O status e dominação social: móveis

Por José Neto

Os móveis não são apenas elementos para decoração ou, se falarmos especificamente, elementos para enquadrar o espaço; eles são também formas de imposição social e reprodução de valores. Essa imposição é feita tanto pela estética quanto pela representatividade dada a eles, mostrando que a montagem espacial de um ambiente não foge às dinâmicas de classe. Dessa forma, os móveis são instrumentos classistas e que servem, de forma hereditária e coercitiva, para manter valores e grupos sociais no poder.

Pensemos: como é a casa de um intelectual? Como é a casa de trabalhador agrário? Como é a casa de um empresário? Depois de pensarmos, com certeza, imaginaríamos como são. A casa do intelectual, como um clichê de filme norte-americano, seria com móveis minimalistas e com dezenas de livros; em contrapartida, a casa do camponês seria com poucos móveis, ou só os necessários, teria um tom de antigo e com coisas de segunda mão; já, como prevista, a casa do elitista seria o culminar do capitalista, pois, seria um festival de coisas únicas e de muito valor. Esse jogo de imaginação tem um propósito: na sociedade cada um desses grupos é distribuído da mesma forma que eles montam as suas casas.

Ampliando a política de Platão

Platão dividiu a sua sociedade ideal de acordo com metais, ouro, prata e bronze, onde cada um deles representava uma classe e função social. Os filósofos (Ouro) tinham racionalidade, por isso estavam no topo e tinham a função de pensar a sociedade e a política; os guerreiros (Prata) estavam no meio, pois, defendiam a polis grega; por fim, os servos (Bronze) estavam em baixo sustentando a todos os outros segmentos. Dessa forma, notamos um parâmetro de exclusão e imobilidade social nessa sociedade utópica. Contudo, a forma de governo dos sábios que Platão criou não se distingue do capitalismo moderno e as suas dinâmicas reprodutivas.

Se formos analisar com atenção, fazendo comparações sociológicas e históricas, e olhando para a organização espacial, o representar dos móveis em uma sociedade também conota uma posição social específica. Observando a representação da casa do intelectual, do camponês e do aristocrata vemos que cada um deles é designado a uma funcionalidade na sociedade e o seu objetivo social e político na mesma. O intelectual pensa, está representado como ativo na sociedade e é uma referência às outras classes – ideia forjando irracionalmente;  o trabalhador vive para o trabalho, alimentando as outras classes sendo uma caricatura segregada e sem representatividade social – onde os outros grupos tentam não deixá-los se organizar; o oligarca detém poder e dinheiro, em resumo, está dominando as outras camadas e é o mais ativo na sociedade – detém maior poder. Com isso, podemos notar que a visão platônica não foi utópica, mas sim uma premonição das sociedades futuras.

O consumismo e a reprodução

Essas formas de dominação e representação são reproduzidas em mentalidades e atribuição simbólica aos objetivos. Não importa a época ou lugar, sempre as casas serão organizadas socialmente no capitalismo por meio de estigmas de classe e domínio coercitivo das mentalidades. Observamos a movimentação especial em diferentes épocas históricas, temos que pouco se muda e os móveis apenas são reformulados ou melhorados. Isso mostra uma hereditariedade de um padrão da sociedade, reproduzindo-se a todo o momento.

O domínio das mentalidades é uma soma de persuasão cultural com coercitividade socioeconômica. Os instrumentos culturais fazem permanecer um padrão em ambientes, as redes de reprodução social fazem com que a casa do intelectual, do trabalho e do oligarca se mantenham as mesas ao passar do tempo; com isso, o mercado se móveis não é democrático e plural, mas sim uma continuidade histórica. Não existe uma força que impeça a compra de imóveis, mas existe um mecanismo de auto-segregação que infiltra-se nas mentalidades para que as pessoas não escolham certos objetivos que não conotam as suas classes; esse mecanismo é gerado culturalmente nas mentalidades e por seus meios de reprodução.

Construção democrática dos móveis

A forma de superação dessa dominação das mentalidades é construir e ampliar uma cultura popular – simplesmente. Colocar no mantra social que qualquer pessoa poderá decorar os seus espaços da maneira que quiserem, sem coercitividade interna ou externa. A quebra desse estigma de classe, por meio de uma alternativa cultural, poderá quebrar o mecanismo auto segregativo e democratizar o espaço.

 

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no pocket

Deixe um comentário