreve Althusser, e que, por mais “incomparáveis” que sejam suas “análises concretas”, ele não pode se elevar acima do nível prático, até o grau de abstração necessário para a teoria. Algumas frases depois, Althusser acrescenta que quando Lenin faz ou pensa que está fazendo teoria, “ele está apenas definindo e enunciando conceitos práticos, ou seja, conceitos com os quais se conduzirá um combate corpo a corpo, conceitos táticos de defesa imediata, de combate cerrado, de “close-combat” como dizemos… enquanto que a verdadeira teoria pressupõe algo além destes conceitos táticos, mas perspectivas que são adequadas e teóricas, e “estratégicas”. Não estamos falando aqui de “prática teórica”, mas de seu contrário, uma teoria prática, ou seja, uma prática disfarçada de teoria, e que subordinou o que é propriamente teórico, aquilo que a abstração filosófica precisa, às metas imediatas, táticas e objetivas. Teria sido necessário que Lenin estivesse praticamente comprometido, mas isso agora tem efeitos profundamente negativos sobre “a tradição oficial da filosofia marxista”. A dificuldade então, no final de 1962, não era para explicar isto, “mas [para] torná-lo aceito”. Querer fazê-lo corria o risco de provocar reações defensivas de “um sistema que não é apenas teórico, mas ao mesmo tempo institucional, ou um incentivo determinando uma conduta”.

Gostaria de fazer duas observações sobre uma primeira avaliação da relação de Lenin com a filosofia – uma avaliação que, no entanto, permanece interessante, se não mesmo surpreendente. Críticas que visariam menos explicitamente Lenin reapareceriam em Sobre o Materialismo Dialético alguns meses mais tarde. A primeira definição althusseriana de filosofia procura proteger a filosofia (e sua relação privilegiada com as ciências) da contaminação pela política – ou seja, não apenas pelas tentativas do PCF de impor uma filosofia oficial a seus adeptos, mas também pela luta constitutiva da própria política. Parece agora que esta primeira definição é uma primeira ” tomada de distanciamento ” das posições de Lenin. Para libertar a filosofia dos imperativos impostos pelo imediatismo das lutas – ou seja, os perpétuos ajustes táticos em uma guerra que adia a teoria, mesmo a teoria marxista, para um tempo de paz que jamais chegará – Althusser tem que levá-la a um nível de abstração muito além do combate próximo em que Lenin não hesitou em se envolver no terreno da própria filosofia, mas é verdade que Lenin usava todas as armas à sua disposição, em uma luta cujos limites não podiam ser fixados antecipadamente. Desta forma, Althusser distanciou a filosofia das exigências da prática política ao introduzir a distinção entre Teoria, ‘teoria’ e teoria (minúsculas). Althusser define teoria como “uma forma específica de prática”, “teoria” (entre aspas) como “o sistema teórico determinado de uma ciência real”, ou seja, os conceitos pelos quais este sistema reflete os resultados de sua própria prática, e “Teoria” (capital) como “a teoria geral”, ou seja, a Teoria da prática em geral, ela mesma elaborada a partir da Teoria das práticas teóricas existentes (das ciências), que transformam em “conhecimento” (verdades científicas), os produtos ideológicos das práticas “empíricas” existentes (a atividade concreta dos homens). A vontade de Althusser de manter o termo “teoria”, modificando-o apenas de forma tipográfica e impronunciável, tem o efeito (entre outros) de unificar as diferentes formas de teorias em uma pirâmide cujo cume seria a Teoria, levantada pela letra maiúscula e por sua generalidade acima das práticas teóricas das ciências, que são elas próprias levantadas por suas práticas acima dos produtos ideológicos das práticas empíricas ou atividades concretas dos homens. A carta à Madônia nos permite entender até que ponto a primeira definição de filosofia de Althusser não é simplesmente um desvio “teoricista” (ou racionalista) como ele diria mais tarde, mas que é uma definição que tende a negar, não simplesmente seu caráter político, mas mais fundamentalmente a extensão da participação da filosofia nas lutas sociais e políticas.

  1. Mesmo sabendo que Althusser renunciará rapidamente à definição de filosofia dada em Sobre a Dialética Materialista, uma definição que deve representar apenas um primeiro momento de seu pensamento, devemos no entanto sublinhar que Althusser retomará, apenas alguns anos depois, exatamente as mesmas proposições atribuídas a Lenin, não como exemplos pejorativos de filosofia cativa da política, mas precisamente como a única descrição exata do que a filosofia faz, notadamente quando nega sua dimensão política. Podemos entender esta evolução de Althusser como uma sucessão linear e coerente de momentos teóricos, sem rupturas ou contradições? Isto faria de Althusser a exceção à regra segundo a qual existem apenas exceções (“a grande lei da desigualdade não sofre exceção”), uma regra que é a vida da filosofia, evoluindo através de seus conflitos internos e das contradições que a animam, contradições elas próprias impostas pela situação da filosofia nas lutas que atravessam toda a vida social. “Lenin” deve, portanto, ser entendido como o nome da contradição própria da reflexão de Althusser sobre a contradição, a estrutura inerente a seu desvio perpétuo e sua distância da própria contradição. A luta a favor ou contra Lenin é uma luta obscurecida pelo evidente esforço de Althusser em não criticar abertamente Lenin em seus textos publicados, um esforço manifesto porque nunca se sabe se seu Lenin é Lenin e não uma personagem ou substituto de outra figura (individual ou coletiva), nem se sua análise é positiva ou não. Esta obscuridade é interna a Althusser e a seu projeto, o efeito mais do que a causa de sua conflitualidade: pode, portanto, ser dito que ela é constitutiva.

Para testar estas hipóteses, precisamos compreendê-las, ou os fenômenos em questão, no “estado prático”, que é a forma discursiva que elas assumem nos textos de Althusser. Comecemos com o Lênin de Contradição e Sobredeterminação, para ver se ele realmente é este simples praticante (ou “clínico”, na expressão de Althusser), que diagnostica e trata as contradições da situação e conjuntura atual, seu próprio presente, sem saber por suas causas ou produzir uma teoria geral de contradição histórica. Deve-se lembrar aqui que as críticas dirigidas a Althusser em 1962 – em particular contra sua concepção pluralista e “hiper empírica” do conjunto social, que tornava impensável sua unidade e jogava por terra o motor da história: a contradição entre forças e relações de produção – essas críticas foram de fato dirigidas, embora nenhuma das partes envolvidas o tenha admitido, menos ao que o próprio Althusser havia escrito do que às citações de Lênin, antes de tudo às das Cartas de longe. Era como se, através das críticas que os comunistas dirigiam a Althusser, a filosofia comunista oficial, supostamente fundada por Lenin, estivesse se defendendo contra as palavras do próprio Lenin:

Se a revolução triunfou tão rapidamente e – em aparência, para aquele que se contenta com um olhar superficial – de maneira tão radical, foi unicamente porque, devido a uma situação histórica extremamente original, correntes absolutamente diferentes, interesses de classe absolutamente heterogêneos, tendências políticas e sociais absolutamente opostas, se fundiram com uma “coesão” excepcional.

Não é surpreendente que o próprio Lenin se tenha esforçado para destacar junto a seus camaradas e potenciais aliados a total inadequação desta ideia, central na teoria e prática da Segunda Internacional, que a aparente diversidade deste momento histórico poderia ser entendida como várias manifestações de uma mesma contradição central, ainda não amadurecida para a revolução. Para Althusser, se Lenin enfatizou a absoluta heterogeneidade e diferença das correntes cuja conjunção foi explosiva, o motivo foi a necessidade de extrair as forças revolucionárias de uma herança filosófica sedimentada em dogma, e de construir uma teoria que pudesse orientar a ação tornando inteligível o equilíbrio de forças e a concatenação de antagonismos nos quais os bolcheviques tinham que intervir com precisão cirúrgica. As citações de Lênin, entretanto, serviram ao mesmo tempo para rejeitar a cultura teórica das instituições comunistas oficiais da Europa Ocidental de 1962, com sua propensão para imitar a social-democracia a que Lênin se opôs no alvorecer do século 20. Althusser, ao retomar estas passagens chave, habitualmente esquecidas pelos filósofos oficiais, quis sobretudo usar seu Lênin contra a figura mítica da hagiografia comunista, citando texto contra texto, para questionar não só o erro teórico decorrente da ideia de uma “simples contradição histórica”, mas também seus efeitos práticos. O ataque à fortaleza teórico-política não foi sem risco; Althusser se viu em um abismo chamado “conceito marxista de contradição”, um abismo diante do qual “o desenvolvimento filosófico do marxismo” teve que parar.

No entanto, como ele mesmo disse, não há “canto vazio na filosofia”, e em uma nota Althusser apresentou o texto de Mao, Sobre a Contradição, como uma teoria de contradição histórica que se opunha em sua essência à concepção hegeliana como ele a descreveu. No texto de Mao, a lei de desenvolvimento igual ou desigual perturba as categorias da dialética hegeliana, antes de tudo a ideia de uma simples contradição, cujos termos opostos são idênticos, cujos aspectos da totalidade histórica seriam o fenômeno, e que seria assim o centro do qual tudo surgiria. Mao iniciou seu empreendimento de descentralização ao colocar a desigualdade no coração da contradição, declarando seus termos como desiguais, com um aspecto primário e um secundário e, portanto, uma relação desigual de um para o outro. Sua materialização da contradição – que necessariamente permaneceu espiritual em Hegel – como uma contradição entre forças, entre burguesia e proletariado, poderia ter parecido grosseira em alguns aspectos, mas a contradição não poderia mais ser entendida como a identidade dos opostos se fundindo em um terceiro termo. O equilíbrio ou a igualdade entre eles poderia ser um efeito momentâneo de sua desigualdade, ou, mais precisamente, de seu antagonismo real quando se encontraram no campo de batalha.

Uma contradição assim entendida não poderia ocorrer ou se reproduzir no fenômeno do qual era a essência. A contradição central não só foi desestabilizada ou perturbada, mas deslocada, deixando o centro vazio, permitindo assim a contínua substituição de uma contradição por outra. Um dividido em dois. A cada momento havia uma contradição primária e um conjunto de contradições secundárias. Além disso, as relações determinadas entre os diferentes lados da própria contradição principal estavam em constante mudança: determinadas pela interação entre as contradições contidas em uma determinada situação, os opostos em conflito em cada contradição não eram necessariamente antagônicos, ou seja, engajados em um conflito irreversível. Porque tudo é contraditório, nem todas as contradições são antagônicas ou explosivas. Tal como para Lenin, o objetivo imediato de Mao era conduzir o partido para longe do dogmatismo e em direção a uma teoria capaz de orientar sua ação. Os dogmáticos de 1935-37 rejeitaram violentamente a posição de Mao de que sua luta só poderia avançar unindo-se em uma frente patriótica e anti-imperialista com o Kuomintang, o partido da “burguesia nacional”, que tinha travado uma guerra implacável contra o Partido Comunista e o Exército Vermelho. A resposta de Mao consistiu nesta teoria de contradição, que a desestabilizou, desencadeou uma multiplicidade de contradições, cada uma das quais poderia se tornar, dependendo da conjuntura, a contradição principal, permanecendo as outras, então, secundárias. Da mesma forma, somente uma análise concreta da situação concreta poderia ensinar ao partido quais eram as contradições que compunham as forças instaladas em um conflito e quais eram, temporariamente ou não, as contradições não-antagonistas susceptíveis de serem momentaneamente unificadas.

A nota de Althusser, embora reconhecendo que a contradição de Mao “aparece em uma forma estranha à perspectiva hegeliana”, concluiu expondo como um paradoxo suas duas fraquezas: permaneceu tanto “descritiva” quanto “abstrata”. Na verdade, a exposição de Mao da contradição poderia muito bem ser entendida como o exemplo perfeito do que Althusser condenou em Lenin: a construção de um conceito tático, ou a elaboração de conceitos cuja aparência e função permaneciam fundamentalmente práticas. Neste caso, trazer a liderança do Partido Comunista Chinês para unir-se ao Kuomintang contra o imperialismo japonês. Estas distinções entre primário e secundário, antagônicos e não antagônicos, eram separáveis das lutas que Mao havia descrito através delas? Elas poderiam atingir o nível de generalidade próprio da teoria de que Althusser falou em sua carta à Madônia?

Embora não se levante acima da descrição, a teoria de Mao, ” sob alguns aspectos”, e “em parte”, é “abstrata”, apresentando a questão da contradição em termos que pareciam pretender chegar a uma teoria geral da dialética da história e não permanecer uma peculiaridade da teoria marxista da contradição. Althusser aponta a aparente incompatibilidade entre os elementos de sua crítica a Mao, mas nunca faz o esforço de resolvê-la ou explicá-la. Seu breve resumo de Da Contradição é, no entanto, muito eloquente. Em uma breve nota, ele reduz a teoria do conjunto de relações a três oposições binárias: “contradição principal e contradição secundária: aspecto principal e aspecto secundário da contradição; contradições antagonistas e não-antagonistas”, ambas comandadas pela “lei do desenvolvimento desigual das contradições”. A recuperação de Mao por Althusser torna-se assim uma teoria estruturalista, mesmo formal, da contradição, na qual a história está invariavelmente presente na forma invariável de cada aspecto da contradição. Um dado momento histórico só pode ser entendido como a atualização deste conjunto de formas possíveis: primárias ou secundárias (seja da contradição ou de seus aspectos), antagônicas ou não antagônicas. Toda a história pode ser lida através da grade destas oposições que, por si só, tornariam uma determinada conjunção coerente e inteligível. Esta grade pode ser aplicada indiferentemente a qualquer época, modo de produção ou formação social, e assim oferece um tipo de teoria que pode ser aprendida de cor e facilmente aplicada, apesar das declarações de Mao. Tal sistema não é uma teoria de contradição como uma identidade espiritual de opostos cuja essência penetra no mundo material, uma identidade que é sempre apenas a forma de reconciliação que precede o tempo em que veremos tudo claramente. Mas é um sistema constituído pela atribuição de papéis ou posições determinadas por sua desigualdade e dissimetria.

Ninguém entendeu melhor as implicações da leitura de Althusser do que Alain Badiou, uma década depois. Em sua muito anti-althusseriana Théorie de la contradiction (1975), ele relata os silêncios da breve nota na qual Althusser descreve precisamente a teoria de Mao, e depois sua rejeição imediata no resumo de Althusser de Sobre a Contradição. Como se dirigindo-se à coxia, respondendo a uma objeção nunca formulada, Badiou tem o cuidado de advertir seu leitor que a teoria de Mao não deve ser lida como uma distribuição logicamente predeterminada de partes concorrentes, como se a leitura de Mao na França nos anos 60 fosse traduzir uma teoria de contradição em uma ordem sincrônica de lugares e funções, algo como uma sintaxe da história. Deve ser lido como uma teoria de forças: “o pensamento da contradição não consiste em dobrar o sistema de lugares por uma estimativa estrutural (combinatória) de forças”. O processo é essencialmente dissimétrico, de uma dissimetria que não pode ser esquematizada, porque é qualitativa” (93). O que na teoria de Mao não serve para desenvolver a teoria marxista da contradição, e inclusive se arrisca a levá-la para trás por sua aparente semelhança com o estruturalismo ou com as ciências sociais, é de fato útil para defender os ataques (vindos antes de tudo do campo marxista) contra o “pluralismo” ou “hiper empirismo” da noção althusseriana de contradição sobredeterminada.

Assim, Althusser faz uso da teoria da contradição de Mao de duas maneiras: ela oferece uma alternativa “oficial” – se não uma crítica – à simplicidade da noção hegeliana de contradição, e permite que essa simplicidade se torne mais complexa, para insistir na complexidade e heterogeneidade irredutíveis da contradição, sem cair imediatamente no que o próprio Althusser chamaria mais tarde de reino do aleatório. A breve nota em Contradição e Sobredeterminação serve de certo modo para apresentar Lênin, embora cronologicamente anterior a Mao, como se ele fosse seu sucessor no tempo da teoria, e mais particularmente da teoria da contradição. Aqui a forma da contradição hegeliana está dividida em duas, o que Althusser ousadamente chama de sua simplicidade, uma simplicidade que sobrevive à sua transposição materialista, como uma contradição entre forças e relações de produção, tornando-se o motor e o centro da história, de modo que todas as outras contradições são apenas o fenômeno dela e podem ser reduzidas a esta contradição central. Mao se distancia de Hegel mostrando que a simplicidade de uma única e bela contradição, entendida como a identidade dos opostos, é por si só apenas o efeito conjunto de oposições cujos termos não podem ser entendidos como idênticos, mas como desiguais e dissimilares: principal e secundário, contradição e antagonismos, antagônicos e não antagônicos…

Quando Althusser se volta para Lenin, o principal fundador da tradição oficial da qual ele espera escapar furtivamente, para “tentar refletir por um momento sobre o conceito marxista de contradição”, ele o faz, diz ele, por seu “próprio risco e perigo”. Qual é o risco de (re)tornar a Lenin, uma das figuras mais importantes do aparato partidário, para usar a expressão de Althusser em 1967, que é considerado como não sendo um filósofo, ignorado, se não desprezado pelos filósofos, incluindo os filósofos marxistas de todas as tendências, a começar pelo próprio Althusser, de acordo com seu próprio testemunho? O resto do texto mostra que o perigo não está em criticar Lenin por não ser o filósofo que ele não foi, mas deveria ter sido, mas em refletir sobre as próprias reflexões de Lênin sobre a natureza exata das contradições que produziram ou determinaram a Revolução de 1917. Isto é o que Althusser chama de “aventura filosófica”: deixar de lado as “peças selecionadas”, e seguir ao pé da letra o texto de Lênin, sem fingir saber antecipadamente aonde ele nos levará, como um explorador indo para um mundo desconhecido. O risco de ler Lenin é precisamente o de entrar num mundo desconhecido, um mundo que não conhecemos como desconhecido, que fingimos ter conhecido sem ter sido capazes de saber que não o conhecíamos antes de finalmente vir a experimentar uma espécie de estranhamento filosófico [unheimlichkeit]. Se começarmos a seguir Althusser como ele segue Lenin, nos perguntaremos quem é que Althusser está silenciosamente buscando no caminho como um caçador segue um rastro, e teremos que nos perguntar se algo nas reflexões de Lenin se assemelha ou não ao que mais ou menos entendemos como sendo a contradição.

A discussão de Althusser sobre a teoria marxista da contradição não começa com uma rápida lembrança das abstrações teóricas necessárias para a análise, mas precisamente no reino da prática, naquele nível que Lenin tem tanta dificuldade em superar. Não se trata de fato do reino da prática, mas mais precisamente do campo de combate. Referindo-se a Maquiavel (A Arte da Guerra) e aos dois tratados de Vauban (Tratado de Ataque de Praças e Tratado de Defesa de Praças), Althusser sublinha que Lenin, que não teve outra escolha senão dominar as artes do ataque e da defesa, do avanço e da retirada, aprendeu que a estratégia começou com a capacidade de descobrir “o ponto fraco, o elo fraco ou a falha” em cada sistema de defesa ou de ataque. Como esta teoria foi claramente benéfica para Lenin na determinação das táticas para realizar e defender a revolução, Althusser aponta que a teoria do elo fraco também ajuda a explicar o fato, o evento revolucionário. Decerto, a Rússia era o elo fraco dos Estados imperialistas, politicamente atrasados e despreparados para a guerra em que se lançara com confiança. A guerra impôs enorme sofrimento tanto aos combatentes quanto a outros, mas foi demonstrado que esta não foi a origem da fraqueza do elo fraco. Esta fraqueza foi o resultado de uma característica específica: “a acumulação e exasperação de todas as contradições históricas então possíveis em um único estado” ( PM 94). Como se para sublinhar a importância desta proposta, Althusser repete em uma página posterior: “o acúmulo e exasperação de todas as contradições históricas”. Parece impossível enumerar todas essas contradições, como se seu número excedesse o espaço do argumento e cobrisse a totalidade das condições de possibilidade da revolução russa. De fato, o número dessas contradições por si só é menos importante do que sua adição ou agregação (Althusser usa o verbo “acumular” ou “cumular”), que Althusser associa à exasperação dessas contradições como se a intensidade das forças opostas crescesse quando elas fossem somadas.

Althusser parece às vezes propor uma teoria puramente quantitativa de contradição, de modo que cada contradição é equivalente e comensurável a qualquer outra, que pode ser adicionada ou subtraída, multiplicada e dividida. Mas ele cita Lênin para reintroduzir um elemento de incomensurabilidade que é próprio a qualquer situação revolucionária. Lenin salienta que às contradições acumuladas – que aqui assumem a aparência de uma adição em vez de uma conjunção ou um encontro misturando coisas diferentes – é necessário acrescentar “eventos, outras circunstâncias ‘excepcionais’, ininteligíveis fora deste ‘emaranhamento’ das contradições internas e externas da Rússia” (95). Aqui o “emaranhamento”, mais precisamente e especificamente, assume e qualifica o significado de acumulação para descrever como um grande número de contradições se soma e se funde, sem perder sua singularidade, e produz um efeito através de sua proximidade. Mas para que o efeito seja uma revolução, ou uma ruptura, como diria Althusser, com o sistema existente, tanto interno quanto externo à Rússia, é necessário que, além das contradições entre forças opostas, haja “eventos e circunstâncias excepcionais”, exatamente o que Lenin considerava tão raro a ponto de ser milagroso.

O Lenin de Althusser está assim longe de Hegel, longe da noção de uma contradição histórica e de seu fenômeno, assim como está longe de atribuir lugares hierárquicos às contradições de um dado momento histórico. Somente um conceito emprestado de Freud, um conceito prático, adaptado como uma espécie de arma para uma luta contra a teoria, mas também necessário para a luta dentro da teoria, permite a Althusser, não completar a descrição que Lenin faz da teoria que lhe falta, mas ler nesta descrição a teoria que ele já tem. A teoria freudiana da sobredeterminação nada mais faz do que tornar visíveis os termos e conceitos da teoria da contradição de Lenin, melhor compreendida como um emaranhado de fios, um nó através do qual somente a contradição central do capital e do trabalho pode ser posta em movimento, “ativada”. O emaranhado permite “uma acumulação de ‘circunstâncias’ e ‘correntes’ tais que, qualquer que seja sua origem e sentido (e muitos deles são necessariamente, por sua origem e sentido, paradoxalmente estranhos, se não ‘absolutamente opostos’ à revolução)”, se fundem “em uma unidade de ruptura” (PM 98). Esta é a leitura althusseriana desta notável passagem de Cartas de longe:

Se a revolução triunfou tão rapidamente e – em aparência, para aquele que se contenta com um olhar superficial – de maneira tão radical, foi unicamente porque, devido a uma situação histórica extremamente original, correntes absolutamente diferentes, interesses de classe absolutamente heterogêneos, tendências políticas e sociais absolutamente opostas, se fundiram com uma “coesão” excepcional.

Dizer que a contradição central do capitalismo deve ser “ativada” como contradição significa que ela não existe antes ou fora da conjunção de “correntes” e “tendências” absolutamente diferentes, incomensuráveis e heterogêneas, que não são nem “elementos” estáveis nem forças, mas movimentos, tendências e fluxos cuja unidade ou fusão constitui a unidade de ruptura que é, na verdade, como a combinação específica desconhecida de antemão que pode por si só produzir uma fissão histórica. O fato de Althusser retornar posteriormente a estes temas sob a bandeira do materialismo aleatório não nos obriga a fazer de suas reflexões de 1962 uma prolepse ou reflexão  antecipatória, como se esta última fosse superior à primeira. Ao defender Lenin, ao contrário, contra as críticas que ele mesmo faria em sua correspondência, contra Mury e os outros, contra precisamente o fato de que as análises de Lenin nada mais são do que uma lista ou inventário de diferentes fatores sem poder se encaixar em uma lógica que descreva sua função, Althusser profere uma frase cujo significado ele não estava pronto para especificar completamente em 1963 e que mais tarde evitaria: Lenin é o teórico da “estrutura da conjuntura”.

Uma década mais tarde, o nome de Lenin daria lugar ao de Maquiavel, ou de outros filósofos da conjuntura, mas não sem os conceitos práticos de Lenin funcionando na própria filosofia. Quando ele invoca Lenin contra as pretensões dos filósofos de teorizar a teoria ou administrar conflitos, Althusser parece confinar os filósofos à inexistência do “nada filosófico”, a pura imanência de uma linha “que nem sequer é uma linha, nem mesmo um traço, mas o simples fato de sobressair, portanto o vazio de uma distância tomada”. A própria conjuntura pensa sua própria conflitualidade e dispersão, como se a filosofia fosse apenas a linha que delimita os conflitos e seu emaranhamento, a racionalidade refletindo sobre esses conflitos ou produzindo efeitos reflexivos apenas na medida em que reflete sobre o nó da conjuntura, cuja superfície plana é o outro lado. Nos primeiros textos de Althusser e no início de sua aventura filosófica, foi Lenin quem lhe mostrou o caminho, Lenin conhecido como dogmático, que paradoxalmente se distanciou, ele mesmo, do emaranhado da conjuntura, na qual, em certo sentido, Lenin desapareceu. O fato de Althusser só ter sido capaz de seguir uma parte do caminho foi certamente um efeito da conjuntura na qual a força de seu pensamento variou de acordo com o poder de ação.


Notas

[1] Tomar o nome emprestado.

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