O renascimento do capital e a virada à esquerda do trabalhador intelectual

Via QiaoCollective, traduzido por Lauro Abelha.

Publicado originalmente de forma anônima nas páginas Zuoyi23 no WeChat e no Zhizu [site chinês de perguntas e respostas gerido pela comunidade de usuários], o artigo a seguir explora a ascensão e queda da classe capitalista na China. Através de uma lente afiada e dialética, o autor lança um olhar crítico sobre como a relação entre o Estado e o capital continua a moldar a relação entre as classes capitalista e trabalhadora na China – e como jovens trabalhadores estão retornando à crítica marxista para moldar o futuro.

O texto original no Zhihu pode ser encontrado aqui: 资本的复兴和脑力无产者的左转[https://zhuanlan.zhihu.com/p/394694462]

Nota do editor [do Qiao Collective]: A peça a seguir foi publicada originalmente em 18 de dezembro de 2020, pouco depois da suspensão do IPO da Alibaba e meses antes do governo chinês instituir uma série de novas regulações em todo o setor privado. Depois foi republicado em sítios esquerdistas como o Utopia (乌有之乡). 

O autor detalha apenas uma pequena fração das contradições anteriormente escondidas na sociedade chinesa resultantes do período de Reforma e Abertura. Durante as décadas de 1990 e 2000, mudanças nas relações trabalhistas, na economia política e no fluxo de capital pareciam significar o fim da construção socialista na China – de fato convencendo muitos estudiosos ocidentais e esquerdistas de que a China havia se vendido à classe capitalista.

Entretanto, a recente virada brusca da China na regulação estatal de indústrias-chave como educação, tecnologia e habitação – denunciada na mídia ocidental como uma “repressão” ao capitalismo – reflete a estratégia de longo prazo de acumulação de capital. Nos últimos meses, o governo chinês enquadrou várias indústrias multibilionárias, desvalorizou massivamente os ativos de bilionários e iniciou uma das maiores transferências de riqueza do capital monopolista para o público, eliminando a pobreza extrema no país.

À luz da descrição concisa do autor da ascensão e queda do capitalista chinês, lembramos que Marx e Engels teorizaram que o socialismo, e consequentemente o comunismo, só poderiam ser realizados sob uma abundância de capital. Usando o mercado como meio de acumulação de capital em vez de um fim em si mesmo, o projeto em andamento de construção socialista do Partido Comunista da China elevou os padrões de vida de mais de 1 bilhão de pessoas. Apesar das dificuldades enfrentadas pelo povo chinês, compartilhamos o apelo do autor para olharmos para o que o futuro nos reserva. 

2020 foi um ano especial. Foi um ano em que trabalhadores intelectuais sem propriedade (脑力无产者) realizaram uma virada à esquerda (para um ponto de vista crítico do capitalismo). Foi também o primeiro ano em que trabalhadores braçais sem propriedade sentiram uma crise clara. 

Desde 1978, o desenvolvimento de capital da China passou por três estágios significativos. Ligado a esses três estágios de desenvolvimento, o status social dos capitalistas e a consciência dos trabalhadores também passaram por três estágios diferentes. 

1978 – 1992

Este período é o primeiro estágio do desenvolvimento do capital da China. Neste estágio, o capital foi retirado da inexistência e criou um mercado nacional unificado de commodities, mercado de trabalho e sistema financeiro. 

Antes de 1978, ser um capitalista explorador não era apenas vergonhoso, era ilegal. Depois da Reforma e Abertura, foi nessas condições que o primeiro grupo de capitalistas (inicialmente indivíduos na cidade e no campo) atingiu a maioridade. 

Em 1981, discussões dentro do Partido giravam em torno de uma questão particular: se o emprego privado de mão de obra constituía exploração sob um sistema socialista. O debate se arrastou e, finalmente, concluiu que menos de oito funcionários não se qualificavam como exploração, enquanto mais de oito funcionários, sim. No entanto, o desenvolvimento de capital prossegue em um ritmo vertiginoso, e essa restrição de oito pessoas foi quebrada em pouco tempo. 

Em janeiro de 1983, o governo central emitiu os “Três Nãos” em relação ao emprego de mais de oito pessoas: não promova, não divulgue e não seja rápido demais para proibir. Sob um sistema de apoio tão ambíguo, o capital se desenvolveu rapidamente e, como classe, os capitalistas na China ressurgiram em uma terra de trabalhadores-camponeses. 

Enquanto os capitalistas estavam ocupados enriquecendo suas famílias, eles não tinham qualquer tipo de prestígio social associado. Eles não podiam entrar no Congresso Nacional do Povo, participar da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês ou se filiar ao Partido. Eles nem tinham certeza se poderiam construir suas casas com trabalho explorado, pois dez anos antes, nosso Partido havia confiscado todas as propriedades capitalistas. 

Nas cidades, a classe trabalhadora tinha a sua tigela de arroz de ferro. Mas os capitalistas, antes de tudo isso, eram apenas jovens instruídos desempregados, vagabundos inúteis e todo tipo de vagabundos desprezados pelo proletariado. Para esses capitalistas nouveau-riche, o proletariado ironizava “Agora você tem algum dinheiro podre – em dois dias o país vai pegar de toda forma”. 

No campo, trabalhadores migrantes começaram a aparecer. Os empreendimentos cooperativos formados no período socialista foram desfeitos para se tornarem “empresas municipais” [“township enterprises”] e foram entregues a todo tipo de “pessoas qualificadas”, inaugurando o início do desenvolvimento capitalista. Agricultores locais se tornaram reserva da força de trabalho empregada nessas empresas municipais. Agindo simultaneamente em dois campos, esse fenômeno notável ficou conhecido como “deixar a terra, mas não a cidade natal”. 

Será que o país confiscaria esses bens mesmo? Estariam eles preparando os capitalistas para o abate? Nem os próprios capitalistas sabiam. Em 1987, para confortar a classe capitalista, o Grande Arquiteto [Deng Xiaoping] deu um importante e significativo discurso, no qual declarou: “Agora nós na China estamos discutindo a questão do emprego. Falei com muitos camaradas e não há necessidade de mostrar que estamos ‘movendo’ nesta questão, e podemos esperar e ver por mais alguns anos”. É claro que, para reduzir a resistência, o Arquiteto também consolou o quadro tradicional da velha guarda dizendo: “atualmente a maioria dos empregadores são pequenas empresas e consistem em aldeões contratados por suas próprias empresas de vilas. Comparado com os outros mais de 100 milhões de trabalhadores, isso representa um número minúsculo. Olhar para o quadro geral nos mostra como isso é realmente um pequeno detalhe. Avançar nesta questão é fácil, mas se avançarmos, vai parecer como se toda a nossa política mudasse. Sim, teremos que agir, já que não pretendemos polarizar. Porém, quando e como nos mover, devemos pesquisar.” Entretanto, essa pesquisa acabou levando décadas. 

  1. Quase dez anos depois do começo do desenvolvimento do capital; depois dos capitalistas terem se tornado uma classe em ascensão; depois da reemergência dos trabalhadores migrantes. Um ano em que os trabalhadores só podiam sonhar com um apartamento grátis; quando a maior honra de um estudante universitário era virar um quadro. Em 1988, a constituição foi revista, e a economia privada finalmente ganhou conhecimento legal. 

A junção de duas eras: de uma economia planificada à economia de mercado, de um sistema socialista para um capitalista; de uma casa comandada por trabalhadores virou uma igreja do capitalismo. 

Nesta junção, faltava aos capitalistas o prestígio que tipicamente correspondia a todo o dinheiro que controlavam. Eles não somente foram banidos da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, seus filhos tiveram menos oportunidades de entrar em universidades comparado com os de trabalhadores-camponeses, é claro, uma pequena diferença em comparação com a admissão no serviço público. A tabela abaixo descreve a taxa de ingresso na faculdade dos filhos de pessoas de classes sociais em comparação com a da classe capitalista. Em 1982, a taxa de admissão universitária de um filho de trabalhador era 3,23 vezes maior em comparação com a de um filho de capitalista, enquanto a taxa de admissão de um filho de agricultor era 2,13 vezes maior em comparação com a de um filho de capitalista. Em 1990, os filhos de trabalhadores urbanos tinham uma taxa de admissão 10,78 vezes maior que a de um filho de capitalista e os filhos de agricultores tinham uma taxa de admissão 6,22 vezes maior. 

Ano Classe:  Órgãos, empreendimentos e instituições do Partido e do governo Pessoas especializadas e qualificadas Trabalhadores Camponeses Capitalistas
1982 Outros/Capitalistas 28,4 8,27 3,23 2,13 1
1990 Outros/Capitalistas 105,44 25,33 10,78 6,22 1
2003 Outros/Capitalistas 1,40 0,87 0,40 0,22 1

E depois de 1992, tudo mudou.

1992 – 2008

Este período marca o segundo estágio do desenvolvimento do capital. O viagem para o sul de Deng Xiaoping abriu as cortinas deste estágio; esclareceu a direção do desenvolvimento capitalista; finalizou a discussão sobre se a China tinha um caráter socialista ou capitalista; e eliminou quaisquer obstáculos para que o capital circulasse pela China afora. 

Esta fase foi marcada por vários incidentes marcantes, incluindo o incêndio de Zhili no final de 1993, que tirou tragicamente a vida de 87 trabalhadoras. Este incidente foi um anúncio de que o governo sobre o trabalhador havia ressurgido. Por décadas depois disso, o trabalho existiu sob os pés do capital, onde tinha que viver ou morrer submisso. 

Baixos custos de mão de obra; um setor mercantil desregulado; uma grande população educada; infraestrutura completa; e a cadeia de suprimentos do mundo. Esses fatores permitiram o rápido desenvolvimento do capital da China e a transformação do país em um paraíso de acumulação de capital. 

Antes de 1992, com exceção de um pequeno grupo de mercadores, a maior parte do capital era ecnontrada entre “pessoas capazes” – entidades individuais dentro das aldeias. Depois de 1992, muitos de dentro do sistema lucraram, jogando fora suas tigelas de arroz de ferro e se voltando para a iniciativa privada. Um grande número de empresas estatais (SOEs) foram comprados por quadros gestores, que assim se tornaram os proprietários. Um censo empresarial entre 1997 e 1998 revelou que a maior abundância de recursos sociais levou os quadros que deixaram o sistema a obter lucros líquidos 1,9 vezes maiores em relação à média.

Neste estágio, a atividade ilegal do mercado cinza emergiu. Segundo estimativas de Dai Jianzhong [professor da Academia de Ciências Sociais de Pequim], entre 1992 e 1997, 270 bilhões de RMB foram perdidos com a evasão fiscal de empresas privadas, cerca de 5% de toda a receita nesse período. 

Os patrões ganhavam cada vez mais e desfrutavam de estabilidade no status social. O discurso de 1º de julho de 2001 trouxe à tona que os chefes das empresas “por meio de trabalho, por meio de operações legais, contribuíram para o desenvolvimento das forças produtivas de nossa sociedade socialista. Unidos ao lado de trabalhadores, agricultores, intelectuais, quadros e do Exército Popular de Libertação, eles são os contrutores do socialismo com características chinesas”. Se essas pessoas “reconheceram os princípios orientadores do Partido, lutarem e seguirem a linha do Partido, forem minuciosamente examinadas e se adequarem aos requisitos e condições apropriados”, elas devem ser “absorvidas ao partido”. A partir desse ano, os capitalistas foram admitidos no Partido e a organização dos exploradores foi legalizada. O patrão podia não só entrar no partido, como também entrar em todos os níveis da Assembleia Popular Nacional e participar do governo. Quanto mais capitalista, mais sedento de status político e mais ansioso para entrar no partido – empresários de coração do Partido. O “Relatório sobre uma análise investigativa de empresas privadas de grande escala na Federação de Indústria e Comércio de Toda a China” (2000-2014) relatou os seguintes resultados:

Filiação política Pequenos capitalistas¹ Capitalistas médios² Grandes capitalistas³
Membros do PCCh 28,31 38,62 50,28
Membros de outros partidos 4,95 7,74 8,77
Público geral 66,74 53,64 40,95

Na cidade, benefícios gratuitos de moradia e saúde foram extintos, e mudanças nas SOEs acabaram com o sonho da tigela de arroz de ferro. Em meio à queda dos trabalhadores das SOEs, uma nova geração de trabalhadores migrantes emergiu como o corpo principal da classe trabalhadora. Depois que a China entrou na OMC, o número de trabalhadores migrantes disparou. Entre 2003 e 2008, o aumento anual de trabalhadores migrantes aumentou de 6 a 8 milhões. Essas pessoas não tinham a ideia de benefícios de moradia gratuita e assistência médica gratuita. Crescendo na era da Reforma e Abertura e trabalhando nas fábricas dos capitalistas, eles pensavam que a exploração do eu trabalho era uma realidade criada por Deus, a lei da terra. Em meio a mudanças aterradoramente significantes na massa trabalhadora, as memórias do passado foram apagadas em favor de uma mudança ideológica que enraizou ainda mais a legitimidade fundacional e o prestígio do capital. 

No campo, depois de um pequeno renascimento econômico, problemas emergiram. A ansiedade trazida pelas “Três Questões Rurais” [agricultura, zonas rurais e agricultores] ficou gravada na memória coletiva no final do século. No entanto, depois da entrada da China na OMC, os problemas pendentes aumentaram de intensidade. Os agricultores mais jovens e mais fortes afluíram para as cidades, deixando o campo definhando. Lenta mas seguramente, a questão rural entrou no centro das atenções. 

Nesse tempo, seja em termos de riqueza, status ou prestígio, a distância entre os capitalistas e os trabalhadores migrantes foi ampliada. O capital foi completamente legitimado; ninguém falava sobre quantos empregados constutuiriam exploração. Explorar? Se você não fizer isso, outra pessoa fará. Ser explorado significa conseguir uma oportunidade de emprego, e é melhor você agradecer. Depois de 2005, houve incidentes em que as pessoas tentaram atacar os capitalistas, expondo suas compras obscuras, desumanas da gestão de SOEs – para revelar seu pecado original. No entanto, a opinião pública mal piscou, com alguns até sugerindo o perdão dos capitalistas, pois se investigássemos mais, descobriríamos que a maioria dos capitalistas pecaram. 

Capitalistas estavam progredindo, enquanto trabalhadores migrantes se arrastavam. Entre essas linhas, emergiu um novo grupo. Esse grupo surgiu e floresceu seguindo na esteira da urbanização da China, do capitalismo global, e do nascimento da indústria de tecnologia da informação. Como advogados, contadores, profissionais de finanças, gerentes, pesquisadores científicos, esse grupo foi definido por suas habilidades técnicas e administrativas. Talvez por sua posição no local de trabalho como gerentes – habilidades específicas que os tornam insubstituíveis ou posições em indústrias monopolistas – alguns deles tinham melhores ambientes de trabalho, maior capacidade de organização e, portanto, salários mais altos. Essas pessoas ram a pequena burguesia emergente: professores, gerentes de departamento, alguns trabalhadores do setor financeiro, engenheiros de grandes empresas, trabalhadores da indústria de TI, etc. Outros nesse grupo que trabalhavam em postos de trabalho ou chefia de menor qualificação, ganhavam um salário ligeiramente superior em relação aos seus colegas de trabalho. Esse grupo formou a classe trabalhadora intelectual desprovida de propriedade, incluindo programadores, empregados de finanças de baixo nível, funcionários de departamentos, professores do ensino fundamental e médio, técnicos de empresas, etc.

Sob a era do rápido desenvolvimento do capital, as vozes da pequena burguesia emergente gritavam em alto e bom tom. Eles criticaram o período da economia planejada, seguindo o mainstream, elogiando uma emergência gradual. Cada avanço do capital os deixava mais do que excitados, com seus gordos patrões pingando óleo para alimentar suas escassas ambições. 

Trabalhadores intelectuais se agarraram a seus sonhos pequeno-burgueses. Eles compartilhavam os escritórios, comiam na mesma mesa, tinham origens semelhantes e falavam a mesma língua. Consequentemente, mantinham uma ideologia semelhante à pequena-burguesia. Os trabalhadores intelectuais defendiam a competição e acreditavam que eles também poderiam mudar seus destinos através de seu próprio sangue, suor e lágrimas. Eles bebiam o kool-aid do patrão enquanto assistiam a videos de “sucessologia”, ouviam palestras do Jack Ma e sonhavam acordados com um futuro melhor.

Alinhados em interesses e em espírito com os capitalistas, a pequena burguesia emergente e os trabalhadores intelectuais seduzidos pela vida de classe média foram os primeiros usuários do Zhihu e outras novas mídias. É claro que, nessas plataformas, sse grupo de pessoas falava pelos interesses do capital enquanto respondia e discutia e todo dipo de perguntas. 

2008 – Presente

Esse é o terceiro estágio do desenvolvimento do capital, o estágio no qual o capital cai de seu próprio sucesso. 

Durante o período inicial desse estágio, o capital cresceu mais forte. O capital chinês dependia da defesa do sistema nacional e do keynesianismo para ultrapassar o resto do mundo e se tornar a segunda maior economia do mundo. Sustentando esse sistema, o capital monopolista chinês ultrapassou Inglaterra, Alemanha, Japão e França para se tornar o número dois. Em 2007, 30 das 500 empresas globais eram chinesas, um número que aumentou para 106 em 2015. 

País 95 97 99 00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15
EUA 151 162 184 179 185 197 192 189 175 170 162 153 140 140 133 132 132 128 128
CN 3 6 9 13 12 13 12 16 18 23 30 35 43 54 69 79 95 100 106
-TW 0 1 0 1 0 2 1 1 2 3 6 6 6 8 8 6 6 5 7
-HK 1 1 1 2 4 3 4 4 4 4 4 5
JP 149 126 100 107 104 88 88 82 81 70 67 64 68 71 68 68 62 57 54
FR 44 42 40 37 37 37 40 37 39 38 38 39 40 39 35 32 31 31 31
UK 29 34 38 39 34 33 34 35 35 38 33 34 26 30 31 27 27 28 29
DE 44 41 42 37 34 35 35 34 37 35 37 37 39 37 34 32 29 28 28

Nesse estágio, enquanto classe, os camponeses diminuíram rapidamente. O movimento de trabalhadores jovens e aptos para as cidades deixou para trás o que ficou conhecido como “Unidade 993861” – 99 em referência aos idosos (Double Ninth Festival), 38 referente às mulheres (Dia Internacional da Mulher) e 61 referente às crianças (Dia das Crianças). Atualmente, no campo, devido a uma infinidade de razões, muitos voltaram para a agricultura em tempo parcial ou intergal depois de anos afastados, incapazes de continuar trabalhando nas cidades. De acordo com uma série de relatórios em Mudanças na Estratificação Social e Divisão de Classes na China Contemporânea, 67,91% dos agricultores em tempo integral “foram empregados ou assalariados, ou seja, já foram trabalhadores [urbanos] que depois voltaram para a fazenda no campo. A maioria voltou depois de atingir uma certa idade.” O pequeno agricultor, como grupo, inevitavelmente morrerá na economia de mercado. 

Nesta fase, há duas contradições importantes que estão se desenvolvendo rapidamente e que estão deixando uma marca profunda na China. 

Primeiro, o rápido desenvolvimento do capital chinês deixou o mercado doméstico cada vez mais estreito à medida que o capital excedente fluía para fora. Depois de 2012, houve um caso em que essa saída aumentou, onde a partir de 2014, a China se tornou um exportador líquido de capital. Existem limites para o mercado mundial, e as exportações precisam competir com contrapartes do Reino Unido, França, EUA, Alemanha, Itália, Japão, e outros velhos países imperialistas. Isso levou parte do capital monopolista de alguns desses países a perder lucros, o que não é algo que a classe de capital monopolista dos EUA deseja ver. Na realidade, desde a ida de Obama para a Ásia em 2012, os EUA solidificaram a sua estratégia de contenção da China, publicizada posteriormente sob Trump.

Segundo, as rebeliões da classe trabalhadora são cada vez mais comuns. Graças à sua resistência continuada, seus salários reais experienciaram uma fase de crescimento rápido entre 2003 e 2015. Crescimento salarial aingiu um pico em 2010; capitalistas se refeririam a isso como “aumento dos custos trabalhistas” e a consequente diminuição dos lucros no setor de manufatura de baixo custo.

As contradições básicas do capitalismo aceleraram ainda mais rapidamente sobre as duas contradições acima. O excesso de capacidade de manufatura levou a um declínio na taxa de crescimento do PIB a partir de 2013, e a economia entrou em um novo período, o “novo normal”. Para proteger a economia, a China iniciou duas políticas de estímulo de larga escala em 2009 e em 2014. Depois de estímulos econômicos continuados, os preços de moradia dispararam. 

Os pequeno-burgueses proprietários de uma casa própria ainda estão vivendo a sua era dourada, enquanto que pequeno-burgueses sem casa própria, ao lado da grande classe de trabalhadores intelectuais, suspiram ao considerar a perspectiva. Após uma queda nos lucros, a pressão exercida pelo capital sobre os despossuídos cresceu. Após um aumento nos custos de habitação, a esperança que depositaram no capital tornou-se incerta. 

Desde 2018, a contradição entre os interesses estrangeiros e domésticos aumentaram. Pessoas que normalmente não prestam atenção nos assuntos políticos começaram a discutir questões sociais. Seja devido a “preços de noiva”, salários, preços de moradia, ou por terem se tornado supérfulos, as pessoas sentiram a pressão de viver em uma sociedade sobrecarregada pelo capital. 

Essas pessoas continuam a acessar o Zhihu e outras novas plataformas de mídia. Antes, eles atuavam como porta-vozes do capital. Agora, o criticam espontaneamente. 

Esse grupo de pessoas, diferente de qualquer outro grupo no mundo, possui uma característica única: eles cresceram aprendendo sobre o materialismo histórico. Não importa se eles abandonaram ou não conceitos como “classe”, “exploração” ou “mais-valia” na sala de aula, tal consciência foi amplamente incutida nessas pessoas. Quando o capital cresce, essas pessoas desconsideram esses conceitos. Mas quando o capital os decepciona e os esmaga impiedosamente, os conceitos marxistas voltam correndo à sua mente. Eles começam chamando empreendedores de “capitalistas”, descrevem suas ações como “exploração” e usam “classe” para olhá-los de cima para baixo. 

Alguns deles deram uma guinada à esquerda e postam on-line o conhecimento que aprenderam em seus livros didáticos: exploração, classe, capitalista, mais-valia. Alguns deles vão além, estudando livros para além do que era exigido antes: Obras Selecionadas de Mao Zedong, Marx & Engels Collected Works, livros do Lenin e histórias ignoradas ou acobertadas. 

Eles se envolvem em acalorados debates on-line, lutando contra xiaofenhong [uma espécie de chauvinismo chinês entre jovens na internet] de vários graus de pureza, capitalistas e um grande setor do lumpenproletariado. É claro, alguns disfarçarão seu chauvinismo em linguagem marxista. 

O início repentino da pandemia em 2020 ampliou tudo. A opressão parecia mais pesada, os preços de moradia permaneceram altos e o trabalho parecia menos estável. Uma vida bonita parecia cada vez menos certa. 

A arrogância e a crueldade dos capitalistas, construídas ao longo de décadas de rápido desenvolvimento, subiram longe demais às suas cabeças. “996” é uma benção, negócios são pró-bono e os empresários até se deram férias. Eles inclusive propuseram que as empresas não deveriam respeitar as leis trabalhistas por dois anos após a sua fundação. 

Tudo isso levou a uma mudança brusca na forma como usuários do Zhihu viam os capitalistas em 2020. 

Porém, este grupo representa uma proporção bastante pequena dos trabalhadores, um grupo dominado por trabalhadores braçais que ainda não experimentaram um despertar tão forte. Seus salários já eram baixos e eles não estavam trabalhando para comprar casas nas grandes cidades. Eles viviam nos níveis mais baixos da sociedade e tinham acesso ainda mais limitado à informação e eram um pouco piores no pensamento abstrato. Como grupo, permanecem inalterados. 

Isto não quer dizer que o proletariado trabalhador braçal não esteja mudando. Os salários não acompanham o custo de vida. “Em 2017, um quarto custava 300 yuans, agora são 550”, “vou para o meu segundo emprego depois de sair do trabalho, onde eu tenho tempo para descansar?” Suas queixas aumentaram em número. Não apenas isso, mas com a crise econômica, muitos trabalhadores voltaram para suas casas ancestrais, perdendo seus rendimentos – uma crise econômica só esperando para acontecer. 

2020 foi um ano especial. Um ano em que o trabalhador intelectual virou à esquerda – para ser crítico do capitalismo – e onde o trabalhador braçal sentiu uma crise clara. A tempestade está muito longe, mas a virada à esquerda dos trabalhadores intelectuais enviou um claro sinal. Nuvens estão se juntando e o som do trovão está se aproximando. Aqueles relâmpagos bastante nítidos na noite escura, sinais de dialética histórica se aproximando. E a minoria da juventude já abriu os braços para acolher. 

Notas:

¹ De acordo com os padrões relacionados ao Escritório Nacional de Estatísticas, o pequeno capital foi definido como empresas cujo faturamento tenha sido inferior a 30 milhões de RMB nos setores industriais e inferior a 10 milhões de RMB em outros setores.

² Definido como aqueles que não se enquadram como pequeno nem como grande capitalista.

³ Designado como donos de empresas maiores que determinado tamanho.

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