Round 6 – A distopia do capital e a saúde mental impossível

Por Karina Oliveira Martins*

A série mostra estes laços de solidariedade, mas também mostra os limites colocados pelo capital na manutenção cotidiana de tais laços, como mantê-los firmes e fortes em uma realidade em que é eu ou o outro? Ao mesmo tempo que se impõe uma interdependência dos outros para sobrevivermos, que é demandado o grupo para sobreviver e quanto mais precarizada é a vida, mais se faz necessário esta solidariedade, é nas condições de escassez que ela se mostra mais frágil, pois a questão é rebaixada a nível de sobrevivência e não há o básico para todos. Se não há comida para todos, a tendência é eu ou ele. E vai se minando as relações de solidariedade.

Introdução

Round 6 fez um sucesso estrondoso ao redor do mundo e é muito bom ver uma série com essa profundidade crítica ser tão reconhecida. O diretor gostaria de “escrever uma história que fosse uma alegoria ou uma fábula sobre a sociedade capitalista moderna, algo que retratasse uma competição extrema, como uma competição pela vida.”[1]. Seu objetivo foi alcançado com primazia.

Desenvolvo aqui diversas críticas ao capitalismo, que no meu entendimento se fazem presente na série. Apesar de tocar em várias questões, o o objetivo do texto é apresentar a pobreza objetiva e subjetiva característica do capitalismo, o que determina nosso modo de viver, ser, sentir, sofrer. Discorro sobre as contradições do amor, do sofrimento e de nossa individualidade no capitalismo e de como no neoliberalismo, há uma gestão desse sofrimento. Falo um pouco da igualdade, fraternidade e liberdade do capitalismo. Por fim, critico as concepções hegemônicas de saúde mental e defendo que somente partindo das condições concretas de existência, da vida no capitalismo, que podemos entender e atuar na saúde mental, visto que essa não é um atributo do indivíduo, mas sim das relações sociais existentes.

É um texto com spoilers do começo ao fim. Sou péssima com nomes, em especial nomes tão distintos da nossa cultura, e acredito que é uma dificuldade compartilhada com outras pessoas, motivo pelo qual ao nomear as personagens colocarei alguma descrição para situar de quem se trata e sempre que possível privilegiarei a descrição ao nome. Apesar de estar entre aspas, as falas citadas dos personagens são apenas aproximações, não é reprodução fidedigna.

O dinheiro dignifica o homem

De início percebe-se que todas as relações, dentro e fora do jogo, são mediadas pela mercadoria equivalente universal, o dinheiro. Do filho que rouba a mãe, da relação com agiotas, das possibilidades de comemoração de aniversário com a filha, do irmão que deve ficar no orfanato pela falta de dinheiro para sustentá-lo, na busca por dinheiro pra trazer a mãe ao país, do filho que não vê a mãe há anos porque deve milhões e mentiu sobre sua situação financeira, da mudança de país da família em busca de condições melhores. Todas as relações humanas ali são mediadas pelo dinheiro, ele media e é determinante em todas as dimensões de suas vidas, tanto que são convidados ao jogo, se dispõe a ir e a voltar justamente pelo dinheiro. Essa é uma questão essencial do capitalismo: a sobretederminação da mercantilização na reprodução da vida.

Temos então a questão central que une todos ali, a privação de dinheiro. O que condiciona uma vida precária – quando não miserável – marcada por conflitos, inseguranças, incertezas, ausência de direitos sociais, humilhação e que os colocam em situações e relações violentas e perigosas. Jogados a própria sorte, na vida e no jogo. Das histórias mostradas, a exceção daquele que rouba dinheiro de seus clientes, são da parte mais pauperizada da classe trabalhadora, são os ninguéns, “pessoas de pouca ou nenhuma importância”¹. Tanto que o jogo acontece impunemente desde 1999. Quem se importa com os ninguéns e suas famílias? Quem os vê? Quem sente a falta deles? Quem se importa com a vida deles? Quem se mobiliza por eles?

Se há ninguéns é porque há alguéns, só há ninguéns porque há alguéns, e em relação vão se construindo e o jogo se dá. Os alguéns prometendo uma possibilidade aos ninguéns de ser alguém. É diante dessa possibilidade que 100 pessoas votam pra ficar. Como diz um deles “aqui pelo menos temos uma chance”, “lá fora não é melhor que aqui dentro”. Lá dentro é uma expressão agudizada do que é lá fora. São as relações capitalistas neoliberais explicitadas e levadas ao limite. Só que lá dentro há a possibilidade de findar essa vida miserável, seja pela morte – e provavelmente por ela – ou pelo dinheiro, e enfim, tornar-se alguém. Enquanto lá fora há a certeza da violência e miséria e da continuação da ninguéndade. É o que enfrentam ao sair do jogo, já não há muito a perder, aliás, o pouco que têm – que é a própria vida e as pessoas que amam – está permanentemente em risco.

Claro que em níveis distintos é essa mesma dinâmica dos Reality Shows, em especial os BBB’s e afins, onde é reproduzido o capitalismo agudizado com aparência de relações naturais, espontâneas e neutras. Há um isolamento com uma profunda intensificação da competição, com dinâmicas feitas para promover rivalidades – como monstro e voto aberto – com provas que levam ao limite físico e psicológico, desigualdades – como a xepa – que promovem ressentimento, rivalidade, disputa, inveja e raiva. Seleção de elenco feito pra garantir a treta[2]. Privação de livros, contato com pessoas amadas e qualquer possível forma de distração, restando somente o convívio exaustivo, caminho fértil para fofocas e desgastes. Um cotidiano que possibilita e demanda a criação de laços e aliados, mas que também demanda traição, mentira, falsidade e rivalidade pra permanecer no jogo em que só um sairá vitorioso. Privações, cotidianos e provas enlouquecedoras, mas tudo numa aparência civilizada, foram porque quiseram e tem até psicóloga. Não é violência porquê não há sangue, ganham dinheiro e fama. Há um caráter ideológico nesses programas ao naturalizarem as relações capitalistas, como se fossem somente uma natureza humana se manifestando, “tá vendo, as pessoas são assim, todas falsas, egoístas”, e não os efeitos da própria dinâmica do jogo. Tal como se expressa na fala cínica de Oh Il-Nam (o idoso e n.001) ao fazer a aposta na última cena em que defende que a natureza humana é egoísta. Ali está expresso o espírito liberal, seu suposto básico de uma natureza humana egoísta, que funda e se realiza no capitalismo, a criação supostamente mais humana e acabada. Não se trataria na visão destes das próprias regras e dinâmica do jogo (e do capitalismo) produzindo determinadas sociabilidades, comportamentos e subjetividades, mas do jogo expressando a natureza humana. É a metafísica liberal com seus delírios.

Voltando diretamente a Round 6. Apesar dos milhões fazerem os olhos brilharem, as motivações individuais para jogar são simples: sobrevivência e amor pela família. Um sonho de dignidade, de pagar as dívidas e poder sobreviver, de manter a própria liberdade e a casa da mãe, de pagar o tratamento médico da mãe, de estar junto com o filho e a esposa, de estar junto com a mãe e o irmão. Muitos estão ali para garantir um futuro a seus amados, futuro no nível mais imediato, estar vivo amanhã. No capitalismo de acumulação flexível, o neoliberal, é o máximo de laço social almejado e reconhecido. Era em suas famílias que eram vistos, minimamente amados e importantes. Era na família que havia algum reconhecimento de nós, de alguma comunidade. Quem sentiria falta se sumissem? Por quem morreriam? Por quem matariam além de si? A sagrada família. No entanto, a família também é fonte de conflitos, sofrimento e violências. Seja de forma mais extrema como no caso de feminicídio narrado por Kang Sae-byeok, como em formas menos brutais, como Gi-Hun, que rouba a mãe, que tirou seu plano de saúde para fazer aposta, Cho Sang-woo, que penhora a casa da mãe a sua revelia, o policial que acaba na ilha em busca do irmão e leva um tiro do próprio irmão, etc.

Há uma trágica ironia na série em que na busca de dar garantias de sobrevivência para a família, eles ficaram sem nada e perderam a própria vida, suas famílias ficaram ainda mais sozinhas e frágeis.  Fizeram de tudo pela família, mas perderam-na Mesmo o vencedor perdeu a mãe, que morreu sozinha e seu corpo ficou lá por dias, e que ao que o final indica preferiu um acerto de conta com os criadores do jogo do que a visita à filha. Como deixar pra trás e só seguir sabendo do que acontece? Sabendo que ficam impunes e o jogo continua. Este amor e busca pela satisfação da própria família os colocam em confronto com as próprias famílias, com outros indivíduos e suas famílias. Uma luta cotidiana generalizada.

Na primeira prova, junto com o pânico ao perceberem o que estava acontecendo, percebemos dois movimentos: uma necessária frieza e indiferença pra garantir a própria sobrevivência e relações de cuidado e solidariedade. E é entre essa grande contradição que nos encontramos diariamente, da interdependência com outros, da necessária solidariedade, do reconhecer-se no outro, mas ao mesmo tempo, na disputa com esses e a necessária indiferença pra continuar seguindo com a normalidade enquanto tantos caem ao lado. De forma que a luta cotidiana não se dá somente intrafamília e interfamília, mas entre indivíduos.

Essa necessária frieza e indiferença é o que se vê durante todo o jogo. Só consegue sobreviver quem não se abala com os assassinatos e nem mesmo com a própria possibilidade de morrer. Deve-se ignorar os tiros e cumprir a meta, só ela importa. Não há tempo a perder, não pode parar. Sofrer, pensar na própria existência, se compadecer com o outro é perda de tempo e coloca a própria vida em risco. É tudo em nível mais primário e animalesco, trata-se de sobreviver. Nessas condições artificiais de luta pela sobrevivência quem é o mais apto? O mais indiferente, o mais individualista e o mais egoísta. Seria esse o modelo de saúde proposto pelo capitalismo? Apesar de não ganharem o jogo, vemos dois modelos desses mais aptos, os que comumente ganham vantagem, quando não ganham chegam longe, conseguem se impor e são recompensados por isso. A aptidão da força inescrupulosa de Jang Deok-Su, que mata com os próprios punhos, que ganha no grito, impõe medo e alcança um papel de liderança a partir disso e o da inteligência fria, Cho Sang-Woo, que já é uma quebra com os demais mostrado, que havia ascendido socialmente, tornando-se um empresário, mas que rouba seus clientes e se envolve em esquema de corrupção, no jogo ele continua mentindo e enganando, mas de forma mais discreta e cautelosa, mostra bastante frieza e um comportamento utilitário, é capaz de gestos solidários, mas também de sujar as mãos se necessário.

Quando a vida é assegurada dia a dia – não necessariamente por miséria, mas também por instabilidade no trabalho – em que se dá na incerteza permanente, sofrer é inadmissível. Para vivenciar e se confrontar com o próprio sofrimento é necessário reconhecer-se como alguém, um alguém que existe e cujas necessidades, pensamentos e sentimentos são válidos e importantes, mas no processo de ninguendade, há também um reconhecimento de si como um ninguém. E nessa dialética objetividade-subjetividade, está colocada também uma demanda objetiva de distanciamento da própria dor, para assegurar essa sobrevivência diária não cabe sofrimento. Sofrer demanda tempo de olhar pra própria ferida, encará-la, chorar e chorar, demanda pausas. Vivenciar e elaborar a dor é anti-produtivo – do ponto de vista do capital. Há uma certa paralisia, lentidão e improdutividade no meio desse processo. Mas não há tempo para isso, pois há um outro que controla o tempo. Parar implica colocar-se em risco. No jogo é a morte imediata, fora dele e á mediada, e se você não conseguir trabalhar amanhã? E sua produtividade abaixar? Como vai ser sua vida e da sua família se você perder esse emprego? Quem vai ser você fora desse emprego? Como se dar conta de tudo que viu e viveu e de cada sentimento que tá ali pulsando se isso pode ameaçar a continuidade da própria vida? Nessas condições quem pode sofrer? Quando se pode sofrer? Quem tem tempo de sofrer? Ainda que a dor seja constante, a sobrevivência se impõe. Nesse contexto, o sofrimento é encarado como um erro, pois concretamente dificulta ou mesmo inviabiliza a própria reprodução da vida. Não há tempo de olhar os corpos no chão e pensar que logo mais pode ser o seu. O show tem que continuar. Temos que ser forte.

A indiferença torna-se não só necessária, como uma vantagem, quanto mais alienado e estranhado do outro, mais funcional eu sou, mais apto a continuar e passar de fase e quiça ganhar o jogo. Eu não posso me compadecer com o outro, eu não posso padecer junto e pra isso eu preciso não reconhecê-lo como um igual, devo assumir que sua vida têm um valor menor que a minha. Não é meu corpo caído, não é meu sangue, não sou eu, não é problema meu. São ninguéns. É elevar o individualismo a nível radical, no melhor estilo cretino Tatcher, “Não existe essa coisa de sociedade. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem as famílias.”. É a família o máximo de comunidade possível, onde é possível algum tipo de afeto, reconhecimento e compadecimento, é em nome dessa comunidade familiar, que nos dispomos a massacrar e a não se importar com os demais.

Não há alienação do outro que não seja também alienação de si. Pra sobreviver no jogo capitalista é demandado uma cisão entre o pensar, agir e sentir, os sentimentos, afetos e emoções devem ser apartados, negados e reprimidos. Privado do outro e de si próprio, dos sentimentos e experiências propriamente humanas há uma coisificação do ser humano. O ser que não sente, que não para e só continua e continua, sempre produtivo, mas o ser plenamente produtivo é a máquina. Impõe-se uma vida alienada e estranhada.

O que foi – e ainda é – a pandemia no Brasil com seus 600.000 de mortos se não isso e que só prosseguia porque a maioria da massa vítima do genocídio bolsonarista eram velhos, pobres, pretos, diversos ninguéns[3]. Quais as dicas de saúde mental que apareciam nos noticiários? Se afastar dos próprios noticiários e o que é isso se não se afastar da própria realidade, fechar os olhos diante do genocídio. É uma dica útil, de fato ameniza a ansiedade e o mal-estar, só que ela naturaliza as coisas ao não questionar o essencial, que realidade é essa em que para ficarmos sãos é necessário nos afastarmos dela?

Ainda no nível brutal de animalização e coisificação, de redução da vida a luta pela sobrevivência, há a afirmação de uma humanidade e de reconhecimento de classe – mesmo entre uma fração da classe atomizada, acostumada a dar golpes e agir individualmente pra sobreviver – do reconhecimento que há uma situação comum de miséria compartilhada e que só será vencida em conjunto. Não se trata de um humanismo em abstrato, mas de uma condição comum que permite um reconhecimento e identificação, do compartilhamento de interesses comuns e de uma necessidade colocada pela própria realidade, como na frase do vencedor para a batedora de carteiras, “confio nas pessoas não porque são confiáveis, mas porque é preciso, é nossa única chance”. É relevante que o personagem que mais constrói, que mais defende essa solidariedade seja o ex-trabalhador fabril, quem trabalhava junto e precisou lutar junto com a própria classe contra o patrão e o Estado para assegurar sua sobrevivência e lutar por seus direitos. A luta carrega em si essa pedagogia da solidariedade.

Vemos vários momentos de solidariedade, como na primeira prova em que Cho Sang-woo(o amigo de infância) e Abdul Ali (imigrante paquistanês) ajudam o vencedor. Já era cada um por si, havia até vantagem pra quem se escondia atrás de outro, mas o nível da competividade ainda não era intenso. Quando saem do jogo Cho Sang-woo, mesmo mal de grana, se tocou pela condição de Abdul Ali e o ajudou e até se incomodou com sua postura subserviente, gostaria de um tratamento comum. Esses momentos foram de reconhecimento do outro como um igual, alguém que compartilha uma condição comum que te toca e você pode cooperar. Já no retorno ao jogo as coisas mudam um pouco, mas nem por isso esses laços de solidariedade deixam de existir. Se agrupar já é uma questão diretamente funcional, percebem que para sobreviver no jogo precisam pertencer a um grupo, as relações já vão se transformando não na solidariedade e cooperação, a pertença a um grupo vai se subordinado aos próprios interesses pessoais, tornando-se meramente utilitário. Como vemos na ajuda de Han Mi-Nyeo a Jang Deok-Su ao jogar o fósforo na prova, que se dá por interesses de adesão ao grupo fisicamente mais forte, na aceitação do médico naquele grupo em benefício de Jang Deok-Su. O grupo é frágil, não se mostra coeso e nem há uma unidade, é um aglutinado de pessoas, é uma relação de negócio e como tal, há uma desconfiança generalizada mesmo com os próprios “camaradas” de grupo.

Mas vemos no vencedor uma conduta diferente. Mesmo defendendo a necessidade da confiança para sobrevivência, seus critérios não são utilitários, são de identificação e afetuosidade com os subalternos, com aqueles que apresentam fragilidade dentro do jogo. Como vemos nos momentos de escolha e solidariedade com Oh Il-Nam (o idoso) e quando o vencedor oferece ajuda pra Kang Sae-Byeok (a batedora de carteira) se proteger de Jang Deok-Su.

A série mostra estes laços de solidariedade, mas também mostra os limites colocados pelo capital na manutenção cotidiana de tais laços, como mantê-los firmes e fortes em uma realidade em que é eu ou o outro? Ao mesmo tempo que se impõe uma interdependência dos outros para sobrevivermos, que é demandado o grupo para sobreviver e quanto mais precarizada é a vida, mais se faz necessário esta solidariedade, é nas condições de escassez que ela se mostra mais frágil, pois a questão é rebaixada a nível de sobrevivência e não há o básico para todos. Se não há comida para todos, a tendência é eu ou ele. E vai se minando as relações de solidariedade.

Há momentos em que a solidariedade chega a colocar a vida das pessoas em risco. Como no momento de escolha da dupla e o principal escolhe o idoso para ser seu parceiro. Ao escolher ser solidário e escolher a amizade – que é uma forma de amor – em detrimento das próprias chances de vencer o jogo, ele arriscou sua vida. Tal como o paquistanês que ao buscar uma vitória conjunta com o empresário, isto é, ao ser solidário e buscar chances de mantê-lo vivo, acaba por ser enganado e morre. Ao mesmo tempo que a solidariedade se faz necessária, ela é comumente punida. Sustentá-la comumente é arriscar-se, é potencialmente prejudicar-se. Solidarizar com o assédio moral de uma colega de trabalho pode te levar a demissão e você sabe que a qualquer momento pode ser a vítima daquele assédio e mesmo não atingindo-o diretamente percebê-lo te afeta. A intromissão na violência sofrida pela vizinha pelo marido que pode te colocar também como vítima e por aí vai. Nessas condições há uma generalização da desconfiança e/ou decepção, não é porque você se arriscou que vão se arriscar por você, o objeto de sua confiança pode até se voltar contra você, não há certezas. A cada solidariedade um risco a si próprio e mesmo assim há aqueles que teimam em arriscar e se solidarizar. Mas individualmente e cotidianamente até quando? Quando não há um ou ele, como no caso da vida fora do jogo em que o amigo de infância ajuda o paquistânes, é mais fácil, mas e quando há esse risco? A dinâmica capitalista exige um ou outro o tempo todo, é uma escolha a ser feita com constância. Você vai continuar se arriscando? Ele faria o mesmo? Ele pode fazer o mesmo?

Essa é uma contradição própria ao capitalismo, a demanda de um trabalho em conjunto, mas ao mesmo tempo, a inviabilidade do conjunto, já que é cada um por si. Se vê isso na prova em equipe no cabo de guerra, em que se fazia necessário a atuação conjunta, na vigilância noturna, em que estar em grupo aumentava suas chances de sobrevivência, o que ia criando uma identidade de grupo e laços afetivos e ao mesmo tempo, um jogo em que só um sairia vencedor, em que se demandava o todos contra todos, em que a afetuosidade e confiança era contraproducente, a ponto de colocar provas não só individuais, mas com os próprios participantes matando direta ou indiretamente o outro. O nós possível nessas condições é sempre em contraposição – não só diferença – a um outro que ameaça esse nós e há também nesse próprio nós uma ameaça a esse indivíduo.

O que nos leva a questão da ética do/no capitalismo, aquilo que orienta a ação humana, que no caso, no capitalismo é orientada para o lucro, não só monetário, mas para o ganhar algo a mais na totalidade da existência. Não se trata de algo natural, é a regra do jogo capitalista, é uma condição de sobrevivência no capital e que como tal orienta as nossas ações, a tentativa de uma construção de uma ética outra, anticapitalista, esbarra a todo momento nestas condições do próprio capital. A ética possível é a do ter, esse é o valor do capital. Qual a ética possível? Não rir enquanto choram? Se recusar a matar? Morrer junto? Não olhar ao redor? Não é que nos tornamos autômatos e não há escolhas. Empurrar ou não alguém é uma escolha, esfaquear ou não é uma escolha, a subjetividade existe, a individualidade também. Tanto que o vencedor tenta a todo momento orientar-se por outra ética, mesmo no final, com o dinheiro logo ali, se recusa a vencer naquelas condições, arriscando a vida da mãe ao não ter dinheiro para o seu tratamento. Há escolhas, só que as consequências são desproporcionais e injustas, é só que pode haver muito a perder. É só que a ética do e no capitalismo é a do lucro.

A não solidariedade, o egoísmo, é a todo momento compensada. O dedo duro, o fura greve, aquele que só vive a sua vida e não olha ao redor, aquele que se dispõe a caminhar em cima dos outros. Tanto que um dos que mais incorpora o espírito do jogo é o que atuava no mercado financeiro, já envolvido em esquemas de corrupção e roubo milionário. É ele que desde a primeira prova assimilou a dinâmica do jogo e manteve a frieza, o individualismo e a trapaça que o jogo requer. Omitiu informações, matou pessoas, trapaceou, mas mesmo ele foi capaz de ações solidárias, de fato se manteve acordado na vigia, ajudou o paquistanês, ajudou o amigo na primeira prova e foi capaz de se matar no final pra garantir a vitória ao amigo. É ele que já jogava com destreza o jogo capitalista antes de estar ali, que já tinha bem assimilado a ética do capital.

Quem encarna passivamente as regras do capital, que não se afeta com os corpos ao lado, que tende a se dar bem, a ganhar muito dinheiro, a ser respeitado e até mesmo admirado. É um vencedor, torna-se um alguém. Os milhões e bilhões escamoteiam o rastro sangue e sujeira. Escamoteiam heranças de saques da colônia, escravidão, genocídio indígena e negro, tráfico. O dinheiro dignifica o homem.

“O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, i.é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou eu o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro for, tão grande é a minha força. As propriedades do dinheiro são minhas – possuidor dele – propriedades e forças essenciais. Portanto, o que eu sou e sou capaz não é de modo nenhum determinado pela minha individualidade. Eu sou feio, mas posso comprar para mim a mulher mais bonita. Portanto, eu não sou feio, pois o efeito da fealdade, a sua força intimidante, é anulada pelo dinheiro. Eu sou – segundo a minha individualidade – manco, mas o dinheiro proporciona-me 24 pés; não sou, portanto, manco; eu sou uma pessoa má, desonesta, sem escrúpulos, desprovida de espírito, mas o dinheiro é honrado, portanto também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, portanto o seu possuidor é bom, o dinheiro dispensa-me além disso o trabalho de ser desonesto, sou portanto presumido honesto; eu sou desprovido de espírito, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas: como havia o possuidor dele ser desprovido de espírito? […] Eu que pelo dinheiro consigo tudo aquilo por que um coração humano anseia, não possuo eu todos os poderes humanos Todo o meu dinheiro não transforma, portanto, as minhas impotências no seu contrário? (Marx, p.416 e 417)[4]

 

Alguém vai se importar de onde veio todo aquele dinheiro ao ver tantos milhões? Alguém vai pensar em sangue, trapaça, mentira, roubo, quando ver o carro luxuoso, o sorriso confiante e a pose de vencedor? Onde vemos sangue? Naqueles que tiverem e seguem tendo o sangue derramado e o corpo desnutrido, pessoas pobres e pretas, que tomam o imaginário social como bandidos. Enquanto a riqueza, produtora da pobreza e como tal da criminalidade, permanece ilesa e sinônimo de sucesso. O sangue só é visto nas vítimas, que são vistas como algozes, e nos lacaios do jogo, naquele que joga o jogo a todo custo, não naqueles que criam suas regras.

Frágeis individualidades, débeis amores

É esse jogo sujo que ao aglutinar pessoas em situações extremas cria condições de desenvolvimentos de laços de afetuosidade profundos e também a todo momento, as inviabiliza. Gostar, se importar e amar – seja pelo amor romântico, seja pela amizade – em um ambiente de competição torna-o frágil, é visivelmente seu ponto fraco. Quanto mais individualista, mais indiferente aos outros mais aumenta as chances de sobrevivência. Nesse ambiente, em que a traição acontece a todo momento e que a confiança e solidariedade é punida cria-se um ressentimento generalizado, como se vê na penúltima prova, em que a vida já vale muito pouco e há um pragmatismo e ressentimento nas decisões, como o vidraceiro que poderia ter ajudado todo mundo, mas diz “ porque eu deveria ajudar, sendo que sempre que puderam eles tentaram me matar?”. Ele não tá mentindo. Sustentar uma outra ética, torna-o fraco, suscetível a enganos, a rasteiras e a decepções. A se ver como trouxa e ingênuo. Como se o problema não fosse o sacanear do outro, mas o confiar. Como se as únicas opções possíveis fossem ser trouxa ou ser sacana.

Nesse contexto que amar se torna tão, tão difícil. Amar é encarar e expor as próprias vulnerabilidades, é um ato de confiança, entrega e fragilidade, mas como se permitir tudo isso em um mundo marcado pela dominação e competição? Há um risco alto, é perigoso. Se o outro ver a sua ferida em algum momento ele pode dar uma facada. Uma traição, uma decepção ou mesmo a decisão de um final pode desabar alguém, visto que aquela era uma das única, provavelmente a única, em que ela pôde se mostrar verdadeiramente e se entregar. Era uma das poucas pessoas que ela reconhecia como um nós, e se sentia protegida, segura. E mesmo essa pessoa foi capaz de enganar ou só ir embora, deixando uma dor profunda, sentimento de abandono, fragilidade e solidão.

É essa a grande contradição afetiva, base do sofrimento no capitalismo, uma individualidade só se constitui a partir da relação com o outro, o sentido de nossas vidas se constŕoi a partir de nossas relações. Eu sou eu a partir do outro, a minha individualidade é sempre mais rica quanto mais rica é a sociabilidade. A oposição entre indivíduo e sociedade só se dá nos marcos das sociedades de classe. O sentido e o desejo de estar vivo se dá na construção das riquezas das relações humanas. Ao mesmo tempo, é este outro que aparece como meu inimigo ou potencial inimigo, que eu preciso não reconhecer e rebaixar pra conseguir seguir em frente, é este outro que me explora, me oprime, me violenta, este outro que eu preciso vencer. Eu preciso negar o outro pra viver, mas como sou o que sou na relação com o outro, ao negá-lo eu nego a mim mesmo.

Nesse individualismo capitalista, a individualidade é fragilizada e empobrecida. Vemos um trágico exemplo disso em Han Mi-Nyeo, desde o início alguém desesperada por algum vínculo, por algum pertencimento. Mesmo desprezada pelo grupo e pelo seu líder ajuda-o e só por isso consegue ser aceita no grupo, ainda que nunca em condições iguais. Nesse desespero não consegue criar laços com ninguém, já que ao mesmo tempo que pede desesperadamente esse outro, não permite que esse outro apareça. Descartada por seu amante sua vida perdeu o sentido. Aquele laço social era o que a estava sustentando no jogo, foi algo que ela fantasiou que havia conseguido, ainda que tudo indicasse o contrário. Sua idealização se sobrepôs a realidade e criou uma relação que visivelmente não existia, ficou refém de sua fantasia. Seu sentido passou a ser a vingança, a dor transmutada em ódio. Privados de laços sociais, nos tornamos desesperados por laços, ao mesmo tempo, é muito difícil cria-los, pois demanda lidar com alguém diferente, que tensiona, coloca limite e provocações a nossa individualidade, demanda que eu desinvista de mim e invista em um outro, o que expõe e aumenta nossa fragilidade, uma vez criado – ou fantasiado – aquele laço, facilmente ele se transforma na própria vida. O namoro, o filho, o casamento passam a ser o sentido da existência, aquele lapso de uma comunidade, ali onde há reconhecimento do e pelo outro, ali onde há (ou parece haver) alguma potência. Sem isso, comumente, o mundo cai, o chão é abalado, nos vemos desorientados, pois sozinhos, machucados e desamparados em uma sociedade onde não há comunidade, em que cada um deve garantir sozinho, se muito com a própria família, a sua própria existência. Uma individualidade profundamente frágil. A tendência é que este desespero manifeste-se de modo mais agudo nos homens, constituídos na misoginia e que ao se sentirem amados, ao vivenciar esta fragilidade e sensibilidade tão proibida e confrontada nos homens, a posse aparece como o jeito de amar e que uma vez sozinhos, com o término da relação e a incapacidade de lidar com a própria solidão e dor, não conseguem simbolizar o luto e vão ao ato, antes o ódio, a raiva e a vingança do que a dor, de encarar de frente a sua pequenez e impotência e se ver como o homem frágil que é.

Percebe-se que demanda-se no jogo uma indiferença parcial. Não sendo máquinas, sentimos. No caso, há a repressão de certos sentimentos e a indução e a captura de outros. A disciplinarização e assimilação das regras do jogo são mobilizadas por medo da morte, paranóia generalizada e ganância. Com os enganos, as trapaças, o vale tudo, há medo, ressentimento, desespero, dor e ódio mobilizados. Há uma situação extrema, portanto, permanentemente estressante. O conjunto disso possibilita que as provas entrem como um espaço de catarse, possibilitando alvos fáceis de desconto daquela energia contida. Em uma dinâmica que o desconhecido é a regra, que não se sabe o que acontecerá amanhã, portanto, em uma situação ansiogênica a ansiedade é certa, demanda-se um estado de alerta, pensamento acelerado e antecipatório e tal estado é necessário pra continuidade no jogo, não pode vacilar.  O amor só cabe como força motriz com os de fora, na chantagem de que se não conseguirem o dinheiro, provavelmente os demais morrerão, ele precisa vencer pelo amor dos de fora, e claro, pra manter a própria sobrevivência. Mesmo o sono, e no caso a sua privação, é determinado e capturado pelo jogo. Como dormir direito sabendo que há outros que podem te matar? Que há quem conspira contra você? Que estão planejando ganhar o jogo que você precisa ganhar? Que há quem está se qualificando enquanto você dorme? Como descansa? Amanhã tem mais. Que que será amanhã? A ansiedade e exaustão disto torna-se força motriz do jogo. A privação e má qualidade do sono dá raiva, o raciocínio é prejudicado, há uma exaustão e irritabilidade em movimento que só quer que o jogo acabe, é combustível pra intensificação da barbárie. Se dispor a outra coisa, como organização coletiva, formas de resistência, questionar o próprio jogo demanda tempo, disposição e energia, o que nessas condições torna-se cada vez mais difícil de ter. O que é impedido e reprimido são os afetos derivados dos bons encontros com os outros, aqueles que aumentam a extensão e potência do ser, aqueles derivados da alegria. Os demais, são produzidos e demandados no jogo. Não estão alheios, não estão foras dele, ao contrário, são sua força motriz.

É essa mesma dinâmica que nos movimenta no capitalismo. O medo de perder (e se eu perder essa vaga, essa pessoa, esses clientes?), a ansiedade (o que que vai ser demandado de mim amanha? Vão me pagar? Serei demitido? Cumprirei a meta? Vão me humilhar?), a raiva (aquele que me destruiu, ria de si ao falhar, raiva dos outros ao tentarem ajudar ou a não se importarem),a inveja (a ansia destrutiva aquele que não tem a dificuldade que eu tenho, aquele que tem o que eu queria ter). E mais um conjunto de sentimentos que vão sendo produzidos e mobilizados pra garantirem nossa permanente produtividade, nossa permanência e entrega total ao jogo, além da criação de novos mercados pra satisfazer essa nova necessidade, novas mercadorias pra nos trazerem bem-estar.

Os sentimentos no capitalismo, especificamente no neoliberalismo, não estão fora, eles são geridos pra garantir a reprodução do capital. Há uma engenharia social que produz e mobiliza determinados afetos na busca de criação de um novo modo de ser, pra uma internalização das regras do jogo, pra uma personificação do próprio capital. Como já nos dizia explicitamente Tatcher, “Economia é o método. O objetivo é mudar o coração e a alma”[5]. O neoliberalismo:

é uma forma de gestão psíquica de produção de figuras de subjetividade com seus padrões de ação e, principalmente, de sofrimento. Não é um mero acaso que ascenção do neoliberalismo nos anos 1970 tenha sido acompanhada de reformulação brutal da gramática do sofrimento psíquico através da hegemonia de Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua terceira edição (DSM-III). […] o neoliberalismo […] [é] uma forma de vida definida por uma política para a nomeação do mal-estar e por uma estratégia específica de intervenção com relação ao estatuto social do sofrimento. Essa forma de vida articula moral e psicologia, economia e direito, política e educação, religião e teologia política, propondo um tipo de individualização baseado no modelo da empresa. Uma vida que deve ser aprendida, dirigida e avaliada como se o faz com uma empresa. Mas essa análise de risco, esse cálculo de decisões e essa administração de si presume uma psicologia implícita. […] Podemos falar em “instauração” porque a força do neoliberalismo é performativa. Ela não atua meramente como coerção comportamental, ao modo de uma disciplina que regula ideias, identificações e visões de mundo. Ela molda nossos desejos, e, nesse sentido, a performatividade neoliberal tem igualmente efeitos ontológicos na determinação e produção do sofrimento. (Safatle,Silva Junior, Dunker p.9 e 10.)[6]

 

Não é que não haja mais coerção social, a violência é generalizada e como tal, a coerção é própria ao capitalismo, especialmente nos países de capitalismo dependente. É só que em conjunto com a coerção, o neoliberalismo desenvolve essa engenharia social de uma captura e produção de uma determinada subjetividade neoliberal, do indivíduo como empresa, que encarna em si o modo empresarial nas relações cotidianas, a despeito de uma coerção imediata.

Nessa luta de todos contra todos próprio ao capitalismo e que se aprofunda e se transforma com o neoliberalismo há uma intensificação da barbárie. Esses sentimentos produzidos nessa dinâmica de intensa competição e individualismo precisam se expressar para além de sua captura no trabalho. Com isso, há aqueles que facilmente tornam-se alvos. Justamente aqueles que historicamente já são alvos, os explorados e também oprimidos, pessoas pretas, LGBTI’s, mulheres, etc. Em uma realidade em que muitos estão perdendo, e que a perda é eminente, alguém que supostamente está ganhando torna-se um inimigo, pois é o responsável pela minha derrota.

A escassez fomenta a desigualdade intraclasse, intensifica a violência, o fratricídio e a opressão. No jogo percebemos isso na extensão do jogo também nas lutas da noite, o jogo torna-se permanente, e também na intensificação do machismo e etarismo. Em meio a competição, o idoso vai se tornando um fardo e as mulheres, majoritariamente com corpos menos robustos que os homens, tornam-se potencialmente alguém que atrapalha.

Em um jogo no qual depende sua sobrevivência, um jogo em que é necessário resultados e vitórias, a regra é clara: vencer. Não pode haver derrota, não sabendo o que está por vir, um corpo velho, mais frágil, mais lento, mais fraco é um fardo, atrapalha, é improdutivo. As relações são impessoais, antes da individualidade chega seus grupos de pertença. Antes de ser fulano é velho, é mulher. O corpo velho, improdutivo, vai se tornando um fardo, alguém inútil, sem valor, descartável, um peso morto esperando a hora de morrer. Tal como, majoritariamente, um corpo feminino, mais lento, mais fraco. No acirramento da disputa eleva-se aqueles considerados mais aptos, que não se dá meramente por uma questão física, mas também histórica. Aqueles que historicamente foram tidos como o ser humano universal – o homem burguês, branco e hétero. Aqueles a quem a humanidade foi reconhecida. Nas condições de escassez intensifica-se, aumenta-se o nível de rechaço, de perseguição a determinados grupos já historicamente oprimidos. Aquele ódio precisa encontrar um objeto, é necessário o entendimento de que há um outro que retira o que tenho e inviabiliza a minha vitória, o que é direcionado pelos capitalistas para o confronto intraclasse e não o direcionamento correto, ao direcionamento de classe, daqueles que de fato inviabilizam a igualdade. O que se entende por nós vai cada vez mais se restringindo.

A série ainda consegue retratar brilhantemente as relações de gênero e as diferenças hegemônicas presentes na sociabilidade entre homens e mulheres. Percebe-se que a masculinidade hegemônica, chamada tóxica, se impõe. Outros tipos de masculinidades, que não sustentam aquela virilidade, são desvantajosas, algo que deixam o homem mais frágil, tornam-o uma potencial vítima daqueles homens de masculinidade dominante. Mas são as mulheres as maiores vítimas desse tipo de masculinidade, usadas sexualmente e afetivamente quando conveniente, excluídas, alvos mais fáceis e atrativos da violência característica de tal masculinidade. O que se expressa bem na história de Ji-young, que teve a vida virada de cabeça pra baixo a ponto de acabar no jogo devido ao feminicídio cometido pelo seu pai e que ela vingou, assassinando-o. Antes do assassinato, ele, um pastor religioso, espancava a mãe a abusava sexualmente da filha e depois rezava.

Outro trato das relações de gênero que me chamou a atenção foi no episódio mais emocionante da série, aquele que a dupla tem que matar a outra. Enquanto os homens jogam, rivalizam e se degladiam, as duas garotas decidem conversar, eram seus últimos momentos de vida e decidiram não gastá-lo com jogo, decidiram aprofundar, ainda que na efemeridade, uma relação humana. Abaixar a guarda e permitir criar laço na única condição plenamente segura, sabendo que o outro vai morrer, portanto, aquilo não vai ser usado contra você e não há chances de traição. E assim falaram de si, de seus nomes e suas histórias. Por trás dos números havia vidas e sonhos, que só na certeza da morte puderam ser compartilhados. E após conversarem, Ji-young abre mãe de sua própria vida, defendendo que quem deveria ter o motivo mais nobre – a família – deveria sair, sozinha não conseguia nem pensar no que fazer com o dinheiro. E é nesse momento que a frieza, até então, impassível de Kang Sae-byeok é quebrada. Uma ressalva, não trata-se aqui de naturalizar um modo de ser homem ou mulher, mas de reconhecer a determinação social destes, e que como tendência a partir da constituição histórica do gênero, produzida e expressa nas relações sociais, a tendência (portanto, não certeza) é que homens sejam mais brutais, violentos e reprimam os próprios sentimentos e as mulheres desenvolvam uma maior sensibilidade e práticas de cuidado.

Na brutalidade o amor resiste, mas é um amor manco. Mesmo o casal que resistiu a diversas separações, em que o homem se manteve leal mesmo quando foi desvantajoso, teve um fim, o mais trágico possível, um contra o outro. E ele não viu sentido em continuar vivendo sem a esposa, sabendo que esteve envolvido com a morte dela, mesmo a despeito de sua vontade. A culpa o humanizou, gritou o absurdo, o inadmissível, o horror daquilo que estavam vivendo. Os outros, que já haviam enfrentado o inferno para chegar ali e já viam o dinheiro se aproximando, não ouviram e continuaram o jogo, aquela dor era só dele. Contraditoriamente, a mesma culpa que denunciou e bradou o inadmissível, inviabilizou a sua continuidade no jogo e na vida, encarar de cara a sordidez daquela situação tornou impossível viver. É justamente essa dimensão contraditória do sofrimento no capitalismo, de um sintoma e denúncia às condições de vida colocada, uma negação das condições colocadas, de uma resistência, só que uma resistência alienada e alienante[7], na medida que paralisa o próprio sujeito que sofre enquanto mantém as engrenagens do capital, o que reafirma as condições colocadas.

Tamanha era a dor daquele que viu sua companheira morta, que se suicidou. Ou melhor, foi suicidado. Os Vips foram os grandes responsáveis por esse suicídio. É o que acontece com os suicídios no capitalismo, pessoas suicidadas pelas condições de vida alienadas e alienantes do capitalismo.

Em meio a essa barbárie, o valor da vida vai se reduzindo, inclusive, a própria vida. Não há nem tempo e possibilidade de vivenciar lutos, amanhã o jogo continua. Deve-se desenvolver uma insensibilidade frente a morte, uma vez que ela é rotina. Se isso se dá na ficção do jogo, se dá cotidianamente nas periferias brasileiras com o genocídio de jovens negros[8].

A vida vai se tornando cada vez descartável, mas claro, umas mais que outras, já que umas, em especial a vida negra e pobre, sempre foi descartável e desvalorizada. É só mais uma morte dentre várias outras. E por que não exaurir ao limite aqueles ninguéns que já estão mortos? Venda de órgãos, estupro, por que não? Em uma realidade que a vida de uns nada vale, que em vida as pessoas sofrem um conjunto de abusos e violências, não faz qualquer sentido esperar algum respeito e dignidade na morte. Claro que não devemos aceitar e naturalizar isso, só estou dizendo que é o que se dá no capitalismo.

Chama atenção o grito desesperado do vencedor quando Kang Sae-byeok está sangrando no final. Num jogo de vida ou morte, ele grita desesperado pedindo ajuda, porque, afinal, alguém está morrendo. Como se suas vidas fosse uma questão, como se suas vidas valessem algo, como se alguém de lá se importasse. Beira o cômico. É alguém que grita, que no final das contas, apesar de tudo, espera algum tipo de humanidade daqueles que os oprimem e exploram, afinal, suas vidas importam. Têm algo de uma ingenuidade valiosa aí. Talvez pra não naturalizar o horror, pra continuar se indignando mesmo diante da barbárie cotidiana, pra continuar se chocando com os corpos que caem, seja exigido um tanto de ódio e também algum nível de ingenuidade. Há um misto de ingenuidade, esperança, desespero e impotência no “alguém está morrendo”. É um pedido de misericórdia, suplício para aqueles que os matam, eu existo, eu sou gente, nós somos pessoas. Um pedido desesperado de reconhecimento e que supõe a afirmação de si, apesar de ninguémdade a que está submetido, é um grito que não reconhece esse lugar, de uma pessoa que se vê como alguém e vê os demais como alguéns. “Eu não sou um cavalo. Eu sou uma pessoa”. Suas vidas importam (paralelo possível com vidas negras importam), eles são alguéns. É uma fala pra eles que controlam o jogo, mas também para si. Apesar da banalização da vida, apesar do trato animalesco (e podemos assumir que os animais também não devem ser submetidos a maus-tratos, violência e exploração) ele continua gente. Mas se o primeiro grito traduz um desesperto, a segunda fala é num tom ameaçador, de alguém que já não pede, que sente-se potente, é alguém que já em outras condições, sabe de si e está disposto a exigir sua humanidade e dos demais.

Mas enquanto o principal grita pra ajudar aquela que está ferida, o outro mete a facada. Mas os responsáveis por aquelas mortes, que as tornaram possíveis e necessárias, quem estava por trás daquelas facadas permanecem ilesos, limpos e cheirosos. Nunca mataram ninguém, mas mataram todos, fizeram carnificinas enquanto lucram e gozam com isso.

Mesmo aqueles que ajudam no jogo, os mascarados, trabalhadores do próprio jogo não têm o menor valor. Penso que podem ser entendidos como a pequena burguesia. Alguém que tá exprimido entre trabalhadores e capitalistas, que depende do próprio trabalho pra viver, mas explora também, que comumente se identifica mais com os grandes capitalistas e coaduna com sua política, mas que está sempre oscilando, sempre na possibilidade de ser derrubado e voltar a ser assalariado. São frágeis e descartáveis também e mais próximos dos jogadores que imaginam.

Apesar de tratar até aqui do capitalismo em geral, a série é perfeita pra descrever particularidades do capitalismo dependente. A classe trabalhadora, explorada com uma superexploração, de forma que não só há um tempo de trabalho não-pago, como também há expropriação da própria parte do salário que é essencial para sua reprodução, trabalhadores cujo salário é insuficiente pra manter a própria sobrevivência em condições mínimas.

O líder, nesse sentido, talvez possa ser entendido como a burguesia nacional, que ganha, lucra, tem privilégios, está na gestão direta da barbárie, mas tá ali engolida pelos capitalistas estrangeiros, transferindo valor para estes, e compensando essas perdas espremendo mais e mais a classe trabalhadora. Passivo, um cachorrinho com a burguesia internacional e um carrasco com a classe trabalhadora. Classe que pode ser exaurida até a morte, que pode morrer de fome, visto que há exército industrial de reserva superpopuloso para assegurar a continuidade da máquina.

No final da cadeia do jogo, quem é o grande gozador? Os Vips, os capitalistas estrangeiros. Pertinentemente homens, brancos e falando inglês. É esta a personificação máxima do capitalismo, aquele que é reconhecido como o máximo de humanidade, como o humano universal, aquele que representa o poder. A caricatura destes, o exagero e o ridículo, expõe o ridículo que é, uma sociedade na qual 1% da população detém 60% da riqueza mundial[9]. São deuses na terra, onipotentes, oniscientes e onipresentes.

A liberdade e a saúde do mendigo

Segundo o capitalismo em suas bases liberais repaginadas no neoliberalismo, tudo isso descrito aqui, todo o jogo é expressão da liberdade. Ninguém apontou uma arma e obrigou a participarem do jogo, foram porque quiseram, até livremente assinaram um contrato e as que viveram após a primeira fase tiveram direito ao voto, com vitória da maioria, e depois escolheram voltar e houve até quem escolheu não voltar. Desprovidos de qualquer intervenção estatal, de qualquer imposição direta. Livres! Brada o liberal.

[…] podemos ser livres e, mesmo assim, infelizes. Liberdade não implica a posse de todos os bens ou a ausência de dificuldades. É certo que ser livre pode significar liberdade de morrer de fome, de cometer erros que redundarão em perdas ou ainda, de correr riscos mortais. No sentido em que empregamos a palavra, o mendigo sem vintém que leva uma vida precária, baseada na constante improvisação, é, realmente, mais livre que o conscrito com toda sua segurança e relativo conforto. Mas, se a liberdade, portanto, nem sempre pode parecer o melhor de todos os outros bens, ainda assim se trata de um bem distinto, que necessita de um nome distinto. (Hayek, p.84)[10]

 

Essa é fala de um dos maiores nome da Escola Austríaca, Friedrich Hayek. É cretino, mas é verdadeiro, essa é a liberdade do capital, a liberdade de morrer de fome, que se intensifica e se transforma em sua existência neoliberal. É sempre essa tal liberdade o que os gestores e empresários capitalistas querem dizer ao defender abstratamente a liberdade. Não é mentira quando Bolsonaro brada a escolha da fome ou economia, é sórdido, é repugnante, é nojento, mas é só a liberdade do capital escancarada, de fato, é saúde ou economia.

Não se trata de uma liberdade como criação de condições, uma liberdade positiva, que fomente condições de direitos e dignidades que enriqueçam o campo de ação, enriqueçam a vida social e com isso o campo de ação e escolha individual. Há somente a defesa de uma liberdade negativa, liberdade como sinônimo de ausência de coerção individual, se o indivíduo quiser empunhar uma bazuca na rua que o empunhe, ninguém deve impedi-lo[10]. Liberdade que sai e retorna ao indivíduo, a ele tudo, a coletividade nada. Tudo que o impeça de exercer sua vontade é encarado como uma opressão. Quanto mais privados de laços e deveres mais livre se é. Só que não há indivíduo sem sociedade, já que este só se faz e se fortalece dentro do social, o enfraquecimento da coletividade é o enfraquecimento do próprio indivíduo. É a imagem do mendigo, o grande sujeito neoliberal. Inclusive, chama a atenção a ausência do Estado na série, sua única aparição é do policial na delegacia rindo do vencedor ao fazer a denúncia e na sua narrativa sobre a brutal repressão da greve. Aparece individualmente na figura do policial, mas que não está ali como representante da instituição. O Estado está ausente, e se dá a relação entre Vips, jogadores e suas mediações. Mas será verdadeiramente ausente, não seria necessário a própria participação do Estado pra existência e permanência do jogo durante décadas? Seria mesmo esse jogo uma possibilidade sem a participação ativa do Estado? Veremos na possível segunda temporada. Se a série permanecer como fábula do capital, certamente não. A ausência aparente do Estado vai esconder uma grande presença na manutenção do jogo.

Em confronto com a cretinice liberal, Lukács[11], ao retomar Marx, nos lembra que há uma primazia ontológica das alternativas frente as escolhas, isto é, a gente escolhe, mas dentro das alternativas possíveis. Ou na famosa frase do Marx, “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”[12] .É a questão da causalidade (determinidade) x teleologia (liberdade). Somos seres determinados, circunscritos no capitalismo, reproduzindo a vida em situações concretas e fazendo escolhas dentro dessa realidade e partir do existente, a partir daquilo que determina nossa existência, podemos criar transformar e criar o novo. Há sempre uma realidade histórica. Marx e Lukács ao dizerem isso diz do humano abstrato como sujeito histórico, em como os seres humanos em conjunto criam e transformam a realidade e como esta, até então, se deu na luta de classes como motor da história. No entanto, é possível a partir disso também apreender o movimento do sujeito singular em sua cotianeidade. Escolhemos a partir das alternativas colocadas. No jogo, a alternativa colocada era de miséria ou miséria, luta pela sobrevivência ou luta pela sobrevivência, a escolha possível se dava nas formas distintas de vivenciar isto, mas a substância das alternativas era a mesma. As alternativas próprias ao capital são miseráveis – subjetiva e objetivamente – fazemos escolhas a todo momento, mas dentro do jogo, com as regras do jogo, com as questões colocadas pelo jogo, na necessidade de vencer o jogo. Claro que dentro disso há inúmeras contradições, não somos meras marionetes, a história está aberta, é o que nos possibilita nos organizarmos para enfrentar, resistir, e romper historicamente com o próprio jogo capitalista e criar um outro modo de produção da vida orientado a satisfação das necessidades humanas e não ao lucro.

A série também nos mostra a noção de igualdade do capitalismo, em um episódio pertinentemente chamado igualdade em que o líder brada ao mascarado que estava participando do esquema de tráfico de órgãos “você rompeu com a coisa mais valiosa aqui, a igualdade, todos são iguais perante o jogo”. Todos iguais… na miséria. Todos miseráveis com chances iguais de vencerem pelo próprio mérito, só há lugar para um deixar de ser miserável, no entanto, há igualdade de condições de vencerem. Velhos com seus corpos frágeis e lentos, mulheres com seus corpos mais vulneráveis, imigrantes desconhecendo as regras das brincadeiras, todos iguais nas mesmas condições, nas mesmas regras e com as mesmas oportunidades de ganhar este nobre jogo igualitário. Não se trata de uma igualdade de direitos, de distribuição de poder, de acesso aos meios de produção, de condições de vida igualitárias, trata-se de todos terem a mesma oportunidade, as mesmas condições de luta pela sobrevivência e quem vencer, vence por mérito próprio. Convenientemente a história some, porquê há uns que são Vips e podem criar e controlar o jogo, porquê há uns que podem ser líder e mascarados enquanto há aqueles que tornam-se jogadores não é uma questão, é o que é, a vida é assim, é natureza humana. (O que nos permite sobre a psicologia hegemônica que faz justamente isso, um recorte da realidade, que universaliza e justifica o capitalismo, ao invés de explicar o existente, ela o supõe e com isso o defende e naturaliza, é a função histórica da psicologia). O indivíduo como a unidade máxima que ascende a partir do seu próprio esforço, é o orgasmo do liberal. O jogo, Round 6, é a utopia capitalista, e claro, distopia para a classe trabalhadora.

Liberdade de escolher entre as condições miseráveis, igualdade de condições miseráveis. E fraternidade quando necessária para sobreviver nessas condições miseráveis. A fraternidade por vezes aparece como condição de sobrevivência, deve-se pertencer e cooperar com um determinado grupo para sobreviver, mas fora os momentos óbvios e que até são dá própria regra do jogo, a fraternidade tem que ser cavada entre os de baixo, mas a dura custas e com dificuldades permanentes. A nível cotidiano e individual, como já falado, ela pode trazer prejuízos, demissões, violência, humilhações, ainda que se sabe que aquele ferrado de hoje amanhã pode ser você. E se tivessem buscado alguma cooperação e solidariedade, haveria possibilidade de se rebelarem, roubarem as armas e dividirem do dinheiro? Provavelmente não, mas na certeza da morte, para aquelas 500 pessoas agirem conjuntamente era a única possibilidade de vida. A fraternidade vislumbrada no capitalismo é dessa concepção utilitária de ser fraterno para vencer, não se conforma de fato uma fraternidade, mas uma relação utilitária com outros, em que ajuda aqui pra dar rasteira depois.

Oras, mas não se trata da injustiça, é justo. As pessoas são livres pra venderem sua força de trabalho, são livres, se não fizerem vão morrer de fome, mas eis a liberdade do capital. O jogo é tão civilizado e justo que têm até regras, tem leis que eles concordaram, assinaram até livremente um contrato. Há um contrato social. Leis neutras, que favorecem a todos. Coincidentemente, quem as fez colocou as condições de serem realizadas, dominava o ambiente em que assinaram, garantia a reprodução do próprio jogo, foram os próprios donos de jogo e que se eles não assinassem seriam expulsos do jogo, mas é um detalhe. Poderiam até tentar negociar, como na livre negociação do trabalhador com o patrão, a mesma dinâmica de poder. As leis são neutras, protegem a todos por igual. E não é esse o papel do direito com suas leis? Salvaguardar os detentores da propriedade privada? Leis para os de baixo para salvaguardar os de cima. Nisso, é previsto as trapaças da burguesia quando há algum movimento não previsto, como na prova do vidro em que apagam as luzes. Corrupção, lavagem de dinheiro, roubo, assassinatos, genocídio indígena e da população pobre e negra, sonegação de impostos, destruição de leis trabalhistas e ambientais e toda a gama de trapaça, violência e exploração pra extrair o máximo do jogo. Os donos do jogo são tão justos que até recompensam após enfrentarem o inferno, oh, são recompensam os jogadores com bônus, comida boa e boa vestimenta. Oh que legais. E como desdobramento mais, mais competição e carnificina.

Liberdade, igualdade, direito a voto, o jogo é democrático, é a democracia… dos de cima. A ditadura do capital. Você pode escolher, pode votar, olha só, há direitos. Mas qual o direito determinante? O da propriedade privada.

É nessas condições que a violência se generaliza, intensifica e se faz necessária como sobrevivência e possibilidade de ascensão. Ideologicamente entendida como instinto humano, uma violência natural. Somos constituídos em uma sociabilidade violenta, em que uns detém os meios de produção e controle da circulação do dinheiro e os demais estão jogados na luta pela sobrevivência. O indivíduo é resumido a sua classe social, que só se dá concretamente constituído por raça e gênero.  É um modo de produção assentado na violência de classe – que se dá consubstanciada com gênero e raça, portanto, é uma violência que contém a violência de gênero e raça – que generaliza a violência e a demanda para a reprodução do indivíduo. Ela é inescapável nessas condições e se dá em todas as instituições sociais, inclusive, na família. Nosso desafio é permanentemente buscar direcionar esta violência para o inimigo real, não para os nossos pares, esses alvos fáceis que nos cercam.

Nessa dinâmica do capitalismo vai se perpetuando aquilo que Martin-Baró chamou de espiral de violência[13], um continuum de violência se perpetuando mais e mais. Em que ela na medida que torna-se algo cada vez mais profissional e institucional torna-se impessoal, algo técnico, o mero cumprimento de ordens. “Só puxei o gatilho, eu cumpri ordens”. A violência vai se despersonalizando ao formar uma grande cadeia de responsáveis, em que o chefão nunca é visualizado na cadeia e quem executa não se sente responsável, pois só obedeceu ordens. O grande responsável pela facada em Kang Sae-byeok não é quem efetivamente a deu, ainda que ele seja responsável também, há uma cadeia de responsáveis, os diversos níveis de hierarquia dos mascarados, o Líder, o Vip local e os Vips internacionais. Quanto mais acima nessa hierarquia maior o grau de responsabilidade na medida em que estes que criam e controlam o jogo, mas quando mais afastado da circunstância imediata e mais poder detém, menos reconhecido se é. Ninguém se sente responsável pela morte e quando há alguém responsabilizado é só o responsável imediato, quem visivelmente dá a facada. Por trás daquele policial que atira, quase sempre impunemente, está toda a sua cadeia hierarquia acima, seus comandantes, o secretário de segurança pública, o governador, o presidente, os milionários empresários do tráfico de armas e drogas, etc.  Só se vê e busca-se os Jang Deok-Su (o gangster) da vida, que no Brasil é representado por jovens negros pobres, este é o imaginário do bandido, apesar de serem estes as maiores vítima dessa cadeia de violência. Os donos do jogo, os engravatados, os verdadeiros responsáveis, nunca nem são vistos, quanto mais lembrados, jamais punidos. São gente de bem.

A saúde mental do mendigo

E o que tudo isso tem a ver com saúde mental? Tudo, tudinho, do começo ao fim. A nossa saúde mental está contida nisso e só pode ser entendida dentro disso, dentro da realidade concreta, dentro do capitalismo. Entendê-la como algo a parte, fora da realidade é falsea-la, é teorizar sobre algo que só existe na cabecinha de quem elaborou a teoria.

O próprio conceito de saúde mental já expressa algo importante, uma noção de cisão, como se tivesse uma saúde que fosse do corpo e outra da mente. Como se fossem coisas separadas e não representassem uma unidade. Não bastasse isso, entende-se saúde mental como um bem individual vinculado ao bem-estar. Tem gente que tem, outras que não, você deve cuidar da sua, pois é o único responsável por ela. Vou pegar algumas breves definições pra ilustrar.

Ter saúde mental é:

          • Estar bem consigo mesmo e com os outros
          • Aceitar as exigências da vida
          • Saber lidar com as boas emoções e também com aquelas desagradáveis, mas que fazem parte da vida
          • Reconhecer seus limites e buscar ajuda quando necessário”[14]

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade.” 14

Em sua constituição, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define que “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a mera ausência de doença ou enfermidade.

Em geral são essas as definições de saúde mental ou algo bem próximo disso. Está explícito que se trata de uma questão individual, de como o indivíduo lida consigo e com os outros, com as exigências da vida, como reconhece seus limites, lida com suas emoções, com seu grau de bem-estar, com sua produtividade e contribuição com sua comunidade. Oras, mas quais exigência são colocadas pela vida? Há uma realidade social que permite o reconhecimento dos próprios limites, o que acontece com quem é assalariado, trabalhador informal ou autônomo se parar? Há possibilidades de ajuda socialmente colocadas para todos que necessitam? Em condições de competição generalizada e precarização da vida é realmente possível estar bem consigo e com os outros? O que é exatamente saber lidar com as emoções? Continuar jogando sem se questionar sobre o próprio jogo? Manter a frieza? Está colocado um cotidiano que permite que o indivíduo se recupere do stress rotineiro? Esse stress rotineiro é saudável? Quais os termos da produtividade? Essa produtividade exigida permite o reconhecimento do limite, permite as boas relações com os outros, permite uma realidade de bem-estar? Que comunidade é essa? Família, classe, humana?  Como contribuir com a comunidade em uma sociedade marcada por antagonismos de classe que solapa os laços comunitários? O que se está assumindo como comunidade? Numa sociedade de desigualdade, violência e competição generalizada um certo mal-estar não é expressão de saúde?

Percebe-se que as definições hegemônicas de saúde mental são definições que justificam e naturalizam o jogo ao ocultá-lo. São definições que atendem aos interesses dos Vips. Saúde mental se descola do jogo, isto é, das condições concretas de existência, da realidade social em que existe, e é reduzida a uma condição individual, de capacidade do indivíduo de se adaptar as regras impostas da forma mais harmônica possível, evidentemente as regras do jogo não são questionadas. São assumidas como fatos, coisas naturais da vida que requer a resposta adequada, satisfatória do indivíduo, isto é, sua aceitação passiva. É a definição liberal de saúde mental, do indivíduo e sua mente que flutua no mundo, sem qualquer laço social, sem qualquer determinação social. O indíviduo sem pés no chão e sem estômago, só emoções flutuantes auto-determinadas.

Se a gente pensar a saúde mental nos termos colocados, como algo de um bem individual que remete a bem-estar. Quem é o exemplo saudável no jogo? O Gangster e o semi-finalista. Se adequaram as exigências da vida, lidavam bem com o stress do jogo, dormiam de consciência limpa, formaram grupos, apresentavam pouco mal-estar pelas regras do jogo, foram jogadores bem produtivos. Desse ponto de vista liberal, eles são os mais saudáveis. Atendem aos critérios de saúde mental do mendigo. O mais perturbado talvez seja o vencedor, quem em sã consciência abdicaria de milhões pela vida de alguém que definitivamente não faria o mesmo? Quem grita por ajuda num jogo de vida ou morte? Quem escolhe se solidarizar com o velho se pode morrer? Apresenta um mal-estar constante, questiona as regras do jogo, não se recupera do stress rotineiro do jogo. Tem mais de milhão na conta e não usa, depois de merecidamente ter ganhado o jogo. Definitivamente alguém que não está bem consigo mesmo. Adoecido. Será que tem algum transtorno? Poderíamos chamar de transtorno despersonalizado coletivista, daria até pra elencar alguns sintomas.

Coloca-se em situações de risco; se prejudica em detrimento de outros; empatia exagerada; baixa aceitação das normas e regras sociais; envolvimento constante em conflitos (2 a 3x por semana); apresenta ataques de raiva; comportamento rancoroso e vingativo. Ah não, espera… Eu estava ironizando, mas nem é algo que precisa ser ironizado e criado, já existe algo bem próximo. É o Transtorno Opositivo Desafiador, o transtorno que só acomete crianças.

Para diagnosticar o TOD, é preciso verificar a presença de pelo menos quatro dos seguintes sintomas:

          • irritabilidade e acessos de raiva constantes;
          • discute com adultos ou figuras de autoridade;
          • desafia regras;
          • faz coisas deliberadamente para aborrecer a terceiros;
          • culpa os outros pelos seus próprios erros;
          • se sente ofendido com facilidade;
          • tem respostas coléricas quando contrariado;
          • é rancoroso e vingativo quando desafiado ou contrariado.[15]

É essa porcaria que aparece como a verdadeira ciência, neutra, técnica, limpinha. Transtorno aqui e acolá. Droga-mercadoria aqui e acolá. Trata-se não de barbárie, não há uma realidade em questão, trata-se só de alterações nos neurotransmissores que acontecem por um acaso. Um conjunto de sintomas, em X ocasiões, por X vezes da semana e pronto. Tem critérios bem definidos, tem um tratamento, tem jaleco e tem até números. É muito científico. Quem questiona é negacionista. O jogo, sua existência, suas regras não estão em questão, a vida é assim, a questão é manter os jogadores jogando. O capital subverte até a própria drogadição, as drogas nem são mais recreativas, um escape de prazer, ou fuga, é pra produzir mais e mais.  Se tá jogando tá saudável. Ciência asséptica, mas que junto com o líder e os vips carregam muito sangue na mão. É a força ideológica que ajuda a mover o jogo. Aparentemente fora da política, fora da luta de classes, mas plenamente envolta por ela, é força ideal do capital. É a explicação dos vips sobre os jogadores para justificar a permanência do jogo. Ainda que não tenha sido feita pelos vips, se assenta sobre a sua perspectiva. Tendo consciência ou não, é lacaio dos Vips.

É esse suposto liberal, como tal, capitalista que coaduna com as regras do jogo, que veremos na psicologia hegemônica e psiquiatria, agora com a primeira se subordinando a segunda. Nas definições de saúde mental e de transtornos mentais, a realidade social capitalista não estará colocada, o jogo vai ser ocultado – e como tal justificado e naturalizado – o tempo todo. O problema vai estar sempre colocado no indivíduo que está respondendo de modo insatisfatório a essas demandas. Não vai ser questionando em nenhum momento que exigências são essas que estão colocadas, que regras são essas, que demanda de produtividade é essa. Nesse sentido, a psicologia e psiquiatria cumprem importantes funções ideológicas no capitalismo e conforme a vida vai se tornando cada vez mais insuportável, o que se expressa no psiquismo, elas vão se tornando cada vez mais centrais pra dar falsas explicações e garantir que o indivíduo continue vivendo o insuportável sem questionar a realidade. Essas ciências também estão na cadeia de violência, também ajuda a dar a facada.

Num mundo em que há Vips e jogadores, em que há capitalistas e classe trabalhadora, não há como está fora do jogo. Ou você é está com uns ou com outros, ou você atua como satélite de uns ou de outros, a ciência está dentro disso. Por isso que é necessário romper, enfrentar e denunciar essas definições e teorias hegemônicas como a baboseira liberal que são. Não importa a autoridade que a anuncia, a credibilidade que detém, maioria não é verdade. Quais os supostos dessas teorias? Quais seus fundamentos? Qual sua noção de ser humano e de ciência? Atende os interesses de quem? São falsas, são equivocadas e cumprem a função de justificar o capitalismo. Em confronto a elas, nós, os de baixo devemos criar outro entendimento de saúde mental. Nisso, Martin-Baró nos ajuda bastante:

Se a base da saúde mental de um povo encontra-se na existência de relações humanizadoras, de vínculos coletivos nos quais e pelos quais se afirma a humanidade pessoal de cada um e não se nega a realidade de ninguém, então a construção de uma sociedade nova ou, pelo menos, melhor e mais justa, não é somente um problema econômico e político; é também, e por princípio, um problema de saúde mental. (Martin-Baró, p. 267)[16]

As relações sociais estão no centro. A base de nossa saúde mental, enquanto coletividade não meramente indivíduo, enquanto povo, mais especificamente, enquanto classe, está na existência de relações, se relações que afirmam a humanidade ou a negam. Não se trata de um bem individual, de uma mente apartada de um corpo e um corpo apartado da sociedade. De um bem-estar que se dá a despeito do mal-estar generalizado. Saúde mental só pode existir em sua concretude, só existe em uma realidade concreta. Há uma saúde mental do/no capitalismo. Mais precisamente a questão é, qual a saúde mental do capital? O que é estar saudável no capitalismo? O que é cuidar da sua mental? Quem é considerado saudável no capitalismo? O mais bem adaptado, o que passa por cima de todo mundo sem se doer, o que não se questiona sobre o jogo. Qual a subjetivação o capitalismo nos oferece?

Não se trata de uma teoria de fatores, é uma determinação social. O biológico evidentemente existe e é base de desenvolvimento, é substrato tangível de nossas emoções, pensamentos e linguagem, mas é só isso, condição sine qua non. A base de nossa vida, portanto de nossa saúde, é a relação social, é ela o momento predominante de nossa existência e que conforma um determinando psiquismo. Um vírus é um vírus em qualquer circunstância, mas é somente em certas circunstâncias que o ser humano têm contato, se alimenta e vende a carne de certos animais, que há uma mercado de carnes silvestres, que há uma negligência com o vírus, em que há uma hesitação em isolamento social, pois prejudica a economia, que uns morrem e tornam-se miseráveis enquanto outros lucram bilhões com isso, que uns países tem um excesso de vacina e outros têm déficits porquê não conseguem comprar. Só em certas circunstâncias há mercadorias e um modo de vida em que a economia pode funcionar a despeito da saúde. E só nessas circunstâncias que certos sofrimentos emergem em determinadas formas e são entendidos e tratados de formas particulares. Não se trata de uma relação imediata, mas histórica, do capitalismo entendido como modo de produção da vida. Do jogo que vai condicionar com que a gente viva de certo modo. De modo que a defesa de outra sociedade, de uma sociedade não pautada em relações desumanizantes e alienantes, é uma questão central da saúde mental, pois é uma questão central de como podemos viver nossas vidas, mas não veremos isso em nenhum manual de saúde mental.

A gente só entende saúde mental, psicologia, psiquismo, subjetivação se a gente parte da nossa existência concreta, partindo da própria existência do jogo capitalista, suas regras, sua sociabilidade. Fora disso é teoria liberal que naturaliza condições históricas e longe de explicar a realidade, a falseia. A apreensão da dinâmica capitalista pro entendimento da saúde mental não é uma escolha da pessoa que pesquisa. É uma necessidade colocado pelo objeto.

Round 6 é uma fábula sobre o capitalismo, leva ao exagero, ao máximo a brutalidade cotidiana que estamos submetidos. O capitalismo é esse jogo selvagem de sobrevivência, de desigualdade e de barbárie. É por isso que precisamos nos opor e nos organizarmos pra destrui-lo, superar isso e criar uma sociedade outra, em que não há Vips, mascarados e nem jogadores, em que há uma igualdade real, em que as exigências colocadas não neguem nossa humanidade, nos coisificando e animalizando, e que ao contrário, que afirme nossa humanidade, criando uma liberdade real, em que as relações se dão entre indivíduos e não entre classe, construindo uma saúde mental outra, indivíduos não mais normalmente adoecidos. Em que se afirma nossa capacidade criativa e transformadora para que possamos usufruir dessa vida e realmente nos divertir ao jogar o nosso jogo, não um jogo para o gozo de outrem.

*É psicóloga e mestra em psicologia. Atua na clínica e escreve sobre cotidiano, saúde mental e capitalismo em seu Instagram(@psi.karinaoliveira).

Notas:

[1] A citação está no livro desenvolvimento feito pelo em Subjetividades no Brasil da Cólera:formação e conjuntura (2020),  de Pedro Costa e Kissila Teixeira. No entanto, a palavra é usada aqui sem o rigor e caráter conceitual que os mesmos desenvolvem sobre a formação brasileira a partir de Darcy Ribeiro, trata-se aqui somente de um uso utilitário e descritivo de ninguém como uma parcela subalternalizada da classe trabalhadora e também da apropriação de algumas idéias referentes a esse processo de formação de ninguéns.

[2] https://piaui.folha.uol.com.br/debate-por-encomenda/

[3] https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/meio-milhao-de-mortes-por-covid-carrega-marca-da-desigualdade-do-brasil/ / https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/meio-milhao-de-mortes-por-covid-carrega-marca-da-desigualdade-do-brasil/

[4]Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Ed da Expressão Popular, 2015

[5]https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/07/1792317-livro-reve-conquista-do-mundo-pelo-neoliberalismo-nos-anos-80.shtml?fbclid=IwAR2ls7u4fGZde93RSbv8mXWWch8dpJzKqkxlm4fI0cCVRZY31JkHuWSuYiE

[6] Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, 2021.

[7] Isso é bem desenvolvido no artigo Alienação, estranhamento e o problema da individualidade

no capital em crise: uma análise do sofrimento de Luiza Miranda Furtuoso e Pedro Henrique Antunes da Costa e também no minicurso dado pelo Pedro Costa sobre Loucura em Marx, que está no youtube

[8] Jeane Tavares desenvolve muito bem acerca dessa impossibilidade do luto nesse contexto brutal de racismo e violência do Estado nesse texto https://diplomatique.org.br/falando-da-perda-hoje-estou-mal-espero-que-voce-entenda/

[9] https://www.oxfam.org.br/noticias/bilionarios-do-mundo-tem-mais-riqueza-do-que-60-da-populacao-mundial/

[10]Citação presente no Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico na página 84. No livro eles desenvolvem melhor essa ideia de liberdade negativa e positiva, eu só não lembro o capítulo.

[11]Em ontologia do ser social

[12]https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap01.htm

[13] Em um artigo meu em conjunto com o Fernando Lacerda a gente desenvolve um pouco sobre essa noção de violência em Martin-Baró http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2014000300010

[14] https://www.saude.pr.gov.br/Pagina/Saude-Mental

https://pensesus.fiocruz.br/saude-mental

https://www.politize.com.br/saude-mental-o-que-e/

[15]https://institutoneurosaber.com.br/quais-os-principais-sintomas-do-tod-transtorno-opositivo-desafiador/

[16]Martin-Baró -Guerra e Saúde Mental em Crítica e libertação da Psicologia – Fernando Lacerda

 

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