A dissolução do Império: David Harvey, John Smith, e o Migrante

Por Adam Mayer, via Review of African Political Economy, traduzido por Gabriel Oliveira.

Entre janeiro e início de fevereiro de 2018 nós testemunhamos no site da Review of African Political Economy um debate entre David Harvey (ilustre professor de antropologia, história e geografia no centro de graduação da City University of New York, pai de uma gama de disciplinas em torno da geografia crítica, e talvez o nome mais conhecido do marxismo em nível mundial, ao lado de Slavoj Zizek) e John Smith (ex-professor na Kingston University, em Londres, ganhador do primeiro Prêmio em Memória de Paul A. Baran e Paul M. Sweezy por seu trabalho original Imperialism in the Twenty-First Century, e ativista da classe trabalhadora).

Este não foi o primeiro grande debate de Harvey sobre o tema do imperialismo. Recentemente, Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik incluíram na edição de seu livro A Theory of Imperialism um comentário de Harvey ao trabalho: uma conversa frutífera e polida que gira em torno da questão de se as mercadorias que vêm principalmente de países tropicais são produzíveis somente a preço de oferta crescente, ameaçando o valor do dinheiro, e impondo a deflação de renda no Sul global. O centro geográfico e climático do capitalismo é considerado como dado para Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik, e Harvey desafia sua concepção com prazer moderado.

Infelizmente, é difícil descrever o tema do meu artigo, o debate entre Harvey e Smith, como um prazer moderado, polido. Harvey fala do “idealismo grosseiro” de Smith, de sua “tosca e rígida teoria do imperialismo”, e de sua “polêmica em lugar da crítica bem fundamentada”. Smith irritou Harvey ao jogar luz em um dos aspectos menos defensíveis de sua perspectiva, a noção de um “capital global desenraizado, desterritorializado, despersonalizado”, que comanda um mundo onde a superexploração imperialista do Oriente e do Sul acabou e onde o papel do superexplorador imperialista foi atribuído para a burguesia da China e de outros países do Leste Asiático. Um mundo em que “os papéis já foram invertidos” entre Oriente e Ocidente, tal como Harvey coloca.

John Smith combate as afirmações problemáticas de Harvey com base em um instrumental de economia política em seu livro magnífico, e novamente em seu artigo no site da Review of African Political Economy, e não repetirei seus argumentos sobre a externalização da produção [outsourcing], a arbitragem global do trabalho, ou sobre como a última crise financeira apareceu. Em vez disso, vou me concentrar no que compreendo ser o erro metodológico fundamental de Harvey no debate: o desaparecimento do tempo, e, portanto, da historicidade, em seu pensamento. Isso não é uma questão menor quando consideramos que Lênin conceitualizou o imperialismo como uma fase do capitalismo.

Esta lacuna não aparece só nas considerações de Harvey sobre a teoria do imperialismo de Smith. Ele recentemente criticou Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik ao afirmar que seus ‘conceitos de espaço, lugar, geografia e meio ambiente estão todos errados”. Sobre Smith, Harvey prossegue em um sentido semelhante: “ali eu considerei a concepção tradicional de imperialismo, derivada de Lênin (e gravada na rocha por gente como John Smith), inadequada para descrever as complexidades espaciais, interterritoriais e as particularidades locais assumidas pelas formas de produção, realização e distribuição”, em ambos os casos omitindo por completo o fator do tempo, da história e do materialismo histórico de sua síntese.

Isso não é por acaso. A omissão de Harvey é estrutural, consciente e perigosa. No início de sua carreira e novamente em seu livro sobre a Comuna de Paris, ele empregou um método histórico. O problema não é sua falta de domínio do assunto, sobre o qual ele é uma autoridade mundial. Smith também observa como, para Harvey, os “países em desenvolvimento que estão agora drenando riqueza dos centros imperialistas. Essa alegação, [é] feita sem nenhuma evidência em apoio e sem estimação da magnitude dessa transferência de riqueza” [Ênfase de Adam Mayer]. Em outras palavras, mesmo que a China superexplore seus trabalhadores domesticamente e, em certa medida, também internacionalmente (em casos excepcionais), isso significa que em termos econômicos, culturais, sociais ou militares a China alcançou o status de um poder imperialista, e que as “relações estão agora invertidas” entre o Ocidente e o Oriente, tal como Harvey alega?

Quando Harvey analisa as mudanças constantes do capital global, ele se concentra na produção, finanças, planejamento urbano, salários e taxas de juros, mas ignora completamente o papel do capital cultural e de um conjunto de outras formas de capital, como o capital social, além de outra coisa que se materializa quando essas formas de capital estão ausentes: o desejo. Capital social, é claro, é muitas vezes associado com a melhora das condições de vida da classe trabalhadora, e é normalmente utilizado em uma perspectiva reformista. O conceito de capital cultural, devido à sua origem em Bourdieu, é geralmente visto como menos aplicável a economias não-europeias (Bourdieu inclui padrões de fala e hábitos, como desfrutar apresentações de ópera, como parte do capital cultural da burguesia e de seus membros individuais). Eu proponho aqui abordar o outro lado do capital social e cultural: a própria conversibilidade monetária do capital social e cultural, o destino dos subalternos e excluídos, a figura do migrante que almeja o capital legal, social e cultural, para poder demonstrar quão absurda é a noção de Harvey de que os centros do imperialismo global estão mudando. A figura do migrante africano (desde o refugiado que perde sua vida em um barco na viagem para a Itália, até o burguês ausente [absentee bourgeois] que adquiriu sua cidadania no primeiro mundo com os recursos que sangrou de sua terra natal nos trópicos) é central para nossa investigação sobre onde reside o imperialismo, e onde os impérios estão realmente localizados.

Se pensarmos por um momento sobre onde pesquisas, patentes, modas, novas ideias e ideologias nascem e são criadas, nós imediatamente vemos quão criminosamente improvável é o argumento de Harvey. Onde estão os milhões de estudantes estrangeiros que pagam o equivalente a centenas de anos de salários locais por um semestre em uma universidade na República Popular da China, ou mesmo no Japão? Mesmo Japão e Coréia do Sul só conseguem atrair alunos talentosos oferecendo bolsas de estudos para aqueles que vêm de países menos afortunados, isso sem falar da China e de outros (a China acabou de começar a empregar professores estrangeiros e está na pressa de conseguir estudantes estrangeiros pelo oferecimento de bolsas de estudo). Os diplomas chineses são investimentos de capital da mesma forma que são os diplomas estadunidenses, ou mesmo neozelandeses? A RPC é uma absoluta principiante no jogo de como o capital cultural funciona no mundo moderno – como funciona a inovação do trabalho, P&D, a moda global, e como criar desejo em uma escala global.

Harvey alega que, devido em parte à superexploração originada no Leste, a situação do trabalhador ocidental está agora convergindo com o a do trabalhador do Leste e do Sul. O trabalhador ocidental ou o desempregado não vivem no luxo, como Harvey nos lembra em sua refutação da obra de Smith. Entretanto, muitos desempregados ocidentais têm acesso à comida (na forma de vale-refeição ou seguro-desemprego), e muitos têm cobertura de saúde. Compare isso com a Hungria (uma economia semiperiférica) onde não há seguro-desemprego, e com as economias periféricas da Ásia e África, onde os pobres vivem no medo constante da fome. E quando analisamos os “novos imperialistas” de Harvey: Singapura não tem nenhum tipo de seguro-desemprego (e trata esse problema como parte integrante dos valores e “responsabilidades” da família). Estou discutindo aqui a própria segurança alimentar de um indivíduo: as pessoas são alimentadas nas prisões estadunidenses, exploradoras e de propriedade privada, enquanto elas não são alimentadas nas prisões públicas em muitos países do Sul e do Leste, onde os parentes que são responsáveis por levar comida para os detentos, caso contrário os condenados morrem de fome (a população carcerária estadunidense, e especialmente os detentos negros, são obviamente um grupo superexplorado no capitalismo dos EUA e aqui não negamos sua superexploração, somente ilustramos que no Ocidente as privações significam coisas diferentes do que significam fora do Ocidente).

Está para além do absurdo comparar o status do proletariado ocidental (e do precariado, e do lumpemproletariado, e do campesinato, e das mães solteiras trabalhadoras, e dos idosos) nos países centrais ocidentais e daqueles fora desses países. Mesmo se uma pessoa desempregada do Ocidente é materialmente mais pobre que uma pessoa desempregada do Sul ou do Leste, as primeiras possuem (em um sentido muito imediato) um passaporte pelo qual literalmente vale a pena morrer (como migrantes africanos e migrantes asiáticos demonstram tragicamente no dia a dia). Portanto, não é Smith mas Harvey quem está pensando de maneira idealista quando confunde fluxos monetários e de produção com o arranjo imperial. É verdade que só é possível que caiam migalhas para as classes subalternas nas economias ocidentais por causa da superexploração imperial no capitalismo tardio: negar isso é negar o óbvio. Quando os condenados da terra morrerem no mar tentando alcançar os litorais da República Popular da China, e não os litorais da Austrália tal como o fazem agora, a partir deste momento estarei pronto para seguir a posição de Harvey sobre o imperialismo, na medida em que “a inversão dos papéis tenha talvez avançado para além de sua origem”. Porém, quando as proteções legais, a simples segurança alimentar, ou mesmo o acesso ao conhecimento e inovação são tão desigualmente distribuídos quanto são hoje – e essa desigualdade está crescendo – pode-se muito bem demorar décadas ou um século para se falar de papéis “já invertidos” (e se a China escolher coexistir, em um papel secundário à organização ocidental, tal como o Japão faz?). Isso é o que quero dizer quando afirmo que Harvey ignora o fator do tempo e que seu foco no espaço é rígido. E mais importante, neste ponto, é que se os “papéis se inverteram”, então este debate deveria ter sido feito em mandarim, e não inglês (o autor deste artigo é húngaro).

Eu iria até mais longe. Para além do capital cultural, social e legal, há a falta de acesso, a falta de direitos, a falta de oportunidades, a falta de sonhos. Desde que programas de ajuste estrutural e os ainda mais hipocritamente nomeados programas de redução da pobreza marginalizaram o Estado pós-colonial e desindustrializaram o continente africano, o proletariado e os desempregados africanos começaram a procurar passaportes ocidentais para garantir sua sobrevivência. Como um desenvolvimento correlato, a burguesia também se tornou móvel para garantir suas posses e a sobrevivência de suas famílias em meio um situação de deterioração rápida da segurança em seus países de origem. Por volta de 2018, segmentos significativos tanto da burguesia local submissa ao imperialismo [comprador bourgeoisie] quanto das classes profissionais já emigraram de países como a Nigéria, efetivamente constituindo uma nova e emergente classe global de uma burguesia ausente do Sul no Norte. Essa classe, com uma perna no país de origem, outra nos EUA ou no Reino Unido, é representada pelos escritores emigrados que representam o que há de melhor na alta literatura mundial, tal como Chimamanda Adichie e outras.

Os pobres, entretanto, atravessam o Mediterrâneo arriscando suas vidas só para chegar nos campos de refugiados da Itália (uma jornada que apesar de custar normalmente alguns milhares de dólares é também extremamente arriscada). O melhor é tentar arranjar casamentos de fachada com pares europeus. Os realmente ricos podem, é claro, comprar cidadanias nas nações imperialistas, como na Espanha, por cerca de quinhentas mil libras por família (sem risco algum, realizada pela compra de imóveis). Este é o significado da – falta de – capital social e legal: para se integrar a uma sociedade funcional e seus benefícios (ao imperialismo, se quiser) você deve investir tanto quanto a própria vida, seu bem-estar emocional, ou um volume considerável de dinheiro, só para garantir seu acesso às benesses e afetos da vida em um centro imperialista.

Agora para o outro lado do conceito de capital cultural. Para os altos escalões da burguesia global, o componente educacional de seu capital cultural é quase inteiramente coberto com dinheiro: eles podem comprar seu acesso para os melhores colégios nos melhores países. A classe média global que precisa de diplomas pode se utilizar de truques, como procurar por esquemas de casamento com quem trabalha em Cambridge, por exemplo. Os pobres são excluídos da maior parte da produção de conhecimento e mesmo de seu acesso na maioria dos países.

Os impérios modernos são baseados nas trocas comerciais e devem ser analisados enquanto mecanismos da economia política global, mas os impérios também têm fundamento na força bruta – manifesto no número de ogivas nucleares, de bases militares pelo mundo, de países invadidos, de vidas e lugares destruídos. Essa é uma conexão importante que foi percebida por Lênin e Rosa Luxemburgo. A China, Singapura ou Coreia do Sul apresentam um poder militar que os tornam equiparáveis aos EUA, ou mesmo ao Reino Unido ou Alemanha, deixando de lado o sensacionalismo jornalístico e exagero belicista da grande mídia ocidental? Uma comparação simples do número de nações invadidas pelos países do Leste Asiático e pelos Estados Unidos e seus aliados nos últimos cinquenta anos acaba com qualquer tipo de viés e faz a noção de “papéis já invertidos” parecer ridícula.

Impérios também são fundados no desejo e na submissão voluntária massificada – uma doença muito grave quando consideramos o sujeito colonial individual, tal como Fanon nos ensina e tal como demonstram Deleuze e Guattari. O estilo de vida chinês concorre com o do subúrbio estadunidense como uma aspiração realmente global? Gente de todo o mundo costuma assistir documentários sobre o pensamento de Zhou Enlai ou prefere Billy Graham e sua turma na TV a cabo e na internet? As filhas da classe política zambiana arranjam confusão por expressar sua sexualidade de maneiras que copiam as celebridades estadunidenses (estou me referindo aqui a Iris Kaingu, Paris Hilton e Kim Kardashian), ou elas imitam a cultura chinesa em qualquer aspecto de sua estética e aspirações sexuais? O absurdo autoconsciente de minhas justaposições é obvio. As normas de expansão urbana dos EUA, as normas do império, estão adentrando mesmo na China.

Agora, de volta à questão do tempo. Tornar-se um centro imperial demorou dois séculos para o Reino Unido, e para os EUA, demorou um século e meio. Para a Grã-Bretanha, se passou um século e meio entre a destruição da indústria têxtil de Bengala e sua consolidação como um centro global de P&D (a primeira revolução industrial no Reino Unido foi baseada menos na ciência dura do que nas invenções artesanais). A destruição da indústria têxtil do norte da Nigéria cortou quase pela metade o tempo desse processo. Para os EUA, só a Segunda Guerra Mundial criou as condições para levar seu ensino superior à concorrência real com as universidades europeias: algo que ocorreu mais de dois séculos depois do início da limpeza étnica pelo genocídio dos nativos norte-americanos (a história oculta de seu império doméstico). Mesmo que afirmemos que os fluxos monetários e as mudanças tecnológicas estão incomparavelmente mais rápidos hoje do que eram setenta anos atrás, não é razoável imaginar que proporções significativas mesmo da elite mundial irão falar mandarim nas próximas décadas (dado o dispêndio de tempo que tal esforço exige, comparado a seus benefícios), e muito menos aspirar a estilos de vida chineses, imitar as normas chinesas, escolher se converter em massa para religiões, visões de mundo ou filosofias da China ou do Leste Asiático, ou seguir suas modas. Exibir estátuas maoístas de porcelana em cima de lareiras é tão somente um fenômeno da subcultura de Nova Iorque, que mal alcança mesmo a vanguarda artística da Europa Ocidental. E mesmo a China faz grande esforço para demonstrar ao Ocidente que não está disputando em termos de ideologia. É esta a postura de um império global, fonte da superexploração, tal como na descrição de Harvey?

Agora, sobre a questão do leninismo, do ataque ideológico de Harvey a Smith, e sua relação com os conceitos de centros imperialistas e periferias. Não é uma coincidência que escritores e pensadores pós-coloniais, junto com os representantes do ramo não-marxista das Teorias do Sistema Mundo, incluindo Wallerstein e Grosfoguel, aderiram aos conceitos clássicos sobre quem são os poderes imperialistas (os pesquisadores ocidentais da história militar também o fizeram, ao simplesmente seguir a pesquisa histórica). Ramon Grosfoguel, da teoria da dependência, que trabalha com as relações filosóficas entre o conceito de universalidade e a história sombria do extermínio e epistemicídio no Sul, nos elucida sobre as origens colonialistas da “visão de Deus” cartesiana, a qual, ainda que declare ter validade universal, é na verdade restrita a pensadores homens de somente cinco países: os EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Itália. Filosofia, uma disciplina que é notória por ser a mais restrita e a mais racializada em seu cânone clássico, é um requisito para a universidade ocidentalizada ao redor do mundo, mas também uma prova de como a história do pensamento seguiu de perto a história do poder econômico e da pilhagem. Grosfoguel não é um marxista, e ele mesmo chama de “idolatria” a filosofia iluminista universalista (o antecedente histórico ao marxismo e leninismo seculares), mas ainda assim reconhece as forças materiais básicas por trás da história das ideias, e a desigualmente estável constelação global do imperialismo.

O que parece aborrecer Harvey é também o radicalismo político de Smith. Smith enaltece no seu livro a experiência comercial de Cuba com a URSS como o melhor exemplo de comércio justo na história, chama de “tragédia” a ruptura sino-soviética, ataca a teoria da dependência e o euromarxismo pela falta de compromisso real com o radicalismo no Sul, e critica Ellen M. Wood por sua famosa reafirmação das origens europeias (domésticas) do capitalismo em oposição àquelas enraizadas na expansão colonial. Smith não é keynesiano. Lembrando que a Grécia é um lugar onde os coronéis venceram e onde o Syriza não conseguiu cumprir com seu programa corajoso, ele corretamente afirma que o país, de maneira trágica, é um poder imperialista menor dentro de um clube imperialista (a União Europeia). Smith é um revolucionário radical intransigente. E isso é o que aborrece Harvey, que busca agradar a todos.

Não entrarei no debate se Harvey é ou não um keynesiano não-assumido: ele, é claro, afirma o contrário, e normalmente se aconselha a levar a sério a autodefinição de um pensador. Entretanto, quando ele argumenta sobre a correção tática das soluções keynesianas, ele esquece um componente crucial a qualquer proposta keynesiana: o ameaçador Estado socialista à espreita para além das fronteiras da social-democracia capitalista. Não existiu uma experiência keynesiana significativa de sucesso no centro capitalista desde o colapso do socialismo de Estado no resto do mundo. Exigir soluções keynesianas sem defender revoluções que provêm o espaço para o aparecimento do keynesianismo é um verdadeiro e imprudente idealismo salpicado com uma pitada de nostalgia: de novo revelando a ausência da tratamento teórico sobre o tempo e a história por parte de Harvey.

O protagonista de nossos tempos, o migrante, sabe exatamente qual a verdade sobre onde está o império. Seja ela um membro da elite global que adquire legalmente sua participação no império, ou uma pobre refugiada que se pendura em um barco próximo a Queensland, Australia, ela sabe perfeitamente bem que seu destino está no centro imperialista ocidental, e é este o porquê de suas chances de alcançar sua sobrevivência física, uma maior segurança e capacitação são muito maiores lá do que em sua terra natal. Isso também nos diz que, à exceção parcial da China e de um pequeno número de outros países, a maior parte das terras não-ocidentais do mundo estão se tornando cada vez mais insuportáveis e injustas, para os subalternos e mesmo para a burguesia.

Ao invés de uma convergência feliz, nós vemos o imperialismo espreitando a terra, à procura de novas vítimas, tal como a África e suas novas “áreas críticas de segurança”. Os estudos a-históricos de Harvey sobre os fluxos instáveis, os impérios em dissolução e o capitalismo sem centros levam a nos sentir melhor com nós mesmos e com nosso papel no mecanismo social (independente de onde estivermos), e portanto ajudam a acabar com nossos instintos revolucionários. Nisso reside o perigo real do afável David Harvey de hoje, e esta é também a razão do porquê sua polidez habitual de sábio desaparece quando ele zomba de John Smith, o radical intransigente.

 

 

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1 comentário em “A dissolução do Império: David Harvey, John Smith, e o Migrante”

  1. Boa tarde, camaradas. Acho que seria interessante, se possível, que a LavraPalavra Editorial tentasse traduzir e publicar para o público brasileiro a obra “Imperialism in the Twenty-First Century”, de John Smith.

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