A querela da formação analítica na década de 2020: a psicanálise como aberração no Brasil da normalidade absurda

Por Rodrigo Alencar, via medium.com

Em 1919, quando a Europa se via diante dos destroços da guerra, a República Soviética Húngara se apresentou como uma possibilidade para expansão da psicanálise. A apresentação transcrita como “caminhos da terapia psicanalítica[1]”, feita por Freud, vinha justamente flertar com a ascensão da Revolução Soviética, ao mesmo tempo que marcava a possível utilidade da psicanálise ao aparato moderno de Estado — Nação, de modo a tratar os traumas de guerra, bem como compreender os meandros psíquicos dos soldados que colapsam nas frentes de batalha.

O que nos chama a atenção dessa comunicação é que Freud está falando abertamente em “psicanálise para todos”, assim como possíveis adaptações da técnica para que isso seja possível, fazendo uma distinção entre o ouro da psicanálise, e o cobre (a ser empregado na saúde pública).

A ocasião dessa apresentação não era qualquer outra senão a inauguração de uma Cátedra de Psicanálise na Universidade de Budapeste. Cátedra, inclusive, que ficaria a cargo de Sándor Ferenczi, responsável por cuidar do ensino de psicanálise no âmbito universitário sob a rubrica de autorização de György Lukács. O projeto de expansão e capilarização institucional da psicanálise na Europa Central era almejado por Freud, de modo que este redigiu um artigo chamado “Deve-se ensinar psicanálise nas universidades?” (1919). Qualquer um que o leia, não encontrará nenhuma proibição a esse respeito. E, mais ainda, nele encontramos recomendações do que seria imprescindível no ensino da psicanálise no contexto universitário, como o trabalho ambulatorial com pacientes e a importância da literatura, assim como a desambiguação da psicanálise como formação médica. O artigo pode ser considerado sob encomenda para Ferenczi, de modo que seu original em Alemão ficou perdido e, para inclusão nas obras completas, foi necessário recorrer à sua versão Húngara.

Segundo Elisabeth Roudinesco[2] a queda da breve República Soviética Húngara e, consequentemente, o fechamento da cátedra de psicanálise ocasionara a alternância das atenções de Freud para outro discípulo que tinha como projeto a expansão da psicanálise em outra direção: Ernest Jones e a expansão da psicanálise para a cultura Anglo Saxã. Tal empreitada não foi sem consequências políticas, na medida em que Jones optou como estratégia de sobrevivência para a psicanálise, uma postura colaboracionista em relação ao nazismo.

Anterior a este trágico momento da história psicanalítica, ainda no período entreguerras, a psicanálise construiu seu primeiro grande projeto público: a Policlínica de Berlim. Instituição fundada a partir do financiamento de doadores, dentre eles um ex paciente e amigo de Freud, Anton Von Freund, dono de uma fábrica de cerveja Húngara, fora um dos principais doadores do projeto. A policlínica de Berlim tinha por premissa a oferta pública do tratamento analítico, sendo o pagamento exigido de acordo com as condições de cada paciente, de modo que fosse garantida a possibilidade de gratuidade de alguns tratamentos.

A policlínica de Berlim não foi o único projeto de clínica social formado por psicanalistas. Tantos outros foram formados na Europa e, posteriormente, fora do continente. Assim como até os dias atuais, são comuns projetos de atendimento a população, seja no contexto de clínica-escola em universidades (esses não só com estudantes orientados pela teoria psicanalítica, mas por tantas outras referências teóricas para psicoterapia), seja em instituições de formação analítica. O fato é que a primeira grande experiência de formação de psicanalistas voltada para o amplo acesso à população foi derrotada pela ascensão nazista. Se tomarmos por base a experiência brasileira dos últimos anos, conhecemos bem o desmantelamento de experiências inovadoras e progressistas e sua substituição por práticas retrógradas e ameaçadoras à dignidade humana.

No contexto de uma Berlim arrasada pelo nazismo, testemunhamos o processo que foi chamado de nazificação da psicanálise[3]. É por esse caminho que poderíamos debater a criação de um bacharelado de psicanálise no Brasil, no ano de 2022. O que ganha espaço, financiamento e chancela do governo brasileiro nesse que não seja propriamente caracterizado como Bolsonarista? Um governo que combate vacinação de crianças em meio a uma pandemia, sendo capaz assumir medidas em prol da população somente frente a pressão esmagadora da comunidade internacional e coro de órgãos de imprensa.

Então, precisamos assumir ao menos dois pontos;

Primeiro: o debate público que tem se formado sobre o bacharelado de psicanálise está ruim. É de um nível um tanto preocupante, principalmente dado todo o percurso e reconhecida erudição dos psicanalistas que opinam e escrevem a respeito. Argumentos que recorrem a uma “tradição”, ou que dizem que uma graduação em psicanálise “nunca foi pensada”. Ou mesmo quando defendem que “o elitismo é ruim, mas o bacharelado também seria”. Se tratam de argumentos defensivos, ou seja, resistência, no sentido psicanalítico do termo.

Segundo: assim como uma nazificação da psicanálise seria sinônimo de sua morte, uma bolsonarização, ou sua adequação enquanto formação e prática dentro de uma perspectiva religiosa também o seria (este último caso não é nada novo no Brasil). É nesse contexto que precisamos reconhecer que, o que realmente ameaça a psicanálise no Brasil não é a sua burocratização, mas sim sua instrumentalização para autorizar pessoas a trabalharem no que há de pior em instituições de saúde mental. Por exemplo, as comunidades terapêuticas que buscam receber usuários de drogas submetendo-os a trabalhos forçados sob a desculpa de “laborterapia”. Ou mesmo as instituições manicomiais hospitalares que, por meio de um bacharelado em psicanálise, possam chancelar a atuação de profissionais sem a formação adequada para lidar com pacientes sem a delicadeza necessária, cuidando de uma das modalidades mais complexas adoecimento que temos atualmente: o sofrimento psíquico e a loucura.

Já a questão da psicanálise brasileira como elitista surge em meio a esse debate de modo disruptivo, praticamente sintomático. Sabemos que um bacharelado em uma universidade particular em nada significaria maior acesso a psicanálise, principalmente no que toca o acesso ao seu tratamento e à sua formação por meio da supervisão. Nesse ponto, é interessante como a questão do elitismo surge no debate. Parece que parte da militância da esquerda no Brasil se ressente da posição dos psicanalistas que criticam o capitalismo em aulas e entrevistas, mas não exercem práticas que libertem as pessoas desse mesmo sistema econômico (como se isso fosse possível!).

É um modo despolitizado e infrutífero de reorientar o debate, parece submetido ao raciocínio dos militantes de direita que acusam pessoas com princípios políticos à esquerda de possuírem um smartphone. Podemos afirmar isso porque sabemos que não é possível psicanalisar gratuitamente. O que não deve ser confundido com a possibilidade atender quem não tem condições de custear financeiramente uma análise. Uma análise que não é paga pelo paciente, é paga por alguém, seja pelo Estado, instituição filantrópica, ou qualquer outro agente que invista na importância daquele tratamento, por vezes, o próprio analista. Isso pelo simples fato que ninguém pode ser analista sem ter dinheiro para se alimentar, estudar, morar ou mesmo pagar a própria análise e supervisão.

Por isso a questão do acesso ao tratamento analítico à população depende de uma discussão séria sobre o seu custeio. Não só no sentido do Estado “financiar análise” para as pessoas, mas de políticas públicas de saúde mental que vão muito além da prática psicanalítica de atendimentos individuais. Se o debate se encaminha para o voluntarismo dos psicanalistas em “atender de graça”, estamos mal.

Quando quase metade da população brasileira se vê privada de acesso a alimentação adequada, assim como condições básicas de moradia e saneamento, é um pouco anacrônico se ressentir dos analistas por estes não terem garantido acesso ao tratamento analítico a toda população. Esses analistas falharam com seus compatriotas tanto quanto os brasileiros que comem falharam com os que têm fome. É um fracasso de uma dimensão incomparavelmente maior a qualquer mesquinhez ou elitismo que possa ser encontrado em uma associação psicanalítica.

Retornando à questão das associações analíticas e o lugar de formação, temos de reconhecer, o debate tem se dado de modo dogmático, por vezes obscurantista e tacanho, com algumas preciosas exceções. É fato que temos psicanalistas imprescindíveis na história de sua teoria que não possuem formação em saúde e, por vezes, quiçá formação acadêmica, como no caso de Melanie Klein. Mas isso por si só não garante que possamos repousar a cabeça no travesseiro tranquilos de que a não regulação garante boa formação e práticas qualificadas. Me lembro de quando visitei um paciente internado a força por seus familiares em uma comunidade terapêutica que aliciava mão de obra escrava com a fachada de tratamento para usuários de drogas (a visita resultou em um relatório de denúncia entregue ao Ministério Público), na sala de seu coordenador havia um “diploma de psicanalista”, grafado em letras góticas e pendurado na parada. Se isso não configura crime de charlatanismo, não seria possível dizer qualquer outra coisa que o fosse.

Então, sejamos honestos com nossos colegas que são psicanalistas praticantes, pacientes e comunidade em geral. O bacharelado é falso e se apresenta como trapaça, não simplesmente por ser bacharelado, mas sim por ignorar a complexidade que envolveria uma regulamentação da psicanálise como profissão no Brasil. É pior, se utiliza do nome “psicanálise” para realizar um drible nas regulamentações estabelecidas acerca da saúde e da educação. Áreas de governo responsáveis por impor uma grade curricular e fiscalização necessária. Características que são fundamentais (ainda que insuficientes) nos cursos de psicologia ou medicina.

O movimento de criação do curso de bacharelado em psicanálise é típico e repleto de cumplicidade com as práticas de quem governa o país nesse tenebroso ano corrente de 2022. Período no qual toda e qualquer segurança institucional vem sendo sabotada desde cima, utilizando de todo o subterfúgio possível para abrir caminho para o atraso.

Debater a formação analítica respondendo a criação bacharelado em psicanálise é responder a uma falsa questão. Seria um equívoco supor que quem cria o curso e quem chancela sua criação está interessado em formar psicanalistas. Temos condições de perceber que a psicanálise é só mais uma palavra passe para burlar qualquer trava institucional e emplacar o que é inadmissível de ser defendido publicamente. Assim como é utilizado o chamado “home-schooling”, a “liberdade religiosa”, a “liberdade de expressão” ou o direito a “objeção de consciência”, esses e tantos outros termos que serviriam para proteger minorias políticas do arbítrio, mas vêm paulatinamente sendo usados para praticar exceção.

Esse é só mais um episódio, dentre outros que ocorreram no passado, no qual nós psicanalistas nos vemos cobrados pela posição de defesa da não regulamentação. Fica a questão sobre quando abordaremos isso a sério, olhando para os países que regulamentaram, que não são poucos, assim como os que não regulamentaram, como o nosso caso, nos dedicando a compreender a cultura brasileira apropriadamente, para poder apresentar, com algum grau de precisão, uma avaliação que não seja tacanha ou dogmática.

Notas:

[1] Título traduzido por Paulo César de Souza para a Cia das Letras.

[2] Freud na sua época e em nosso tempo (tradução brasileira publicada em 2016)

[3] Psicanálise e nazismo, de Chaim Samuel Katz, disponível em: chaim-katz-ed-psicanc3a1lise-e-nazismo.pdf (wordpress.com)

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